Beleza, Cultura e Identidade: um relato do outro lado do mundo.

Lutei contra a balança minha vida inteira. Ok, talvez a palavra “lutei” seja muito forte porque nunca fiz muita coisa para emagrecer. Com 1.63 e 94Kg segundo a tabela de massa corpórea sou Obesa nível 2. Não precisava dessa classificação para saber que nunca atingi os padrões de beleza no Brasil. Já tive que ouvir muitas coisas desagradáveis a respeito do meu peso, dentro e fora do contexto cristão. Coisas como: “você tem que emagrecer”, “você é tão bonita, pena que está gorda”, “você precisa emagrecer, é questão de saúde” (exames de saúde estão normais, obrigada), “é só fechar a boca”, “se você emagrecer vai poder aproveitar muito mais”.  

Acredito que todas nós ouvimos comentários a respeito da nossa aparência física durante toda a nossa vida, dentro e fora da Igreja.  “Ah você é muito magra, ah você é muito gorda, nossa tem que fazer uma plástica nesse nariz, tem que cortar esse cabelo, tem que se vestir melhor…” e assim por diante. Esses  comentários a nosso respeito,  vão construindo em nós uma identidade, principalmente quando eles são recorrentes e de pessoas a que nós amamos.

Hoje em dia parece um pecado ser gorda ou estar acima do peso, ainda mais com “pseudo-celebridade” gospel falando que pastor gordo não combina com liderança. Que bom que para Deus não há distinção e ele chamou a gorda aqui para o campo missionário. Vim morar na África, dentre todos os processos de adaptação que eu tive que passar, a forma como eu vejo meu corpo foi uma delas. Um dia estava andando com uma amiga e ela disse: você é tão bonita, você é “buran”. Me assustei porque ela usou a palavra na língua local que a tradução literal para o português é gorda. Eu pensei, “não pode ser, a palavra gorda e bonita nunca está na mesma frase!”. Olhei para ela, e sim, para a minha surpresa ela estava genuinamente me elogiando.  No decorrer dos anos, passando por outros países percebi que esse padrão de beleza é algo que se estende pela região da África na qual eu moro, e não é incomum pessoas me falarem: “Nossa você tem um corpo de quem faz exercícios” ,“você é tão bonita porque você é grande”, “por que você quer perder peso? Você está tão bonita assim”, “não precisa emagrecer, você é saudável”.

Na maior parte das culturas africanas uma pessoa gorda, grande, cheinha – como você quiser chamar – é uma pessoa saudável, que come bem, que tem dinheiro para comprar comida e que é bonita! E aí lógico que o conceito atrás da palavra gorda muda completamente. A palavra não mudou, o que mudou é o que ela significa! Tive que adaptar a minha mentalidade para entender que quando as pessoas aqui me diziam que eu era gorda elas não estavam me julgando ou me xingando, elas estavam na realidade me fazendo um elogio ou apenas fazendo uma observação, porque de fato eu não sou uma pessoa magra, e tudo bem!

A convivência em um ambiente onde o seu corpo é aceito traz liberdade. Liberdade de ser o que você realmente é, gorda ou magra, baixa ou alta, com cabelo comprido ou careca. Depois de algum tempo e algumas conversas com minhas amigas africanas, comecei a olhar para o meu corpo de uma forma diferente, como uma benção e não como algo que eu deveria lutar contra. Me sinto bem com as roupas, com os vestidos, me sinto bem ao redor de outras mulheres, me sinto bem na praia! Me sinto confortável com o meu corpo na África.

Mas onde está a nossa identidade? Nascidas no segundo país que mais se fazem cirurgias plásticas no mundo? Onde por vezes a pressão social pelo corpo perfeito nos faz até comprometer nossa saúde?

Estamos lidando não apenas culturas distintas, mas formas de enxergar a vida e os seus processos. Como mulheres cristãs, a cultura, a cosmovisão que devemos incorporar em última instância é a do Reino de Deus, sabendo que a nossa vida nesse mundo é passageira e que tudo, inclusive o nosso corpo e os padrões de beleza, vão passar. E aí me questiono:  o que é ser uma mulher bela no reino de Deus?

O famoso capítulo da mulher virtuosa  ou mulher exemplar, fala de várias características que uma mulher que teme ao Senhor deve ter.  É interessante notar que apenas uma das características elencadas, entre tantas,  nessa porção das escrituras é relacionada a aparência física (e provavelmente foi usada de forma metafórica). No versículo 17 lemos “Entrega-se com vontade ao trabalho: seus brações são fortes e vigorosos”, fim. Essa é a única menção de uma característica física da mulher virtuosa.

Lembro-me da história de Rute a quem Boaz definiu como mulher virtuosa (Rute 3.11), ou Ester a quem Deus usou para salvar o povo judeu (Ester 4.13), Maria que deu a luz ao nosso Redentor, e volto para Provérbios 31. A beleza no reino de Deus tem a ver com caráter (v.11), bondade (v.12), entrega, misericórdia (v.20), sabedoria e amor (v.26), dignidade (v.25) e finalmente com temor ao Senhor: “A beleza é enganosa e a formosura passageira; mas a mulher que teme o Senhor será elogiada.” (Pv 31.30).

Esse deve ser nosso último objetivo, a nossa identidade. Conhecer ao Senhor, temer ao Senhor e é apenas nessa “cultura” que devemos nos esforçar para nos encaixar. Na cultura onde a mais rica recompensa, será um corpo novo, glorificado, e a eternidade junto com Aquele que se deu, para que pudéssemos viver livres.


Bárbara França *

* Codinome. O nome real deve ser preservado por questões de segurança no campo missionário.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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