Três ideias para lidar com casos polêmicos

Uma pastora se separou do marido e anunciou publicamente que ele era homosexual e foi preso por pedofilia. Uma jovem denunciou um pastor conhecidíssimo por abuso sexual. Um lado acusa o outro de estar mentindo, e outros ainda reclamam que os holofotes sobre os casos “sujam” a imagem da Igreja. Será que estes pastores cometeram mesmo estes pecados sexuais? Ou será que estas mulheres são manipuladoras e têm segundas intenções? Será que estas são as perguntas certas a serem feitas?

Na minha perspectiva, a melhor pergunta é a mais clássica: qual deve ser nossa resposta bíblica para estes casos de escândalos midiáticos?

 

  1. Não somos juízes

As redes sociais criam palanques para todos. É como se, voltando algumas décadas, todos tivéssemos livre acesso ao púlpito: aquele lugar do qual falamos e os outros escutam calados. Embora exista a possibilidade de interação, isso não significa que precisamos ler ou reagir aos comentários, curtidas, críticas – e elas só surgem depois que já dissemos nossa opinião. Parece que a gente precisa opinar sobre tudo, ter um entendimento sobre tudo, não parece?

Mas não é bem assim. A grande maioria de nós não tem conhecimento sobre a vida íntima e pessoal dos atores envolvidos, não dispomos de tempo e nem ferramentas para falar com as pessoas ao seu redor para investigar o comportamento, e muito menos acesso às provas. Sem contar com experiência nos casos desse tipo. Portanto: não precisamos nos posicionar, e nem devemos! Como povo da verdade, que preza por ela, se não temos possibilidade e nem responsabilidade de investigar objetivamente cada caso, não cabe a nós fazê-lo.

Porém o não julgamento vai além de acusar um ou outro lado. Também envolve não ficar medindo se Fulano fez certo ao fazer isso ou aquilo. Vi posts julgando “Como uma mãe pode não ter percebido que o filho era abusado?”, sendo que temos milhares de casos em que ninguém percebia os abusos. Vi outros afirmando “Como pode alguém falar disso publicamente? É irresponsável!”, sendo que nunca entenderemos o que passa na vida e no coração destas pessoas públicas.

Pense em Mateus 7:1-5: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.”

Será que realmente somos capazes de julgar uma situação destas? Nossa vida, nossa igreja, nossa comunidade está tão certinha assim para que possamos assumir a postura de juíz e investigador dos casos distantes de nós?

 

  1. Não silencie as mulheres

“Ah, é complicado, uma situação super tensa e horrível. Se for verdade, ele precisa pagar por isso. Mas, precisamos ouvir o lado dele também. É preciso ouvir os dois lados.” Com certeza você ouviu alguém dizer isso, e a princípio parece uma opinião muito sensata. É difícil discordar dela. Mas, muito possivelmente, essa pessoa, uma vez munida da opinião do homem, já acatou o “lado dele” da história. Sem provas, sem verificação, sem mais.

Infelizmente, esse é um comportamento repetitivo no meio religioso. Aconteceu comigo, com amigas, o tempo todo. Se a mulher denuncia algum caso de abuso sexual, traição, violência, as igrejas ou os líderes aparentemente acolhem sua denúncia em primeiro lugar. Mas logo falam que não podem decidir com base apenas nela e precisam ouvir o “outro lado”. Porém, assim que escutam o homem desmentir a história, acatam a versão dele. É uma palavra contra a outra, mas ao invés de buscar a verdade, como tentam aparentar, logo escolhem a versão masculina sem nenhuma outra base além das palavras.

No entanto, quando surge um homem com alguma história, nunca ouvi das lideranças que era preciso ouvir o “outro lado”, e a mulher muitas vezes já é exposta para toda a comunidade. Está na hora de mudar este silenciamento milenar. É preciso tomar muito cuidado para não estarmos aderindo mais ao preconceito cultural machista de que mulheres são “mentirosas, manipuladoras e aproveitadoras” do que a verdade sobre a natureza das mulheres (seres humanos, em geral) e a verdade de cada um destes casos.

O que quero dizer com isso não é nada como não ouvir o homem, mas sim tomar cuidado com quem estamos ouvindo mais do que o outro e que filtros/preconceitos usamos. Se voltarmos ao primeiro ponto, não cabe a nós julgar, então nem cabe a nós ouvir e pesar todos os lados. Numa situação justa, todos têm direito a voz, mas o bom juiz vai além disso. Vemos, por exemplo, o relato de Salomão que, logo depois de receber de Deus sabedoria, é colocado numa situação em que uma palavra contra a outra não resolvia a história.

Em 1 Reis 3:16-28, o relato conta que duas prostitutas que moravam junto e tinham um filho cada surgiram com seu caso: uma das crianças tinha morrido, e uma das mães acusava a outra de ter trocado os filhos para ficar com o bebê vivo. O rei então diz: “Esta afirma: ‘Meu filho está vivo, e o seu filho está morto’, enquanto aquela diz: ‘Não! Seu filho está morto, e o meu está vivo’ (…) Tragam-me uma espada. (…) Cortem a criança viva ao meio e dêem metade a uma e metade à outra”. Não havia como julgar pela palavra e o rei precisou considerar outro meio, o desafio. O resultado? A verdadeira mãe decidiu perder a disputa para manter a criança viva e a verdade se manifestou.

Mas esta não é a única forma que nossa cultura silencia as mulheres. Você já ouviu algo como: “Ela jamais deveria ter exposto ele assim. Se for mentira, ela está impactando profundamente o ministério dele”? Bom, vou ser bem direta: esse posicionamento está mais preocupado com a reputação de um homem pecador do que com a vida de uma mulher e os impactos da história nela. Se servirmos ao Cristo que acusava os fariseus, mas curava os excluídos, nosso posicionamento simplesmente não deve ser este.

 

  1. Não tenha medo de expor o pecado da Igreja

Mas não silenciar também tem a ver com não temer a exposição do pecado que está no nosso meio. Quando o povo de Israel, o povo de Deus, pecava, Deus enviava um profeta que publicamente acusava o povo. Deus estava profundamente preocupado com o testemunho que seu povo dava, pois através deste, sua glória era manifestada na Terra. Porém, não era através do silencio, do “colocar panos quentes”, do ocultamento, que Deus corrigia os caminhos de seu povo. Era expondo seus erros. Inclusive, e principalmente, quando se tratavam dos pecados do líder da nação – o próprio Deus disse: “Você fez isso às escondidas, mas eu o farei diante de todo o Israel, em plena luz do dia” (veja 2 Samuel 12:1-12). Hoje em dia isso inclui os líderes da Igreja também.

Não há motivo algum para temer quando são expostos abusos espirituais, sexuais e morais, atitudes machistas e preconceituosas, atos de violência e outros praticados no meio da Igreja, seja pelos líderes ou não. Pelo contrário: sem expô-los não vamos corrigir os caminhos da Igreja. A visibilidade traz a possibilidade de cura para todos os lados, mas o ocultamento é o mesmo que participar nessas obras.

Veja Efésios 5:11-14: “Não participem das obras infrutíferas das trevas; antes, exponham-nas à luz. Porque aquilo que eles fazem em oculto, até mencionar é vergonhoso. Mas, tudo o que é exposto pela luz torna-se visível, pois a luz torna visíveis todas as coisas. Por isso é que foi dito: “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo resplandecerá sobre ti”.”

Trazer à luz esses acontecimentos em meio à Igreja brasileira, ainda que através de pessoas públicas e líderes religiosos, sob o olhar de todo um povo que ainda precisa ser alcançado pela graça de Deus, é também uma das formas de mostrarmos a justiça de Deus, é também testemunhar. Nosso posicionamento sábio, que não silencia quem acusa, e nem se apressa em julgar um ou outro, também pode ser parte deste testemunho.

Ainda temos muito o que aprender, mas ainda que você não concorde com nada que disse neste texto, precisamos concordar em um ponto: é preciso estudar as melhores respostas bíblicas antes de escrevermos nosso próximo textão no Facebook. E te peço uma coisa: aprenda a ouvir as mulheres também.


Jessica Grant é jornalista e tradutora freelancer, casada com Lucas, congrega na Igreja Metodista Livre da Saúde e participa da ABUB desde 2006.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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