O Lamento de uma mulher negra reformada

Eu me sentei em frente a uma linda mulher negra com um moderno penteado afro. Ela e eu estávamos almoçando e ela estava ansiosa para falar comigo sobre sua experiência pessoal como uma mulher afro-americana em uma igreja predominantemente branca. Ela compartilhou que o que eu tinha escrito em um post recente no meu blog sobre o tema era exatamente aquilo que ela estava passando. Ela elogiou minha coragem e admitiu que não sabia muito bem como controlar suas emoções, que estavam presas até ler meu texto. Com lágrimas correndo pelo rosto, continuou falando sobre a vontade de ter um companheiro, algo que parecia estranho devido à rara chance de alguém do sexo oposto – e raça – se interessar por ela na igreja. Lembrei-lhe da boa nova do evangelho: que Deus tem orgulho dela e a ama. Naquele momento, percebi que ela e muitas outras lutavam silenciosamente e lidavam com muitas perguntas e desejos, fazendo com que o tópico da vivência de mulheres negras em igrejas, predominantemente brancas reformadas, fosse algo realmente importante.

Mas quais são as estratégias?

Eu acredito firmemente que Deus nos deu tudo o que precisamos para crescer em piedade em relação a sua Palavra (2 Timóteo 3: 16-17), porém, livros e publicações são presentes de Deus. Apesar de ter procurado os recursos disponíveis para uma mulher negra reformada cristã, acho que não há nenhum material escrito por cristãos reformados que falem diretamente para mim. Há uma abundância de materiais para mulheres, muito é produzido sobre a teologia, e até mesmo existem alguns livros maravilhosos sobre a natureza histórica da igreja a partir da experiência afro-americana, como o livro de Anthony J. Carter “On Being Black and Reformed” [Sobre ser negro e reformado]. Há, no entanto, uma aparente falta de consciência de que a experiência de mulheres negras reformadas é, de fato, diferente da experiência masculina. Foi ideia de Deus criar homens e mulheres,  foi idéia de Deus criar a mulher negra. As necessidades únicas e específicas da mulher negra foram negligenciadas involuntariamente. É claro para mim, mais do que nunca, que estas necessidades são importantes e devem ser abordadas.

Como prosseguir?

O debate está aberto e seria uma vergonha e um desserviço permitir que essas questões fossem novamente esquecidas. Aqui estão tópicos que eu gostaria de explorar:

  1. Como a mulher negra entende a feminilidade bíblica? Entendendo que haja um interesse nisso, como abordar esse assunto sabendo que a experiência de mulheres negras no país é historicamente diferente da experiência de mulheres brancas?
  1. Algumas mulheres negras têm uma identidade que está em crise. Há muitas de nós, vivendo em comunidades brancas, servindo em igrejas brancas, e, mesmo se identificando com pessoas brancas, ainda sentindo a diferença. Precisamos falar sobre a nossa identidade em Cristo e discutir sobre a identidade em crise.
  1. Como os líderes da igreja falam sobre o desejo de casar e formar família entre as mulheres negras? Essas mulheres têm preocupações, questões e temores.
  1. O que a cultura da igreja deve expressar em um mundo caído? Em outras palavras, se você deseja uma igreja que tenha lugar para a diversidade, deve haver uma cultura diversa. Como? As pessoas negras estão sendo afetadas por essa visão?
  1. Recentemente assisti uma fala de Leonce Crump II, pastor principal na Renovation Church no centro de Atlanta, dar uma palestra sobre negritude. Ele nos desafiou a abraçar a idéia da “nova etnia”. Seu argumento básico é que em Cristo somos todos iguais. No entanto, ele também deixou claro que não está exortando que todos assimilem isso. Somos iguais, ainda assim, somos diferentes. Se devemos adorar a Deus juntos, devemos falar sobre essas diferenças. Devemos explorar e discutir o que as igrejas devem ensinar aos seus membros e membras sobre a questão da raça e negritude.

Enquanto escrevo esses tópicos de ideias e sugestões, fico muito animada. De inúmeros e-mails, textos, e mensagens que recebi sobre a necessidade de discutir essas questões, imagino que existam pessoas ansiosas para se envolver, ansiosas para aprender, ansiosas para saber como servir de uma forma mais eficaz discutindo a questão da negritude. Fazer disto uma prioridade levará a uma maior compreensão e comunhão entre as pessoas da comunidade de fé.

Mas por que isso é importante?

A Bíblia adverte contra a parcialidade. Tiago escreve muito claramente: “se vocês obedecerem à lei do Reino, estarão fazendo o que devem, pois nas Escrituras Sagradas está escrito: ame os outros como você ama a você mesmo. Mas se vocês tratam as pessoas pela aparência, estão pecando e a lei os condena como culpados” (2:8-9). Deixe-me reforçar que muitas pessoas podem desconhecer que essa parcialidade em direção a nossa raça é uma tentação. Se este for o caso, talvez, Deus está revelando algo agora. Devemos tratar todas as pessoas como iguais.

Outra razão simples para discutir este tema é porque somos o corpo de Cristo e, como tal, cada membro desempenha um papel importante. Se um membro do corpo (ou um grupo inteiro) se sente alienado ou desassistido, devemos estar ansiosas para saber como lidar com isso. Não podemos saber se não discutimos, investigamos e cavamos mais fundo nos corações daquelas e daqueles que nos rodeiam.

Talvez em breve, minhas próximas conversas com as mulheres negras que estão tentando ou lutando para se entender sejam diferentes. Talvez quando eu estiver com a moça que está com medo de achar que nunca vai se casar porque pra ela é incerto se o irmão (branco) em Cristo irá gostar dela ou não; ou com a mulher negra que está lutando contra a ambição egoísta de apresentar seu novo marido branco que vai agradar seus pais. Claro, que eu diria “Deus tem tudo que você precisa em sua Palavra, então corra lá e mergulhe na leitura”. Mas, um dia talvez, eu também seja capaz de dizer, “aqui estão alguns recursos para ajudá-la a compreender essa sua experiência angustiante. Você não está sozinha”.

Publicado originalmente em www.christianitytoday.com/


Trillia Newbell é uma jornalista e escritora freelancer. Ela escreve sobre fé e família e é editora-chefe do site Women of God Magazine. Mora no Tennessee com seu marido e filhos.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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