Sulamita: O Resgate da auto-estima da Mulher Negra

É, amigas, falar sobre beleza e auto-estima da mulher negra não é algo fácil. Afinal, se Deus nos fez perfeitas, por que ainda fazemos comparação umas com as outras?

Vou contar uma história pra vocês: quando me converti, li um livro que falava sobre o fato do povo da Bíblia ser negro, chamando atenção para características da população, devido a região que se encontravam. Isso para uma adolescente de auto-estima baixa e que estava descobrindo o amor de Deus por ela foi algo revolucionário, pois em qualquer obra artística o povo de Deus é retratado de forma diferente, e nos cultos pouco se fala sobre isso.

Mas não escrevo para falar sobre o povo negro na Bíblia e sim sobre uma personagem, uma mulher negra.

Uma das coisas que mais gosto na Bíblia é o fato de nem sempre as características físicas das pessoas serem apresentadas, geralmente a personalidade que é realçada. Algo que me chamou atenção quando li Cantares, além da fala de Salomão sobre sua amada, é que fica evidente a pele escura da personagem principal (cap.1, v. 5 e 6). Pode parecer bobagem para você falar sobre elogios, virtudes; pode parecer soar algo machista, mas pra mim, olhar no espelho e lembrar que a mulher vista como referência para mulheres e homens é da minha cor, é algo grandioso. 

Não sei como foi sua infância, vida na escola, trabalho e faculdade, mas até pouco tempo ouvir coisas positivas (sem conotação sexual) sobre nosso cabelo, trabalho, nossa cor, era algo raro. O modelo de beleza negra pra boa parte das brasileiras e brasileiros eram as mulatas do carnaval, a “globeleza”. Quem nunca pediu pra amiga preta “dar uma sambadinha”? E seu eu disser pra você que comparações do tipo ferem a mulher negra? Essa mulher que é maior que seu “corpo, sua carne”?

“Ah, isso é exagero! Como assim? Sempre achei minhas amigas lindas!”, você deve estar pensando.

“Nossa! Quer dizer agora que não posso me vestir e andar como quiser, nem dançar?”

Não, não é isso que estou falando, desculpe a confusão.

Voltando para a mulher negra de Cantares, ela não é apenas “formosa” como por repetidas vezes diz seu amado, ela  representa as mulheres fortes e corajosas com quem você convive diariamente.

O livro de Cantares é visto como uma declaração de amor de Cristo pela Igreja. Outros veem como declaração de um homem para uma mulher e é nesse ponto que te pergunto: Será mesmo que as mulheres de cabelos ondeantes (cap 4, v.1) que estão nas igrejas são amadas? Será que o irmão da igreja, ou até mesmo um colega da missão, não está tratando essa mulher negra como os caras “do mundo”, ao dizer pra ela que só quer ficar, que não tá a fim de nada sério… “Pra quê compromisso? Ninguém precisa ficar sabendo!”.

Queridas, não se sintam solitárias, vocês não precisam disso. Não é porque alguém não te encontrou (de forma romântica) ainda ou porque alguém te falou coisas desagradáveis, que você não tem seu valor. Antes de qualquer declaração de um homem, lembre-se que a maior declaração de amor a você já foi feita por Cristo. Você merece sim ser amada. Não precisa ficar mendigando nada a ninguém. Lembre-se sempre: Você é a mais formosa e amada entre as mulheres.


Helen Caetano é formada em matemática pela Unesp de Bauru. Participou da ABU Bauru 2010 a 2016, ajudou na formação da  ABP Bauru 2015/16. Hoje é da ABP Ribeirão Preto. Durante a faculdade também participou do Coletivo Negro Kimpa, onde realizaram debates sobre solidão da mulher negra, apropriação cultural, colorismo, etc.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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