Bianca = Branca: decepção em um processo seletivo

Uma vez estava participando de um processo seletivo para uma grande escola na serra, na cidade de Venâncio Aires, colonizada por alemães e italianos. Eles estavam desesperados em busca de um professor. Na época eu estava fazendo um freela e recém tinha vindo morar na capital. Fiquei eufórica com a possibilidade.

Fizeram mil promessas. Falei que não tinha possibilidade de morar na serra. Eles disseram que isso não era problema, que pagariam minha estadia e que arranjariam meus horários de forma que eu pudesse ficar o tempo que fosse preciso lá para atender à escola e também com tempo para ficar em casa. Salário muito bom e benefícios maravilhosos.

Tudo aconteceu por email e telefone. De forma que a responsável não sabia nada a meu respeito além do que era importante: meu currículo. Modéstia à parte ele é muito bom. Pois bem. Estava tudo certo para a minha prova. Precisava passar por uma escrita e outra didática. A escrita foi aplicada em Porto Alegre mesmo, em uma escola da mesma rede, uma vez que a responsável pela seleção, que era coordenadora da escola em que iria trabalhar, só poderia vir para a prova didática.

Fui muito bem na prova escrita. No dia da prova didática, na escola em Porto Alegre, fui muito bem recebida e elogiada pela equipe que já me conhecia pelo processo anterior. Estávamos aguardando a chegada da responsável para iniciar a segunda e última etapa. Quando ela chegou e a equipe de Porto Alegre me apresentou a ela, nunca esqueci aquele olhar de decepção. “Bianca Ramires, com um currículo desses? Só pode ser loira de olhos verdes, alta e esbelta!” Não. Era eu. Só eu. Negra, gordinha e fora de qualquer padrão de beleza.

Fomos para aula. A equipe de Porto Alegre estava encantada e participativa. A coordenadora, fria como um bloco de gelo, ainda impactada com o choque e decepção, certamente. Acabei a aula e ela ficou de me dar um retorno no dia seguinte pela manhã. Toda a manhã à espera de uma ligação e nada. Estranhei, afinal foram duas semanas de longas ligações para me conhecer melhor. Às 15h eu não aguentei e liguei. Ela agradeceu a minha participação, mas daria continuidade ao processo por conta de “outros candidatos que se saíram melhores tanto na prova didática quanto na escrita”, foi exatamente o que ela me disse. Como é que é??? “Outros candidatos”? Que outros? Nas inúmeras conversas que tivemos por telefone ela me disse várias vezes que não havia candidatos interessados e aptos para a vaga! Nunca chorei tanto na vida. Que dor horrível! Criei tanta expectativa naquilo para ela sequer me dar um retorno e ainda me oferecer uma justificativa tosca dessas? Se eu não tivesse ligado, eu não saberia do resultado daquilo! Fiquei muito frustrada e entendi muito rápido o que tinha acontecido.

Dias depois, já refeita da dor, mandei um textão para ela e para a sede da rede. Falei do meu descontentamento e da falta de ética e profissionalismo dela comigo. Não a acusei de racismo porque não tinha como provar isso, mas sugeria que pedissem currículo com foto para evitar esse desgaste todo em uma próxima vez. A diretora nacional me ligou uns dois dias depois. Pediu perdão, disse que não sabia o que tinha acontecido e que essa não era a postura da rede. Falou ainda que a escola ainda estava sem professor e que iria investigar o fato. Passado algum tempo, recebi uma ligação da mesma diretora me informando que a tal coordenadora não fazia mais parte do quadro de funcionários dessa rede. Até fui pesquisar no site e realmente não encontrei o nome dela por lá. Se foi pelo ocorrido comigo, ou não, nunca saberei, mas também não importa. A dor por ter sido rejeitada por conta da minha cor e aparência não poderia mais ser evitada. Porém isso também me fez mais forte. Hoje olho para essa história e penso: “mimimi, não existe racismo. Tá bom. Senta lá e deixa isso para quem sofre e entende falar sobre”. Eu falo e sinto. Ele é real. e muito, muito, dissimulado. Um fantasma que não conseguimos caçar.


Bianca Ramires é professora de Língua Inglesa do ensino fundamental e médio na rede pública estadual do RS, Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG; membro do coletivo Abrigo e da Comunidade Cristã Abrigo, 2ª Secretária de Literatura e Artes da ABU/PoA. Mãe, tia, irmã, filha, amiga leal e do tipo casca-grossa- faca-na- bota, inquieta, crítica, exigente, muito autoexigente, cri-cri, questionadora e chata. Muito chata.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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