Flauta pra Sabá**

Pr’essa nêga etíope sabichona não basta dizer:

– és mulher de Salomão.

– és do reino do sul.

– está na Bíblia.

– há um princípio cristão […]

ai, meu povo, são necessárias declarações públicas de sua negritude, de sua majestade. Há que se gritar em cima dos púlpitos, com os microfones nas praças públicas, nas redes de televisão: Rainha de Sabá era africana! Não havia que branqueá-la em traduções eurocêntricas, em novelas e filmes apelativos. Era mulher negra e resistente, bebeu a sabedoria do mais sábio até que se levantou O Sábio. Com seus cabelos crespos e escuros, convocada pelo Rabi a julgar e condenar os homens, a mulher do braço direito, a mulher em sua fortaleza! A negra de título ktke¹ pras mulheres da igreja: a nossa representatividade fundamentada na Cruz.

* Referência ao poema “Flauta pra Nzinga” de Nina Rizzi.
* Referência a Mateus 12:42 e ao livro de Cânticos dos Cânticos.

Eu vi Cristo em Sua majestade e vi também a mim, igualmente, vestida de coroas. Cada fio de cabelo crespo se erguia acima de minha cabeça com a conexão profunda de quem O tinha visto.  Descobri-me negra aos dezoito anos, quando me descobri crespa.  Foi como arrancar uma parede da frente dos meus olhos: todo mundo percebeu que o papel pardo não combinava mais com o tom da minha pele. E vieram os racismos cotidianos da família, dos amigos, da mãe de criança da igreja, do pessoal do ônibus, dos colegas de cursinho. Eu me descobria negra tipo 4b, o meu cabelo crescia descontroladamente ao redor de meu rosto, com pouca definição e enorme resistência.

A igreja dizia que o povo negro era um povo amaldiçoado, que as religiões africanas eram malignas, que era mais certo negar a negritude que fazê-la resplandecer. Como se o amor de Jesus fosse restrito a Europa. Esse mono-continental era um homem branco de olhos azuis e cabelos loiros, filho de uma mulher igualmente branca. E era engraçado, mas Deus pra mim era brasileiro e Jesus era mais parecido com o ator da adaptação cinematográfica de Auto da Compadecida que com a estátua chorando presa na igreja de vitrais do bairro. Havia um Jesus que circundava nômade e descalçado pelas ladeiras do meu coração, com a pele tão escura quanto a de meu pai, que também se chamava José.

No exercício de contemplação², muito difícil foi me enxergar ao lado de Jesus. Parecia que Ele podia estar onde quisesse e que eu não poderia estar no seu caminho humano. Que as nossas quebradas não se encontravam, nem por destino nem por atalhos. Como se na bíblia não houvesse espaço pra gente de cor. Foi necessário reler os evangelhos, trocar os óculos e os ósculos, e finalmente perceber que Jesus era um dos meus, era um de mim, era um comigo. Que as nossas testas suadas tinham a mesma tonalidade, que éramos tão semelhantemente pequenos e pobres, e, por isso mesmo, semelhantemente infinitos.

Nesta curva eu vi a Rainha de Sabá. Vi um Jesus preocupado em libertar o povo preto da escravidão desde o Pentateuco. Jesus, cujo espírito clamava ao lado do meu por justiça, por um povo historicamente subjugado e assassinado. Meu amigo me dando as mãos e dizendo: por esta estrada você também pode ir. E, em movimento, surgiu uma coroa na minha cabeça, que se derramava por África com um amor incondicional. Eu vi minha beleza no espelho. Eu vi esperança.  Cada fio de cabelo crespo se erguia acima de minha cabeça com a conexão profunda de quem O viu. Eu vejo Cristo em Sua majestade e vejo também a mim, igualmente, vestida de coroas.  Eu sou copartícipe no Reinado pela Cruz.

¹ significa rainha-mãe

²Exercício meditativo que consiste em projetar imagens que incluam o indivíduo da meditação em determinado contexto bíblico.


Zainne Lima é mulher negra, estudante de Letras e trabalha no USP Mulheres. É uma das escritoras da página Entre Irmãs sobre negritude e fé e frequenta os encontros do Feministas Cristãs em São Paulo.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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