As diversas formas do ser – pelo corpo me revelo, por ele experimento o mundo

O olhar triste torna transparente o coração. Eu sou a única pessoa que tem dificuldade de lidar com suas formas e sentidos? Eu sou mulher e gorda. Ser gorda é um terror pra muita gente, principalmente para pessoas que foram magras durante boa parte de suas vidas. Para as pessoas que são gordas desde sempre, meu caso, ser gorda é uma condição, às vezes uma penitência, um castigo. Gordofobia é também o medo de ser gorda e a rejeição por tudo que possui essa forma. Esse texto é um relato do meu processo de aceitação, emagrecimento e reconhecimento.

Eu estou em processo de emagrecimento. Não porque eu não aceito minha forma, mas por outros motivos da vida. A primeira vez que entrei nesse processo foi em 2011, o motivo foi por causa de um menino. Eu acreditava piamente que só poderia ser alguém interessante se eu fosse magra. Emagreci 15 kg porque queria ser interessante para alguém. Eu era gordofóbica. Eu sempre desassociei a minha imagem de toda a extensão de meu corpo, não é a toa que me imaginei a adolescência inteira magra, de cabelo liso e nariz afilado. Tudo que nunca fui. Eu não namoraria alguém que fosse gordo. Eu era gordofóbica. Nem me aceitava como gorda e rejeitava que me associassem com qualquer pessoa gorda. Achava que a vida de uma pessoa magra era muito melhor, muito mais interessante, muito mais bonita. Eu desprezava tudo que fosse gordo ou tivesse essa aparência. Com isso, eu me achava inferior, feia, pequena, totalmente o contrário do que diz meu tamanho todo. Eu achava que ia conseguir tudo que eu quisesse se eu emagrecesse.

A troco de quê todo esse desprezo? Um dos grandes problemas desse desprezo era querer ser alguém interessante, era suprir a minha carência de atenção, carência que eu colocava como sendo resultado do ser gorda. Era muito óbvia a relação na minha cabeça, até aquele momento nenhum menino me quis por isso. E até já havia ouvido comentário parecido de um amigo, que não ficaria comigo só porque eu era gorda, se eu fosse mais magrinha, ele ia querer. Que coisa, não?

O segundo momento da minha vida de processo de emagrecimento está sendo agora, em 2017. Ao longo dos anos, eu tenho passado por um processo de aceitação: quem eu sou e como eu apareço no espelho? E passei a reconhecer o tamanho do meu nariz, meu cabelo cacheado e meu corpo – agora ando percebendo também meus defeitos e qualidades, processo dolorido. Eu me percebi como mulher gorda. Foi uma experiência longa de desconstrução, ressignificação, de aceitação. E finalmente me aceitei. E descobri que se eu me encontrasse comigo mesma diante de Deus eu ia conseguir lidar muito melhor com tudo na vida. Que é melhor do que eu conseguir tudo que eu sempre quis, que às vezes nem é o melhor de tudo, não é mesmo? Então, me encontrar comigo mesma era me aceitar mulher gorda e reconhecer toda a beleza que há nisso. Percebi que não preciso emagrecer pra atrair ninguém, quem se atrai só por aparência é meio estúpido. E depois de certas resoluções comigo mesma, resolvi entrar nesse processo de emagrecimento. É muito mais interessante fazê-lo sem me sentir melhor que as outras gordas porque eu estou conseguindo emagrecer, sem julgar, sem me vangloriar. Na autonomia sobre o corpo, a gente pode decidir por isso. Emagrecer tem sido experimentar novos hábitos, uma nova relação com a comida. E essas renovações que qualquer pessoa pode experimentar livremente.

Por muito tempo, hesitei em emagrecer, por já ter me aceito como mulher gorda, até que percebi que o que prejudica o processo ou o que o torna falível, é quando ele é empreendido com um coração triste, preconceituoso, gordofóbico. É quando a minha busca é saciar aquele temor em ser gorda ou qualquer carência, e não outro motivo que tenha mais significado. Aceitar ser mulher gorda, pra mim, tem parecido aceitar esse corpo, aceitar que é nele que repousa meu ser e que ele é a extensão de meu ser interior e a partir dele que eu me mostro para o mundo, como também recebo do mundo. Se a minha relação interna, comigo mesma, estiver em paz, o corpo vai sentir as mudanças. E elas não são exatamente perca ou ganho de peso, mas novas relações com o mundo. E acima de tudo, entender que é nesse corpo que experimento a morte e ressurreição de Cristo, desprezá-lo, rejeitá-lo, zombar do corpo, é desprezar, rejeitar e zombar da forma que Deus nos deu para experimentar e vivenciar o mundo.

Tem um salmo que fala que enquanto escondi os meus pecados, meu coração definhava. Eu, enquanto rejeitava minha forma de ser, definhei, de verdade. Eu era incapaz de me ver, de agradecer, de me relacionar bem. Quando me expus e me olhei, e vi todas as gordurinhas, todas as curvas, todo meu corpo e confessei a minha rejeição e revi meus conceitos, o coração alegre encheu de beleza o ser! Tudo que eu queria com esse texto era dizer que é muito mais que repetir como mantra que sou bonita para ver se eu me aceito, é me ver nua diante de Deus – e diante do espelho – e reconhecer essa forma como espaço de graça, vivência, beleza. Deus é bom e a gente tem uma vida inteira para aprender a lidar com nosso ser.


Marília Teles Cavalcante é moradora de muitos lugares, paraibana de nascimento, 23 anos de vida, historiadora, mulher, gorda, tecida em poesia.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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