Quando eu descobri que era negra

Não tenho a pele escura, nem tenho pele clara, meu cabelo é enrolado, o rosto arredondado, o nariz parece uma bolinha. Todo mundo sempre diz que eu sou a cara do meu pai. Minha mãe é branca, meu pai não. Na minha família paterna eu sou a única neta que se formou na universidade, ainda que não seja a mais velha. Tenho primos do lado de mãe que são advogados, engenheiros, professores, e um que é neurocirurgião.

Não vou ser desonesta e dizer que minha identidade racial foi um assunto recorrente na minha vida, alguma coisa que eu considerasse fundamental no entendimento de quem eu era, porque isso não passou pela minha cabeça por muitos anos. Eu estava satisfeita em ser parda, mesmo que eu não entendesse muito bem o que era isso. Só com o passar dos anos que eu percebi uma ambivalência que começou a me incomodar: e eu era branca em alguns espaços e negra em outros.

Minha família materna é racista e talvez nem percebam. Mas por muito tempo os comentários que eu escutava sempre me machucavam, ainda que não fossem sobre mim. Algumas histórias sobre como meu pai foi recebido por parte da família sempre partiram meu coração. Meu pai, aquele que todo mundo (inclusive eles) fala que eu sou a cara. Um dia, quando era pequena, – pequena demais pra entender e processar o que aconteceu, mas não o suficiente para esquecer – fui com a minha mãe até o mercado do meu avô. Eu amava ir até lá, brincar no mercado, comer doce, mexer nas coisas. Nesse dia eu me sujei de graxa, fiquei com as mãos e os braços sujos de um preto bem escuro. Assim que percebi, corri até a minha mãe, que estava conversando com meu vô. Eu estava morrendo de medo da reação dela (e eu tinha todos os motivos para estar assim, porque essa mulher quando via roupa suja, minha nossa!), mas o que me marcou naquele dia foi o que meu vô me disse. Ele disse que não estava vendo diferença nenhuma da graxa pra minha pele, que aquela era a minha cor. Não me lembro o que a minha mãe disse, nem como tiramos aquela graxa de mim, mas me lembro de ficar bastante triste com o que tinha ouvido. A minha cor era preta?

Alguns anos se passaram, eu já tinha entendido que não era uma pessoa branca, mas não era preta de jeito nenhum. Me olhava no espelho e, apesar do rosto redondo e nariz de bolinha, meu cabelo alisado e a maquiagem mais clara que a minha pele, me davam a impressão de que eu era uma morena mais acinzentada, e na minha sala (num colégio particular) tinha pelo menos mais uma pessoa mais escura que eu. Mas eu percebi que não era bem assim em uma aula de literatura. Eu tive ótimos professores de literatura, desses bem descolados que prendiam muito a atenção de toda turma. De vez em quando, eles buscavam nos alunos da sala exemplos das personagens que estávamos estudando. No Romantismo eram as meninas bem brancas, magras e emos (até hoje eu imagino uma menina da minha turma quando penso em Romantismo), no arcadismo as brancas e magras de cabelo castanho, no realismo uma branca, magra, de olhos grandes e sempre muito bonita pra ser Capitu. Até que chegou a minha vez.

Estávamos estudando “O Cortiço” de Aluísio Azevedo, passando por cada uma das personagens, e nos atentando mais aos principais, aos que poderiam cair no vestibular. Quando chegamos em Rita Baiana, a típica mulata brasileira, a atenção de todos foi levada até mim. Meu professor dissertava sobre as características da personagem marcante “mulher sensual, de pele morena, igual a Emily. A Emily é a nossa Rita Baiana”. Nesse momento eu tive uma percepção sobre mim mesma que nunca tinha tido antes, porque a Rita Baiana que eu tinha imaginado na minha cabeça quando lia o livro era uma mulher negra. Eu era uma mulher negra? Então é assim que as pessoas me veem?

Alguns anos se passaram desde essas experiências, e algumas outras ainda aconteceram, importantes, mas não tão marcantes. Chegar à universidade, ocupar espaços questionadores e aprender com aquelas e aqueles que estão organizados em diferentes lutas, abriu meus olhos para desconstruir algumas coisas e entender o que significava ser mulher, ser parda, ser negra. Eu tenho muita consciência de que minha pele clara traz consigo uma série de privilégios, mas hoje tenho muita convicção de que sou mulher negra.

Peço licença aos meus irmãos e minhas irmãs de pele escura, que sofrem diariamente coisas que eu não sou capaz de imaginar, que não gozam de certos privilégios que eu tenho por ter a pele mais clara, que desde cedo tiveram plena certeza de qual era a sua cor porque a sociedade racista fazia questão de afirmar isso. Gostaria de usar esse espaço para falar com aquelas e  aqueles que, assim como eu, passaram muito tempo sem compreender o que viam no espelho, que descobriram que não eram brancos em situações constrangedoras e dolorosas, que são questionados pelas pessoas de pele clara e escura quanto a sua identidade.

Você pode ser branca, loira, morena, ruiva, ter sardas, nariz grande ou pequeno, mas a negritude tem um padrão. Essa é mais uma manifestação de racismo na sociedade. Independente da miscigenação de que sejamos fruto, a variedade nas características físicas do povo negro não pode ser negada. Ter a pele mais clara, o nariz mais fino, ou não saber sambar não faz de ninguém menos negro. Como eu disse antes, essas características trazem alguns privilégios, mas não devem ser usados por nós como escudos, e mesmo que sejam usados como munição quando buscarem negar a nossa identidade, devem ser instrumentos para reafirmamos e questionarmos os preconceitos por trás dessa lógica.

O racismo é uma coisa muito doida mesmo. Faz a gente questionar a nossa identidade, mas ao mesmo tempo quer nos mostrar que não estamos à altura de alguns espaços, de alguns papéis. Não somos tão negras e negros assim, mas você não serve pra namorar minha filha. Não somos tão negras e negros assim, mas nos espaços privilegiados somos as únicas pessoas  não-brancas, somos a amiga mais “moreninha”. Não somos tão negras assim pra usar o cabelo crespo, uma progressiva resolve fácil esse problema. Não somos tão negras assim, mas quando entramos numa loja ninguém vem atender ou ficam acompanhando a distância cada um dos nossos movimentos.

Mas eu cansei de ser negra ou branca quando convém. Eu já descobri quem eu sou, já entendi qual é meu lugar. Meu lugar é do lado das minhas irmãs e dos meus irmãos pretos, ocupando espaços que elas e eles não chegam e lutando para que elas e eles possam ocupá-los o mais breve possível. Meu lugar é do lado das minha irmãs negras, com a beleza e os corpos desrespeitados, com os menores salários do mercado, as maiores vítimas de violência doméstica. Meu lugar é do lado dos meus ancestrais, escravos, pedreiros, vidraceiros… Quando eu descobri e decidi que era negra, eu escolhi meu lado na luta.


Emily Monteiro é formada em Relações Públicas na Universidade de São Paulo. Acha a vida chic, decora as coreografias originais das músicas, tem jeito de cowboy num corpo de mulher, participa (quando consegue) das reuniões do coletivo e da frente feminista da USP e é ABUense desde 2013 e contando.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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