Eu nunca traí ninguém

Perdi a conta de quantas vezes tentei escrever este texto. Eu sinto que é necessário toda vez que saio com algum antigo conhecido e preciso explicar esse fato; mas quando sento para dar palavras à dor, surge um medo que há muito pensei ter enterrado. Vamos tentar outra vez:

Eu nunca traí ninguém. Não que vocês tenham perguntado. Mas aí que está o problema: nunca perguntaram. Nunca perguntaram como era meu relacionamento, o que eu sentia, o que eu queria, o que era verdade, nem “a minha versão”. Eu sumi e ele voltou dizendo que tinha sido traído. E foi o suficiente. Acharam que eu tivesse “largado a fé” porque mudei de igreja – sei disso porque alguns jogaram na minha cara. Então era óbvio que eu teria traído! Meses depois eu estava namorando outro, e um não cristão, mais ainda. Só que não foi assim.

Embora possa parecer, este não foi o momento que me senti mais sozinha e mais largada por vocês. Foi antes. Enquanto eu tentava sair do mar, mas aquele mar me afogava e vocês assistiam como se fosse uma linda apresentação de nado sincronizado – figurativamente falando, mas bem próximo da realidade. Tentei terminar o relacionamento por dois anos, mas só ouvia como éramos um casal fofo. É, aparências enganam. Quando me senti mais forte e consegui chegar à praia ninguém estava lá pra me acolher.

Eu nunca traí ninguém. Anos se passaram, mas eu ainda preciso sentar numa mesa e me justificar explicando que não terminamos por traição da minha parte. Isso aconteceu de novo recentemente. Ano passado, ainda, uma senhora da igreja disse para minha mãe que, afinal, ela “sabia o que a filha dela tinha feito”. Não sei o que ela quis dizer, a suposta traição ou alguma outra fofoca?

Acontece que em meio a todas estas fofocas ninguém nunca me perguntou cara-a-cara numa conversa séria o que eu fiz e o que eu não fiz. O que aconteceu e o que não aconteceu. Quando este foi o assunto de algumas conversas, eu que havia levantado o tema para tirar a sombra da situação – isso com os poucos que ainda falam comigo.

Será que eu preciso esclarecer de novo? Eu nunca traí ninguém. Se você se interessa pela história posso tentar lhe contar. Tentar porque a maior parte é difícil de falar. Qual parte devo mencionar? Os joguinhos do início do relacionamento (“se não ficar comigo, vou ficar com algumas de suas amigas”)? Ou quando o ciúmes atacou até o chamado missionário? A obsessividade mascarada de devoção? Ou como eu me sentia sozinha, destruída e a pior pessoa do mundo quando tirei forças não sei de onde para gritar: “Quero respirar”?

E o que mais me assustava eram as contradições. Eu queria viver aquele relacionamento, mas eu não queria viver a maior parte do que vivíamos juntos. O lado doce, que aparentemente me amava e fazia muita coisa por mim, se chocava com o lado que me sufocava, me controlava, e todo o ciúmes. Ele abriria mão de muita coisa por mim, eu sei, mas exigiria que eu deixasse de ser eu mesma. E as contradições internas eram as que mais me matavam: meu próprio desejo era minha própria armadilha nas mãos de alguém que não sabia respeitar e dizia sempre manter o controle. Acredita que eu aprendi respeito no namoro seguinte, com aquele que pra vocês era só um não cristão?

Por diversas vezes eu via uma possibilidade de saída e lutava para me livrar daqueles braços. Até exagerava nos motivos, não aceitando nem pequenas coisas, ansiando por me libertar das grandes que eu não sabia explicar (ou não tinha provas nem certeza). Mas não conseguia. Não voltava por perdoar, nem amar, mas por temer. Independente das razões, a traição mais profunda já tinha ocorrido quando o respeito foi rompido.

Eu nunca traí ninguém. Mas quando olho para o passado sinto como se tivesse traído a mim mesma quando fui nadar e de repente me vi no fundo do mar.

Às vezes sonho que as coisas poderiam ter sido diferentes. Sonho com uma igreja que se importa em ouvir a mulher da mesma forma que se importou em ouvir o homem. Sonho com uma igreja atenta para perceber os relacionamentos abusivos em seu meio, pronta para perguntar, ouvir e ajudar a tirar as pessoas destes mares revoltados. Sonho com uma igreja que não sinta mais necessidade de culpar a mulher quando um relacionamento termina. Sonho com uma igreja que esteja pronta para as contradições, tanto as teológicas quanto as nossas próprias. Sonho com uma igreja que seja espaço de acolhimento e amor.

Quero ser essa igreja também. Pra que não seja necessário escrever mais textos como este, para que as meninas de hoje não precisem explicar seu passado mesmo depois de casadas. Pra que eu não precise mais explicar para os poucos que ainda se importam comigo: eu nunca traí ninguém.


Jessica Grant é graduada em jornalismo e letras, assessora de comunicação e arte na Aliança Bíblica Universitária do Brasil, casada com Lucas, e da Igreja Metodista Livre da Saúde.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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