Manual para segurar a onda com o seu amigo machista

 

Esse não é um texto cheio de ironia. É um desabafo real e sincero. Não é também um discurso calmante ou silenciador, que diz que é exagero ver machismo em tudo. Não é um discurso que ignora os processos de repressão e confunde a violência do oprimido com a violência do opressor. Não é mesmo. Esse não é um texto de quem subiu no palanque dos detentores da absoluta verdade, mas de quem sentou-se ao chão pra dividir o tempo e a vida com quem já parou de correr atrás do nosso desejo por poder, de nosso desejo por estar certo a qualquer custo. Esse é um texto de uma menina que olhou pro seu pecado na perspectiva da cruz e da justificação em Jesus, mas olhou pro pecado do outro e atirou pedras sem receio.

Estamos em processo de ruptura de velhas relações, velhas práticas. Estamos falando sobre o que estava velado, discutindo o que estava arraigado. Não sei do tempo em que as mulheres tiveram tanta liberdade para discutir sua sexualidade, seu corpo, os abusos sofridos, e os direitos alcançados como hoje. Estamos em processo de desconstrução de nós mesmos. Nesse processo, tantos protestos quando ao machismo e todos os seus desdobramentos têm sido associados a discursos políticos de uma determinada ordem partidária, se assim posso dizer. Isso significa que em tempos de polarização política, não se discute a problemática em si, nem como ela afeta nossas relações e vidas. Mas discute-se se tal problemática é ou não uma demanda do meu “time”, e caso não seja, nossas armas estão prontas: nossos memes irônicos e engraçadinhos, nosso furor seletivo e inconformado, nossa ridicularização dos pormenores da vida alheia.

Há uns anos atrás, meu nível de reação à fala de um cara que dizia sobre o “perigo constante” ao me ver ao volante seria uma risadinha irônica, além de tentar provar que, de fato, dirijo bem. Depois, passei por um processo de desconstrução entendendo que essa simples piadinha é tão maliciosa que com jeitinho de brincadeira atravessa discursos e práticas que estruturam tantos modos de relação, inclusive as violentas e abusadoras. Hoje, inconformada, se um cara me diz isso, sou seriamente tentada a torná-lo vilão, e inferiorizar todas as suas falas, práticas e relações. E pior, às vezes até inferiorizo sua convicção de fé em Cristo Jesus. Desconsidero toda uma obra que vem sendo realizada por Deus, desconsidero até o caráter imérito dessa obra, desconsidero a graça de Deus manifestada numa vida, e faço juízo do outro pelos meus próprios parâmetros.

Foi uma longa caminhada até aqui. Uma longa caminhada explodindo com amigos próximos, familiares, irmãos em Cristo. Impaciente com suas falas e ações, dona da verdade manifestada em reações desequilibradas ao encontrar no outro o que eu ignorava que também me habita: a inclinação ao pecado. Se eu não peco sendo machista, mas antes, resisto e protesto, não me torno mais digna. De que forma então lido com a dureza do outro sem ser dura? Lido com o pecado do outro sem me esquecer da minha miséria?

Amo um vídeo da Jout Jout chamado “Vamos fazer um escândalo” onde ela cita vários absurdos sobre os abusos e assédios que as mulheres sofrem e termina propondo que as mulheres não se silenciem mais. Sim, sou dessas. Sou dessas que entende que as coisas não devem mais ser encobertas, que o desequilíbrio do patriarcado já foi afagado por demais, que o pecado precisa ser denunciado e tratado. Mas de que forma podemos fazer isso com sabedoria? Como podemos resistir a essa polarização e entender que o assunto aqui não é briga de times onde questionamos e ridicularizamos o Mundial de um, ou a Taça Libertadores que o outro não tem? Como resistir ao desejo desse tempo de disputar o poder de ser o detentor absoluto da verdade e tornar o outro adequado a ela porque essa é minha leitura de realidade?

Todo nosso desejo por disputa de poder é um desejo que ignora o senhorio, a amabilidade e a vida de Cristo, e é tolo ao ignorar nossa miséria. Vivemos procurando meios de nos enunciarmos, de nos afirmarmos, especialmente quando podemos inferiorizar o outro. Ou reconhecemos essa nossa condição ou continuaremos a viver nela com naturalidade. Quando os discípulos decidiram disputar o cargo do “mais importante”, Jesus já deixou claro: “Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. NÃO SERÁ ASSIM ENTRE VOCÊS. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo” (Mateus 20:25-27, NVI – Grifos da Autora). “Não será assim entre vocês”, que convite à resistência! É belo resistir às velhas práticas de opressão. Mais belo ainda é resistir à nossa própria natureza, com disposição de amar e servir, de ouvir, de compreender.

Não sou eu quem convence ninguém de pecado, nem conduz ninguém ao arrependimento. Tenho a Bíblia como parâmetro de toda injustiça, maldade e corrupção, e estou inclusa nessa. Se for pra ser voz de exortação, que o seja com sabedoria e mansidão. Talvez um amigo nunca vá se reconhecer machista, e não é preciso que eu o coloque nessa caixinha a qualquer custo. Mas de repente, de outras maneiras, ele entenda algumas demandas das mulheres por igualdade e as respeite. Pouco a pouco, conversa a conversa, ele entende que os “elogios” na rua não são tão legais assim pra quem recebe, e que violência doméstica acontece com mais frequência e mais perto de nós do que imaginamos. Conversando, ele entende que ridicularizar as mulheres pelas suas habilidades ou temperamento não é tão divertido assim. Sim, diálogo é vida. Diálogo mesmo, mano a mano, real, manso, que ouve realmente o que o outro tem a dizer e não só espera sua vez de falar e contestar.
Não estamos aqui protestando contra pecados estruturalmente relacionais? Subvertamos às velhas e desejadas lógicas de poder, e vamos amar, vamos servir! Esse é o manual: Jesus. Simples. Clichê demais para quem ainda não sacou tudo o que caminhar com Ele significa.


Ana Elisa Crispim é formada em Psicologia pela UFTM, fez parte da ABU Uberaba e arrisca umas poesias de vez em quando


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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