Que olhos são esses que não enxergam? | Miriã

Confesso que está sendo um exercício interessante estudar sobre Miriã. Primeiro que não é uma personagem popular na Bíblia como tantos homens e algumas mulheres, logo não se tem livros falando dela ou pelo menos alguns capítulos. Mas o mais interessante são as pesquisas que fiz para encontrar mais materiais de qualidade, é incrível como a maioria dos textos que encontrei focava no erro dela, no exemplo a não ser seguido, e como a inveja dela foi prejudicial. Logo a intenção deste estudo não será esta. E não! Não isento a responsabilidade dos erros que ela cometeu, mas creio que assim como todo ser humano, Miriã foi um ser completo, com seus completos erros e completos acertos, com construções completas que passam da infância até seu amadurecimento, sendo assim, creio que seja desleal com ela e com quem a criou focar unicamente em algo não tão positivo.  Pois bem, vamos ao estudo em si.

Miriã teve sua infância em uma época complicada. Vivia em um contexto onde o Faraó ordenou que os meninos hebreus que nascessem dali em diante fossem mortos, pois seu povo crescia em demaseio. Mas ainda assim a mãe de Miriã engravidou de um menino e, contrariando as ordens do Faraó, manteve a criança consigo, até que aos três meses se torna insustentável mantê-la, então faz uma cesta para colocar a criança no rio, e assim é feito. Miriã que ainda era menina, acompanhou seu irmão que flutuava nas águas em direção ao local onde as filhas do Faraó se banhavam. Logo que a princesa viu o cesto, mandou que sua criada o pegasse e viu nele um menino. Miriã foi esperta e prontificou-se, dizendo que poderia procurar uma hebreia para cuidar da criança, assim a sua mãe biológica pôde cuidar e ainda recebendo salário por isso. Assim que cresceu, ela entregou o menino para a princesa que o chamou de Moisés, pois foi tirado das águas.

Pois Te fiz sair da terra do Egito e Te redimi da casa da escravidão; enviei diante de ti Moisés, Arão e Miriã” (Miquéias 6.4).

A história de Moisés todos já conhecem. Homem que guiou o povo de Deus no deserto até encontrar a Terra prometida. Líder de milhares de pessoas por quarenta anos. Mas pouco se fala daqueles que foram líderes com ele. Na passagem a cima, do livro de Miquéias, está sendo apontado os cuidados de Deus com seu povo, e logo mostra que Deus levantou três líderes: Moisés, Arão e Miriã. Assim como todo texto, devemos entender o contexto. Contexto este que homens hebreus eram escravos e haviam acabado de se libertarem, e se até os próprios homens hebreus eram de alguma forma inferiorizados, imagine as mulheres que socialmente eram desprezadas! Note que até nesta sociedade problemática Deus levantou uma líder mulher. Sim, Deus já estava quebrando alguns padrões sociais.

“Quando os cavalos, os carros de guerra e os cavaleiros do faraó entraram no mar, o Senhor fez que as águas do mar se voltassem sobre eles, mas os israelitas atravessaram o mar pisando em terra seca. Então Miriã, a profetisa, irmã de Arão, pegou um tamborim e todas as mulheres a seguiram, tocando tamborins e dançando. E Miriã lhes respondia, cantando: ‘Cantem ao Senhor, pois triunfou gloriosamente. Lançou ao mar o cavalo e o seu cavaleiro’ “ (Êxodo 15:19-21).

Percorrendo pela história do povo que estava indo em direção a Terra Prometida, uma das passagens mais famosas e emocionantes é a abertura do Mar Vermelho. Onde vemos o grande cuidado e proteção de Deus com seu povo. Neste momento importante da história olhamos para Miriã, ela guia as mulheres com música e dança após a travessia do Mar, todas as mulheres que estavam ali, reafirmando sua liderança diante de milhares de pessoas. Como se não bastasse, é nomeada como profetisa, sendo a primeira de toda a história bíblica, tendo depois esta honra também algumas mulheres: Débora, Hulda, a esposa de Isaías, Ana e as quatro filhas de Felipe. Sua história e seu contato com Deus já apontava para Cristo. Sua forma de adoração apontava para Cristo. Deus já falava por intermédio dela.

Porém, como já dito, Miriã e Arão também erraram, e Miriã pagou por isso. Contudo, toda história judaico-cristã é permeada de mulheres e homens, logicamente é uma história de acertos e erros. Veja Davi, homem segundo o coração de Deus, mas foram inúmeras as vezes que ele errou. Olhe Sansão, olhe Salomão, olhe todas as pessoas que permearam a Bíblia. Pessoas ótimas, mas que erram bastante. Esta é a condição humana. Suas histórias só fizeram sentido pelos erros e acertos, pela graça e misericórdia. Por si nada faria sentido, mas pela forma como Deus guiou a vida de Miriã, Ele foi glorificado e creio eu que este é o propósito maior que temos.

Agora me diga você. Sabendo que Miriã não era nenhum ser sobrenatural, que tendia ao erro como qualquer uma outra pessoa, que também teve muitos acertos, como cuidar de seu irmão quando ele era criança, liderou as mulheres hebreias, foi a primeira profetisa, era usada como intermédio de Deus para o povo… Como posso olhar para tudo isso, um ser humano completo, e não ver Deus agindo nela? Como posso usar ela unicamente como o “exemplo a não ser seguido”? Seria esse o peso que a mulher deve carregar na Bíblia? Seria essa a nossa função na igreja? Seria isso culpa de Eva? Ou seria nossos olhos corrompidos olhando para a história de uma forma distorcida?

Nós não enxergamos, mas a mulher é sim valorizada na Bíblia. Mas por que não enxergamos isso? Com o que nos vendaram? Que grade é essa que colocaram em nossos olhos para não vermos a mulher como ela é de deve ser?

Creio que o problema do machismo no meio cristão não está na religião em si, mas nos olhos que não enxergam um Deus transformando as realidades sociais desde o Antigo Testamento. O problema do machismo não está na forma que se coloca sociedade na Bíblia, mas como se coloca a Bíblia na sociedade. Repito: o cristianismo valoriza sim a mulher, nossos olhos é que não aprenderam a ver a mulher de modo que Deus nos ensina nas escrituras. Estaríamos lendo a Bíblia com olhos de vidro?

 


Ana Clara Ferreira cursa Psicologia no Centro Universitário de Lavras, cristã reformada, protestante e sempre protestando. Participa da ABUB desde seus 16 anos.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

Advertisements

Ocasionalm

Anúncios