A Sulamita e a Poesia de uma Mulher Negra

O Cântico dos Cânticos é uma coletânea de pequenos poemas eróticos e põe em evidência que havia, no antigo Israel, uma cultura feminina de poesias baseada em uma tradição oral. No imaginário popular, a leitura do Cântico dos Cânticos está consagrada à alegoria. Essa leitura é condicionada pelo dualismo antropológico, que contrapõe o corpo e o espírito, a terra e o céu, a mulher e o homem, o erótico e o sagrado, etc. Esse tipo de leitura espiritualiza os poemas e interpreta a amada como sendo a Igreja e o amado como Cristo. Em oposição a essa corrente, temos a Leitura Literal, ou Natural, que entende que há no Cântico dos Cânticos poemas de amor humano, leitura que permite o resgate do erotismo dos poemas¹

[Texto 1]

“Mulheres de Jerusalém,

eu sou morena, porém sou bela,

Sou morena escura

como as barracas do deserto,

como as cortinas do palácio de Salomão.

Não fiquem me olhando assim

por causa da minha cor,

pois foi o sol que me queimou.

Meus irmãos ficaram zangados comigo

e me fizeram trabalhar

nas plantações de uvas.

Por isso, não tive tempo de cuidar

de mim mesma” (Cântico dos Cânticos 1: 5, 6 NTLH)

[Questões]

[O] Nos versículos 5 e 6 quem está falando? Com que outras pessoas do poema a personagem está dialogando? Qual o nome dessa mulher (versículos 13 e 14)?.

[OI] Para Cleusa Caldeira “se for levar em consideração o período no qual o Cântico dos Cânticos foi editado, o pós-exílio, a autoapresentação das mulheres nos poemas, dizendo “eu” sou, toma um significado todo especial, principalmente porque, no pós-exílio (538 a.C.), a liderança nacional dizia que a mulher não era sujeito social. O seu valor estava somente no seu corpo, como corpo reprodutor e tributável.”

Em algumas outras partes do Cânticos, a Sulamita faz uma auto-apresentação. Como ela se apresenta em 2.1? Como ela se apresenta em 8.10? E como ela se apresenta em 1. 5, 6? Para você, existe alguma diferença do modo com que ela se apresenta nos textos lidos?

[OI] No versículo 5 do capítulo 1, a Sulamita afirma, na tradução lida acima, que é “morena, porém sou bela”. A presença da condição adversativa indicada pelo mas/porém causa algum estranhamento, especialmente em relação a sua cor?

[Texto 2]

“Negra eu sou e (sou) bela

Filhas de Jerusalém

Como as tendas de Quedar

Como as tendas de Salma

Não (!) vejais a que eu sou negra

Que me avistou o sol

Os filhos da minha mãe ficaram raivosos comigo

Puseram-me a guardar os vinhedos

A vinha que era minha não guardei” (traduzido da Bíblia Hebraica Stuttgartensia, BHS)²

[Questões]

[OI] Observando a tradução acima e comparando com o primeiro texto, o que mudou? Como a tradução pode influenciar na perspectiva, imagem ou leitura que temos da Sulamita? A relação entre beleza e negritude se modifica?

[OI] Sabe-se que as populações nômades ou seminômades de beduínos faziam uso da pele de cabra preta para confeccionar suas tendas. A própria raiz [qdr], de Quedar, significa ser escuro, negro, moreno. Ambas as tribos viviam em tendas feitas de pele de cabra preta. Assim, a primeira identificação com Quedar e Salma está na imagem evocada da cor preta da pele de cabra.³

A partir do exposto é possível fazer uma relação com as auto-afirmações da Sulamita lidas nos versículos anteriores? Sendo assim, ao se comparar com as tendas, qual a primeira relação de identificação da Sulamita?

[A] Leia uma parte do comentário de Cântico dos Cânticos feito por Orígenes (185-254 d.C.):

“Negra pela ignomínia da raça, mas formosa pela penitência e pela fé […] Negra pelo pecado, mas formosa pela penitência e fé […] Sou negra, mas formosa: pois não fico até o fim na negridão, mas subo branqueada […] Ela que é negra não é assim pela natureza, nem criada assim pelo Criador, mas sofreu essa situação acidentalmente […] Assim é a situação dessa gente etíope, que tem uma natural negridão proveniente da sucessão carnal, pois nessas paragens o sol arde com mais fervor e os corpos já queimados permanecem do mesmo jeito pela sucessão do vício […] Do contrário com a negridão da alma esta não adquire pelo nascimento mas pela negligência. A alma se tornou negra porque desceu. Mas quando começa a subir, ela se torna branca e cândida: rejeitando a negridão ela começa a irradiar a verdadeira luz.”

Leituras como esta serviram como subsídios para discursos e atitudes racistas de pessoas cristãs, além de reforçarem a perspectiva colonialista em relação ao povo negro. Em que condições o racismo, que é pecado, atinge a mulher negra a partir da leitura desse trecho do comentário?

[A] No livro de Cântico dos Cânticos temos dois pontos importantes que relacionam mulher e negritude: (i) a protagonista e principal voz dos poemas é uma mulher e (ii) uma mulher negra. Pense agora, é essa a imagem que usualmente é falada ou discutida nas igrejas ou comunidades de fé? As pessoas costumam branquificar a narrativa da Sulamita? Por quais razões, na sua opinião?

[A] A Sulamita era uma mulher negra, uma mulher preta. Sabendo que as mulheres costumam ser maioria nas comunidades cristãs e muitas delas são mulheres negras, qual o impacto de se auto-afirmar, como a Sulamita fez, num processo de identidade e mais, de se ver representada biblicamente como uma mulher bela, amada, amante e protagonista em um poema de amor pertencente ao cânon bíblico?

¹ Caldeira, Cleusa. Hermenêutica Negra Feminista: um ensaio de interpretação de Cântico dos Cânticos 1.5-6. Revista Estudos Feministas, v.21, n. 3, 2013.

² Tradução feita por Cleusa Caldeira (CALDEIRA, 2013).

³ (CALDEIRA, 2013).


Paloma Nascimento dos Santos é professora de Química, mulher negra e feminista interseccional. É assessora auxiliar da ABU Sul e articuladora da Rede Fale. Pernambu-cana-de-açúcar.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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