Preta flora na negra mesa do Senhor

Passei um tempo procurando uma mulher negra protestante. Mas não qualquer mulher negra protestante. Eu queria ler sobre alguma negra inscrita na história do protestantismo brasileiro, importante, protagonista, fundadora, ponto de mudança. Foi difícil por duas razões: a primeira é que, ao nos debruçarmos sobre a história do cristianismo no Brasil, achamos uma lista grande de homens brasileiros e estrangeiros que participaram de sua construção, mas percebemos a presença de pouquíssimas mulheres[1]. A outra e mais importante das razões é porque as mulheres negras, em determinados momentos da história, não são mulheres.

Por que mulheres negras não são mulheres?

Porque nós temos apenas um tipo de história para contar sobre elas. Uma história única de exclusão, escravidão e sofrimento, que vem se modificando a partir do momento que visibilizamos as negras e seus feitos. Chimamanda Adichie, escritora nigeriana, não foi a primeira a apontar os perigos de um único ponto de vista, mas tornou pública como esta perspectiva é criada: “mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que ele se tornará”, disse. Ela também discute que devemos nos preocupar com os autores [masculino mesmo] dessas histórias. Quem as conta, quando as conta, quantas histórias são contadas. Quem faz dessas histórias as definitivas sobre as pessoas. Uma terceira dificuldade é que a “história única cria estereótipos” e como estereótipos são representações incompletas, eles fazem um história tornar-se a Única História. Esse movimento, de evitar histórias únicas, especialmente sobre a negritude, traz a possibilidade de pensar essas mulheres a partir de um viés de complexidade, inscrevendo-as como pessoas, evidenciando sua humanidade.

A história que escolhi: Quem é Flora?

É triste ter que contar sobre uma mulher negra e começar falando sobre escravidão. Parece que a condição de existência delas só se dá a partir desse fato. O que faziam e quem eram as mulheres negras antes desse período degradante da história? Quem eram e onde estavam? Aqui fica o incentivo a fugir das histórias únicas e pensar no antes, mas relembrar esses momentos de violência e resistência ajuda a situar a personagem desse texto que foi mulher escrava.

As negras escravas tinham, em suas vidas, uma série de especificidades que muitas vezes é ocultada na história. É muito comum associar diretamente a escravidão de mulheres negras ao trabalho e esquecer o quanto a exploração escorregava para outros aspectos da vida. Esse ocultamento é comum, já que as mulheres negras não eram consideradas mulheres. Se o sistema escravista definia o povo negro como uma propriedade, as mulheres também eram corpos lucrativos e unidades de trabalho desprovidos de gênero. A imagem da escrava da casa não condiz com o fato de que a maioria das meninas e mulheres trabalhava pesado na lavoura durante todo o dia. Ainda no aspecto do trabalho, a opressão de mulheres negras era idêntica à dos homens. Angela Davis,[2] porém, defende que as mulheres sofriam de forma diferente porque sofriam maus tratos específicos das mulheres – estupro -, e afirma que a atitude dos senhores se pautava na conveniência: não teriam gênero para explorá-las lucrativamente como se fossem homens e teriam suas condições de fêmeas relembradas quando era preciso punir por meio da exploração do corpo.

É importante demais marcar que as mulheres negras eram estupradas, o que ultrapassa em intensidade quando comparado com os castigos para homens. O estupro era uma arma de dominação, cujo objetivo era aniquilar o desejo das escravas de resistir. Além de açoitadas e mutiladas, as mulheres negras eram violentadas. Precisariam ter filhos para reproduzir e aumentar os lucros, assim não teriam filhos, mas objetos que aumentariam a força de trabalho; e toda a experiência de maternidade ficcionalizada do mundo moderno não seria permitido às negras trabalhadoras escravas, já que teriam que estar na lavoura. Angela Davis conta ainda que, durante o período de escravidão nos Estados Unidos, mulheres doloridas com seus peitos cheios de leite eram açoitadas nessa região do corpo. Dor, leite e sangue misturados.

Aqui no Brasil, fazendo o recorte da relação entre escravidão e cristianismo, tivemos a chegada dos missionários protestantes americanos e também a colonização católico-européia. Há evidências que clérigos e suas ordens mantinham a posse de escravas e escravos, e o discurso da importância do batismo se configurava como um rito de passagem das pessoas africanas e afro-brasileiras. “A escravidão, portanto, até os idos de 1870 era entendida como um meio de salvação”[3], a pessoa negra não tinha alma, recebia uma após o batismo. O protestantismo se assemelha bastante ao catolicismo em sua metodologia de exclusão, pois sua implantação no Brasil se deu a partir da tríade (1) polêmica/embate com o catolicismo, (2) ação educacional e construção de escolas e (3) ênfase na estrutura conversional. Essa terceira negaria todas as outras formas de religião, incluindo a de pessoas escravas negras africanas ou afro-brasileiras. Em estudo sobre a relação entre pessoas afro e o metodismo no Brasil, José Roberto Alves Loiola[4] escreve que não há registros de que a missão metodista tenha se envolvido no movimento abolicionista e que o protestantismo em geral passa de largo sobre a questão abolicionista. Trazer esse fato tão específico aqui é fundamental para a introdução de uma preta chamada Flora.

Flora Maria Blumer de Toledo foi uma mulher negra que nasceu na capitania/província de Porto Feliz, São Paulo, em 1833 na Fazenda de Matias Toledo. Flora veio ao mundo em um período de crescimento da população escrava. Nesta província, em 1829, escravas e escravos representavam 52% da população[5]. Porto Feliz era um dos municípios do chamado “Quadrilátero do Açúcar” (área que compreendia Sorocaba, Piracicaba, Mogi Guaçu e Jundiaí), que entre os séculos XVIII e XIX, vivenciou o desenvolvimento da atividade canavieira. Encontrei poucas fontes sobre sua vida na internet, nenhuma fotografia. Não encontrei nada sobre sua família, sua ancestralidade. Flora, diferente das irmãs negras escravas citadas anteriormente, que trabalhavam nas plantações, trabalhou nos serviços domésticos na casa do seu dono, permanecendo na fazenda por 42 anos. Naquela época o trabalho doméstico contemplava os cuidados com a casa, com a alimentação, acompanhamento de moças e algumas escravas cuidavam ou amamentavam crianças. Como um espelho histórico, as mulheres negras até hoje, em sua maioria, têm os empregos como empregadas domésticas como porta de entrada para o mercado de trabalho e, para algumas delas, única forma possível de ocupação. Atualmente muitas jovens mulheres negras vêm refazendo a história de suas mães, avós e bisavós e conseguido estudar e chegar até os níveis de pós-graduação e trabalhar em setores acadêmicos e empresariais como líderes.

 

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Figura 1. Exemplo de anúncio de venda de uma escrava no século XIX (não é o de Flora)

Flora foi vendida em 19 de Abril de 1875 para um protestante luterano chamado Pedro Blumer, que morava na cidade de Piracicaba. Flora viveu na casa de famílias protestantes escravistas. Porém, foi a partir dessa mudança que ela se inscreveu na história do protestantismo brasileiro. Na mudança ela conheceu uma mulher chamada Martha Watts, missionária e professora americana.

“Eu não ando só”: a história de duas mulheres

Aproximadamente nesse período (entre 1860-1865) aconteceu a Guerra Civil americana, período tenso que depois do término, suscitou um deslocamento da experiência nacional e muitas mulheres se inseriram em atividades públicas religiosas. Segundo Eliane Moura da Silva[6], em 1840, o envolvimento das mulheres americanas no abolicionismo favoreceu a consciência dos limites sociais e da condição injusta das mulheres na sociedade. Como contraponto à vida marginal que mulheres, ainda que fossem ricas, viviam, a fé protestante se apresentou como uma possibilidade de resistência e inserção na vida pública. O trabalho religioso era um trabalho de mulheres e a perspectiva de reformar o mundo se apresentava para elas como uma missão. Estabelece-se então o trabalho feminino missionário no final do século XIX, e, como não poderia deixar de ser, o Brasil e a América Latina foram vistos como “campo”, já que haviam pessoas perdidas nessas terras tão necessitadas de mais colonização e conversão. Estou sendo irônica, não custa avisar. Nesse contexto, chega ao Brasil a missionária Martha Watts, que vai ter sua vida cruzada com a de Flora.

Martha Hite Watts nasceu em Bradstown, Kentucky, em 13 de fevereiro de 1845. Seu pai era advogado e sua mãe, dona de casa. Ainda jovem mudou-se para Louisville onde se formou professora e freqüentou a Igreja Metodista da Broadway. Perdeu o noivo durante a Guerra de Secessão e permaneceu solteira. Chegou aqui no Brasil como missionária metodista com uma preocupação grande em relação à educação de crianças[7]. Queria educar através da doutrina protestante, ensinar por meio da Bíblia e evangelizar. Ao chegar ao Brasil, Martha comprou uma escrava. Martha conheceu Flora. A missionária era abolicionista e, logo em seguida, organizou todos os trâmites para que Flora fosse alforriada. Há quem não considere a alforria um processo de libertação para as pessoas escravas e concordo bastante. Existe um abismo entre a formalidade de ser alguém dito livre e ter uma vida autônoma, ser uma profissional paga e com direitos, ser enxergada como gente.

O mais revolucionário nessa história não reside no fato de que a americana rica vem ao país para libertar a pobre escrava. Isso não é impressionante. O que impressiona na relação entre essas duas mulheres é o fato de uma mulher enxergar outra mulher. Me permito um exercício fabulativo, já que não existem recursos históricos: Flora é vista por Martha como pessoa, ela deixa de ser um corpo útil para a exploração, um ser inferior, alguém que o discurso protestante marca como distante de Deus por causa de sua cor e condição. Uma mulher se aproxima de outra mulher, a aproxima de sua vida, dá visibilidade e escreve seu(s) nome(s) na história.

Martha Watts fundou o Colégio Piracicabano, que atualmente faz parte no núcleo de educação de Piracicaba que inclui uma universidade (UNIMEP) e um centro cultural que leva seu nome. Flora foi contratada e trabalhou no colégio após sua alforria, sendo a responsável pela cozinha e despensa e seguiu funcionária até morrer. Acompanhou Martha Watts em diversas viagens aos Estados Unidos, recebeu instrução e falava inglês fluente. Conta-se que era muito querida pelas missionárias e por suas alunas e alunos. A vida de Martha deve contar a vida de Flora e a vida de Flora deve contar a vida de Martha. As mulheres não andam sós.

A Igreja Metodista de Piracicaba foi fundada em 1881 e, no livro que lista os nomes de membras e membros, está registrado em 21 de janeiro de 1883 o nome de Flora Maria Blumer de Toledo, a primeira mulher afro-brasileira a ser admitida via pública profissão de fé em uma igreja protestante no Brasil[8]. Neste mesmo dia foram admitidos os membros da família Blumer, antigos “donos” de Flora. Se aquela comunidade era casa, Flora agora era visível, pessoa, uma igual ao seu antigo senhor. Na casa de Deus não há espaço para desigualdades. A preta, o senhor rico, a missionária, todos juntos rendidos ao pés de Jesus.

Registra-se que Flora Maria faleceu em 1892. Ela era, no Colégio Piracicabano, a Tia Flora. Segundo o site do Colégio, em 2003, quando inaugurado o Centro Cultural Martha Watts, um de seus ambientes foi batizado com o nome de “Café Flora”, para que sua história seja sempre recordada na memória dos alunos e visitantes.

Negra mesa do Senhor

Um dia desses

Vou me sentar à mesa do Senhor

E me queixar aos gritos

Vou caminhar ao lado de Jesus

E dizer a Deus como você me trata

Spiritual, Alice Walker[9]

 

Eu não conhecia a história de Flora, uma mulher negra como eu. Dona de um corpo de cor revolucionária. Tão revolucionária que é combatida, maltratada, silenciada, branquificada. Protestante como eu. Enquanto pensava e escrevia lembrei de um conto da Alice Walker chamado A mesa do Senhor, assim sem crase. Na história uma velhinha negra, vestida com um traje de domingo mofado, com um rosto assim descrito: “séculos estavam envoltos nos círculos em volta de um dos olhos, enquanto em volta do outro, gravadas e mapeadas como se fossem ser impressas, outras eras ameaçavam vir à luz”, entra numa igreja. Ela ousou entrar em uma igreja branca, sentar no último banco da igreja branca, e olhar para a cruz da igreja branca. Foi expulsa pois seu corpo negro não pertencia àquele lugar e ficou perplexa jogada na escada. Lá dentro tudo voltou ao “normal”.

Em que mesa sentam eu, você e Flora? Na casa de Deus, onde é nosso lugar? É na mesa? Na cozinha? É na celebração, cantando, sorrindo, contando histórias? É ao lado de Jesus? Quem deseja sentar-se ao lado de nossos corpos? Quem deseja comer e caminhar conosco?

O conto termina com Jesus chegando e convidando a velha preta para caminhar, ela obedece e parece viva. Primeiro caminhou em silêncio, depois começou a contar sobre todos os anos que cozinhou, limpou e cuidou de filhos que nem eram seus. Ela olhava pra Jesus e sorria, ele sorria de volta. Ela contou também sobre o episódio na igreja branca e, indignada, disse que só cantarolava em silêncio, em pensamento, quando foi jogada pra fora de SUA igreja. Ele sorriu e ela se sentiu melhor, o tempo parecia voar ao lado de Jesus. Passaram pela casa dela, miserável. Ela rompeu o silêncio pra dizer como estava alegre por Jesus ter vindo caminhar com ela, que costumava olhar sua imagem no quarto. Não sabia onde estavam indo, mas poderia caminhar assim pra sempre. Olhem lá, uma negra do lado de fora, ao lado de Jesus.

“Aquela gente da igreja nunca soube o que aconteceu à velha. Eles jamais mencionaram sua existência a qualquer pessoa ou mesmo entre si. Algum tempo depois, a maioria deles ouviu falar que uma velha de cor morrera em algum ponto da estrada. Por improvável que fosse, parecia que ela resolvera caminhar até morrer. Muitas das famílias negras à beira da estrada diziam que haviam visto a velha senhora andando decidida: às vezes resmungando numa voz baixa, insistente, às vezes cantando, e ainda outras vezes apenas fazendo gestos nervosos com as mãos. Em outros momentos, sorrindo silenciosa, com os olhos no céu. Eles diziam que ela estava sozinha. Alguns até se perguntaram em voz alta onde ela estivera indo tão determinada que seu coração não aguentara. Alguns supunham que ela talvez tivesse parentes do outro lado do rio, a alguns quilômetros de distância. Mas na verdade ninguém sabia”[10].

Para Flora e todas as negras invisíveis, há uma mesa depois da caminhada.

 

[1] No texto Deus mobilizando suas tropas: as mulheres na história do protestantismo brasileiro, publicado anteriormente no Projeto Redomas, Deborah Vieira dá visibilidade a algumas delas.

[2] DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

[3] LOIOLA, José Roberto Alves. Metodismo de imigração e afro-brasileiros: Análise de alguns aspectos importantes da relação entre imigrantes metodistas estadunidenses e população afro-brasileira na região de Piracicaba no período de 1867 a 1930. Dissertação de mestrado, 2011

[4] LOIOLA, 2011.

[5] GUEDES, Roberto. Parentesco, escravidão e liberdade (Porto Feliz, São Paulo, século XIX). Revista Varia Historia, 2011.

[6] SILVA, Eliane Moura. Gênero, religião, missionarismo e identidade protestante norte-americana no Brasil ao final do século XIX e inícios do XX. Revista Mandrágora, 2009.

[7] SILVA, 2009

[8] LOIOLA, 2011

[9] WALKER, Alice. A mesa do senhor. In: WALKER, Alice. De amor e desespero: histórias de mulheres negras. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

[10] WALKER, 1998.


Paloma Nascimento dos Santos é professora de Química, mulher negra e feminista interseccional. É assessora auxiliar da ABU Sul e articuladora da Rede Fale. Pernambu-cana-de-açúcar.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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