Eu, minha negritude e minha resistência aos rótulos

Esse não é um texto fácil de escrever. Tenho que respirar fundo e buscar nas minhas memórias quando foi que me percebi negra. E não tenho data precisa para isso. Não lembro. Reconheço-me como negra desde que me entendo por gente. De uma família de mulheres muito fortes e empoderadas, desde muito cedo aprendi que deveria lutar para conquistar meu espaço e não me submeter aos desmandos de quem quer que fosse. Aprendi desde pequena que deveria questionar o mundo, que não deveria aceitar verdades prontas, pré-concebidas e sem análise. Cresci assim.

Fui uma criança tranquila, porém apontada como uma que sempre tinha uma resposta na ponta da língua. Interessava-me saber os porquês da vida e isso sempre incomodou quem não estava disposto a explicar. A se explicar. Eu nunca tive problemas com a minha identidade. Nunca quis ser branca. Nunca tive complexo de inferioridade por conta da minha cor. Certamente isso se deve à criação que recebi. Sou de uma família de quatro irmãs, sou a caçula. Nossos pais sempre deram tudo de si para nos dar uma boa educação. E quando digo isso não falo só de escola. Sou de um tempo em que a educação vinha de casa, a escola exercia a sua função de contribuir nesse processo com ensino e formação para sermos seres sociais. Em casa, apesar das dificuldades, nunca ouvi nem um só discurso que nos colocasse na posição de vítimas, muito pelo contrário, o que eu costumava ouvir fez de mim o que sou hoje.

Nunca foi fácil ser negro. O preconceito é muito grande. Negro e pobre, então? Nossa! Agora, negro, pobre e mulher? Ah… isso poderia ser ainda pior! E seria mesmo, não fosse o discurso que ouvia e que fora colocado em prática desde cedo. Ainda hoje ecoam falas de que há um lugar próprio para alguém como eu. Gente, estamos em 2017 e ainda há quem aponte onde é o lugar do negro! Só que eu descobri onde era o meu lugar. A voz dos meus pais e de minhas irmãs sempre apontava para lá. Meu lugar é onde eu quiser que ele seja! Eu posso ser o que eu quiser. Filha, nós temos que nos esforçar duplamente, temos que estudar, temos que trabalhar e batalhar para sempre sermos melhores do que nós mesmos. Somos pobres e negros. O mundo não será fácil. Respeito acima de tudo. Palavras que eu ouvia deles, especialmente da minha mãe. O mundo não será fácil. Não foi. Não é.

Estereótipos me perseguem. E essa pra mim tem sido a pior forma de preconceito. Por ser negra sou colocada numa posição em que preciso atender a certas expectativas que, definitivamente, eu não atendo. Não sigo uma religião de matriz afro, sou cristã protestante e nada convencional ou ortodoxa; não gosto de carnaval, samba, pagode, soul, funk, sou rockeira hardcore desde criança – a única na família, inclusive, e, por isso, era chamada de ovelha negra na família de sambistas e de carnavalescos em que cresci. Não tenho uma voz bonita para cantar, não canto nem Parabéns! Cabelo liso? Luto por uma juba crespa. Então que tal ser a negra, do corpo escultural como o de uma passista de uma grande escola de samba? Nem pensar! Sou gorda e lido muito bem com isso. Esperavam que eu fosse a deusa do sexo que povoa o imaginário de quem acha que a mulher negra “tem algo a mais” que a mulher branca (quanta bobagem isso!), não tenho. Sexo para mim não é prioridade. Sexo é mais do que uma simples conjunção carnal. Ele envolve uma infinidade de coisas que se não estiverem em plena sintonia, não há como, de forma alguma, ele acontecer. Não casei com um homem negro, pelo contrário, meu marido e pai do meu filho é um homem branco e não vejo problema algum nisso. E a ausência de atender a essas expectativas já me foram colocadas como empecilho para ter voz. Certa vez ouvi de participantes de um determinado movimento negro que eu não poderia me manifestar sobre um assunto em pauta porque apesar de eu ser negra, era casada com um branco e seguia uma religião de brancos.

Puxa vida! Assim fica difícil! Eu não atendo às expectativas de nenhum grupo a que pertenço. Pertenço? Decidi não pertencer. Desde muito pequena eu sabia que não havia um lugar para mim. Não o lugar que projetaram para que eu ocupasse. Decidi então pertencer a um não-lugar. Um em que eu pudesse ser livre para atender apenas às expectativas que eu, e tão somente eu, criasse sobre mim. Decidi que eu seria o melhor que pudesse, mas não melhor do que os outros. Melhor apenas do que eu mesma. Imponho-me desafios todos os dias e tento superá-los. E se não conseguir, tento de novo. Minha identidade foi me sendo revelada na medida em que entendi quem eu era para Deus, me descobri filha, apenas filha. E isso foi o suficiente para que eu desejasse alçar voos mais altos e mais longos.

O mundo não será fácil. Não foi. Não é. Mas e para quem ele é? Por conta disso decidi enfrentar o peso das expectativas que as pessoas colocaram sobre a cor da pele. O mundo não é fácil para a grande maioria das pessoas, independente da cor delas. A questão é: o que eu posso fazer para tornar as coisas mais fáceis e melhores para mim e para os outros, para que possamos viver no contexto em que estamos? A resposta: Entenda-se como ser humano. Busque ser melhor do que você mesmo todos os dias. Ajude as pessoas. Seja útil. Não deixe sua vida passar em branco. Escreva seu nome na história. Na sua história.

E é a isso que eu tenho aplicado a minha vida. Não me permiti rótulos. Não os aceito. Só eu posso determinar o que eu sou. A cor da minha pele não vai definir quem eu sou, com quem devo me relacionar, que música devo ouvir ou que religião devo seguir. E decidi: a cor das pessoas também não irá influenciar no conceito que terei delas. Pessoas são pessoas. Só. Pode ser utopia ou loucura da minha cabeça. Mas é assim que penso e eu sou dona dos meus pensamentos. Responsabilizo-me por cada um deles. Foi isso que aprendi em casa. É nisso que acredito. E é isso que tem dado certo.

Aquelas palavras nunca saíram da minha cabeça: Respeite a si e aos outros. Seja melhor apenas do que você mesmo. Sempre.


Bianca Ramires é professora de Língua Inglesa do ensino fundamental e médio na rede pública estadual do RS, Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG; membro do coletivo Abrigo e da Comunidade Cristã Abrigo, 2ª Secretária de Literatura e Artes da ABU/PoA. Mãe, tia, irmã, filha, amiga leal e do tipo casca-grossa- faca-na- bota, inquieta, crítica, exigente, muito autoexigente, cri-cri, questionadora e chata. Muito chata.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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