Por que você não deve dizer ‘Yo’ perto de mim

Como discutir sobre negritude nos ajuda a superar nossas divisões.

Mesmo com o aumento da atenção dada às questões de raça e etnia, qualquer tentativa de entrar em uma conversa sobre estas questões se inicia com um pouco de timidez: Posso falar isso? Posso usar essa palavra? Como a pessoa vai se sentir se eu perguntar sobre…?

Esses tipos de perguntas também podem surgir em torno de observações do Mês da História Negra¹, à medida que as pessoas reflitam sobre as maneiras de honrar os afro-americanos sem recorrer a estereótipos, clichês ou tabus.

Nossa relutância em discutir questões de raça e negritude e renunciar ao silêncio “seguro” muitas vezes vem de um desejo de respeitar os outros, mas também de nosso próprio medo de ser chamado de insensível, ofensivo ou pior, um racista.

Esse termo chega com tanto peso e é uma pena que as pessoas não se relacionem com ele. Existem poucas pessoas racistas auto-identificadas, embora muitas em nosso país e nossas igrejas realmente lutam contra o racismo. Nossa distância deste termo nos impede de nos envolver totalmente com as questões de raça.

Anteriormente eu escrevi um texto para desafiar os cristãos a avaliarem seus corações para ver se o orgulho e a auto-exaltação alimentam o pecado do racismo dentro deles. Sei que o racismo está bem vivo e presente porque conheci pessoas que que dizem lutar contra ele.Durante o ano passado, eu me envolvi com irmãos e irmãs que estão dispostos a enfrentar seu pecado, arrepender-se, e pedir a Deus para que mude.

Creio que muitas dessas pessoas continuariam a ser complacentes com seu pecado, se algumas igrejas e organizações não tivessem começado a liderar discussões sobre as questões de raça e negritude. Quando estamos dispostas a ter conversas difíceis – e às vezes desconfortáveis – Deus trabalha através delas.

Pesquisadores descobriram que a maioria dos evangélicos acredita que “uma das maneiras mais eficazes de melhorar as relações raciais é parar de falar sobre”. Esse sentimento revela quantos de nós prefere ignorar as questões raciais como uma força social, bem como nosso próprio preconceito racial.

O viés racial chega primeiro por uma questão de instinto. Qual é sua reação quando você vê alguém que parece ser descendente do Oriente Médio embarcando em seu avião? Se você está andando em uma área urbana e um grupo de homens negros param pra te pedir uma informação, o que você pensa? Quando você vê um homem branco com barba, vestindo jeans skinny em uma cafeteria, o que você pensa sobre ele? Toda pessoa negra dança bem e de forma sensual? Todas as pessoas asiáticas são super inteligentes? Todas as pessoas africanas vivem em cabanas sem eletricidade? Todas as pessoas brancas dos EUA vivem nos subúrbios e dirigem mini-vans?

Eu já experimentei esse tipo de tendência racial instintiva. Certos indivíduos me conhecem e sentem a necessidade de falar uma certa palavra (“Yo, what’s up?“²) ou mover-se de uma maneira que claramente reproduzia algo que viram na televisão. Eu não me ofendia nesses momentos; estava confiante de que, com mais tempo de convívio a pessoa poderia comprovar que esse estereótipo não se aplicava para mim. Em outro exemplo, quando fui aceita na escola de direito, alguém declarou que eu devia ter me beneficiado de ações afirmativas. Por que não foi estudando bastante a primeira suposição em relação à minha aprovação?

Somos facilmente influenciados pela cultura – o que lemos, vimos ou ouvimos falar, mas não experimentamos – e as atitudes e sistemas de crenças das gerações passadas. Para haver reconciliação e mudança em nossa nação, comunidades e igrejas, devemos reconhecer que o viés racial é de fato uma possibilidade para todas e cada uma de nós. Então, queremos lutar contra nossas suposições sobre as outras pessoas, sobre as pessoas negras, aprender e fazer boas perguntas.

Cabe a nós reconhecer que nossas suposições são problemáticas e reconhecer nossa ignorância. Embora a falta de compreensão sob muitos preconceitos raciais não seja necessariamente pecaminosa, ela pode levar a uma mentalidade não bíblica que favorece a ideia da superioridade branca em relação a outras. Uma vez que esse discurso causa julgamento injustificado, ansiedade ou medo, e violência, é pecado.

A frase frequentemente usada “não há nada de novo sob o sol” também fala sobre discriminação racial. O preconceito levou um sacerdote e um levita a passar por um homem ao lado da estrada depois que ele sofreu roubo e ser espancado (Lucas 10: 31-32). E foi o amor ao próximo que levou o samaritano a ajudar o homem, independentemente do viés racial (Lucas 11: 25-37 e João 4: 9).

Além disso, sabemos que Jesus nunca teve esses preconceitos. Ele estava constantemente contra o sistema e as definições culturais e societárias de raça e etnia. Ele não estava pecando – nosso Salvador nunca pecou (2 Coríntios 5:21) – ele andou nesta terra em completa pureza e justiça. Ele se relacionava, cuidava e servia aos que não eram como ele.

As Escrituras nos dão uma nova perspectiva em relação a como vemos uns aos outros: somos todos criados à imagem de Deus (Gn 1:27). Somos criados unicamente diferentes, para a glória de Deus, mas somos uma humanidade (Gn 1: 26-28, Atos 17:26). Devemos abraçar nossas diferenças, mas não permitir que nossos preconceitos e estereótipos dirijam nossas ações. Todos nós devemos nos mobilizar e se esforçar para aprender. Devemos também nos arrepender, onde o arrependimento é necessário, e ser honestas sobre como vemos nosso próximo.

Este breve post não resolverá o problema, mas eu oro para que ele construa a consciência, que é um passo rumo à compreensão, à cura e à reconciliação. Estamos unidos pelo evangelho que nos torna capazes de amar e servir àqueles que não conhecemos.

Publicado originalmente em www.christianitytoday.com/

¹ Nos Estados Unidos, o Mês da História Negra ou o Mês Nacional da História Afro-Americana é uma celebração anual que acontece no mês de fevereiro desde 1976. É um tempo para discutir as  conquistas das pessoas negras americanas e para afirmar o papel central na História dos EUA.

² Algo que traduzido se aproximaria de “Yo, e aí?”, a expressão Yo é uma interjeição presente em falas coloquiais e muito associada a pessoas negras pobres. Serve para estereotipar pessoas negras.


Trillia Newbell é uma jornalista e escritora freelancer. Ela escreve sobre fé e família e é editora-chefe do site Women of God Magazine. Mora no Tennessee com seu marido e filhos.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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