As filhas de Zelofeade eram feministas | Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza

A Bíblia é um livro que nos traz inúmeros relatos de histórias com o protagonismo de figuras masculinas. Após essa afirmação e, antes de prosseguir, quero abrir um espaço para dizer três coisas que julgo ser importantes — a fim de evitar interpretações e julgamentos equivocados a respeito da minha fé:

1) Eu sei que encontramos alguns exemplos de mulheres fortes na Bíblia — inclusive, este texto surgiu com base em cinco delas. Mesmo assim, dentro da igreja, as histórias sobre mulheres aparecem com pouca frequência.

2) Deus já está ciente dos meus questionamentos e incômodos com essa questão.

 3) Ter dúvidas e questionar não significa deixar de confiar nEle.

Dito isso, sinto que podemos continuar. Questionar se tal fato é fruto do contexto sócio-histórico-cultural não é o intuito deste texto, mas serve para (ao menos) começarmos a prestar atenção em um problema que, mesmo antigo, é muito atual: por que a mulher tem menos espaço na sociedade? Por acaso, somos seres incapazes de produzir, criar, liderar ou realizar feitos importantes o suficiente para sermos lembradas? Eu acredito que não. E mais: acredito que Deus tem certeza que não — porque homem e mulher foram criados para viver em uma relação de igualdade. Estamos, literalmente, sob a mesma missão.

Eugene Peterson, na introdução ao livro de Números, teve uma fala muito interessante — que eu acredito estar intrinsecamente relacionada a esse questionamento. Ele diz que:

“Tornar-se uma comunidade verdadeiramente humana é um processo demorado, complexo e confuso. Crescer simplesmente como homem ou mulher exige toda a sabedoria, paciência e coragem que possamos produzir. Mas crescer com os outros — pais, irmãos e vizinhos, sem falar nos estranhos esquisitos e nos inimigos cruéis — complica imensamente o processo. […] Uma comunidade humana que honra Deus precisa expressar, na prática, o amor e a justiça nas questões do dia a dia”.

VAMOS À HISTÓRIA ?

Este é um relato sobre mulheres que questionaram, se posicionaram e clamaram por equidade em uma questão que não estava sendo tratada de maneira justa. Você pode encontrá-lo no capítulo 27 do livro de Números.

As filhas de Zelofeade. Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza eram os seus nomes. Seu pai pertencia aos clãs de Manassés, filho de José e, portanto, tinha direito a um pedaço da terra prometida por Deus ao povo de Israel. Depois que os israelitas foram libertos da escravidão no Egito, ficaram vagando no deserto durante 38 anos antes de entrar em Canaã. Neste período, algumas pessoas começaram a adorar, prestar culto e fazer sacrifícios para outros deuses. Zelofeade não fazia parte deste grupo.

Quando ele morreu, suas cinco filhas — que não se conformaram com a condição de exclusão sobre suas vidas e foram precursoras em sua época — decidiram reivindicar sua herança para Moisés. Naquela época a herança de uma família só poderia ser passada para o primogênito homem e para os outros filhos — a fim de que eles se casassem e dividissem esses bens com sua nova família. As mulheres não tinham direito a nada.

Então, elas foram até Moisés, o sacerdote Eleazar e os líderes da congregação e disseram: “Nosso pai morreu no deserto, mas não faz parte do bando rebelde de Corá. Ele morreu pelos próprios pecados e não deixou filhos homens. Mas por que o nome do nosso pai deveria desaparecer do clã só porque não tinha filhos homens? Nós queremos uma herança entre os parentes dele”. Moisés orou por elas e levou essa questão a Deus, que julgou e determinou: “Elas estão certas e falam o que é justo. Portanto, dê a elas uma terra como herança. Dê a elas a herança do pai”.

A Bíblia nos conta a história de mulheres que protagonizaram um ato revolucionário e mudaram a Lei da herança para o povo de Israel. Em um primeiro momento, elas questionaram a naturalização a respeito da maneira como a questão da herança era tratada. As cinco irmãs, juntas, se empoderaram, posicionaram e reivindicaram seus direitos. E fizeram isso simplesmente porque a igualdade é uma questão de justiça.

E POR QUE O TEXTO TEM ESSE TÍTULO ?

Segundo o dicionário, feminista é uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos. Simples assim. Então, sim! As filhas de Zelofeade eram feministas.

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“Não estamos contra vocês, estamos a favor umas das outras”

Reconhecendo que esse termo assusta ou incomoda alguns dos leitores, gostaria de citar uma fala de Chimamanda Ngozi — escritora nigeriana conhecida por duas palestras muito interessantes que fez na conferência do TEDx. Ela diz:

“Algumas pessoas me perguntam: Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?” Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato”.

[Inclusive, já que citamos o trabalho de Chimamanda, aproveito para recomendar fortemente que você assista aos vídeos. O primeiro se chama “The danger of a single history” — onde a autora disserta sobre os perigos de considerar os estereótipos como verdade absoluta. O segundo, que foi fonte cheia de nutrientes para as minhas reflexões a respeito do tema, se chama “We Should All Be Feminists”— ultrapassou a marca de 3,5 milhões de visualizações e foi musicado por ninguém menos que Beyoncé. Neste ensaio, ela conta diversas histórias simples e pessoais para ilustrar o quanto ainda precisamos caminhar como sociedade e seres humanos para alcançar uma igualdade de gênero plena e integral. E segura esse bônus: caso te interesse, a adaptação em formato de livro (é bem curtinho!) deste discurso está disponível para download gratuito na App Store, no Google Play e na Amazon].

Desde sempre, meninas são ensinadas a ficar caladas e sorrir quando discordam de alguma coisa. “O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero”, destaca a autora.

 

As filhas de Zelofeade me ensinaram o contrário. Em apenas quatro parágrafos, elas me inspiraram a escrever esse texto. Me incentivaram a não me calar. Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza são donas de uma história forte, cheia de significado e que me traz esperança. Essa, com certeza, é uma história que me inspira a lutar, todos os dias, pela igualdade de gênero.

E hoje, dia internacional da mulher — um dia de luta! — , quero fazer um convite a todas que me leram até aqui: sejamos como essas mulheres fortes e corajosas. Quer você priorize seu casamento ou sua carreira profissional, quer seja casada ou não queira ver um vestido de noiva nem pintado de ouro. Quer seu sonho seja ter uma casa cheia de filhos correndo ou conhecer todos os vilarejos da Ásia sozinha. Se você é mulher, não se conforme — mas tenha esperança! Questione todo o tipo de estrutura patriarcal e machista que encontrar pelo caminho. Quando for silenciada, junte-se a outras mulheres e façam um escândalo! Não se cale diante das injustiças. Não aceite migalhas. Ocupe a cidade. Use seus dons e talentos como ferramenta de protesto — seja qual for a sua profissão. Seja você uma médica, empresária, educadora, advogada, psicóloga, musicista, dançarina, atleta, arqueóloga, historiadora, pesquisadora, engenheira, química, bióloga, mochileira, designer, cientista, chef, tatuadora, publicitária, CEO, arquiteta, artista ou teóloga. Tome de volta o que é nosso por direito e o que só nós compreendemos: o espaço e o significado de SER mulher — com todas as lutas, dores, dificuldades e alegrias. Seja como você for. SEJA!

A desigualdade, as piadinhas machistas, a invisibilidade, a opressão, os abusos, os silenciamentos e as violências não terão a palavra final. Resistimos. Sobrevivemos. Ni una menos.

ESTAMOS JUNTAS!

Publicado originalmente em: https://medium.com/@jsscrznd/as-filhas-de-zelofeade-eram-feministas-1b632a9db123#.lftgz77ji


Jéssica Rezende, 23 anos. Publicitária por formação, mas o que faz brilhar mesmo os olhos é a educação. Entende que Deus é e está em muito mais do que a religião apresenta. Escreve sobre isso nas horas vagas.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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