Sobre sermos Eva

“Essa cólica que você tá sentindo, é culpa de Eva!”

Quantas vezes em minha vida eu pensei naquele fruto, naquela serpente, naquela decisão errada. A história da Criação vem sendo contada e recontada para mim desde criança; tudo começa em tom de alegria e surpresa pelas maravilhas da criatividade divina até chegar no ápice: a criação da mulher – esse grifo é da autora, porque sempre me ensinaram que o ápice da criação foi homem. Chegando na parte mais triste de uma das histórias mais tristes: a queda, a separação, a degeneração. Causada por quem? Pela mulher, Eva, a primeira mulher.

Eva é amaldiçoada, por isso todas somos. E mesmo depois do Fruto de seu ventre ter pisado na cabeça da serpente, somos amaldiçoadas. Nós somos a perdição. Nós somos o pecado.

É só olhar para as instituições religiosas para perceber como somos culpadas e incentivadas – mesmo que sutilmente – a sentir culpa. Temos que nos vestir de certa forma se não, levamos o irmão a pecar; temos que segurar a onda no namoro, porque a responsabilidade de manter o relacionamento puro é nossa – já que temos menos desejo (segundo o que nos dizem); temos que estar sempre prontas para o ato sexual se não nossos esposos se tornarão adúlteros, aliás, se nossos esposos adulterarem de qualquer maneira, a culpa é nossa. Se nossos filhos não seguirem a Cristo, fomos nós que não oramos o suficiente, não estivemos presente o suficiente.

Se engravidamos fora do casamento, nós somos afastadas, marginalizadas, excluídas da comunidade, perdemos amigas, ministério e o respeito. Nós somos culpadas por não nos tornamos interessantes o suficiente para os varões valorosos do Senhor; somos preguiçosas se não formos como a mulher virtuosa de Provérbios 31. Nós chamamos muita atenção, nós falamos demais, somos sensíveis demais, nos importamos demais, somos frívolas demais (e por isso eles nos batem), somos bonitas demais ou se não somos, deveríamos ser.

Para eles, nós causamos o pecado. Por isso, devemos ser vigiadas, ou melhor, protegidas – eles dizem – tipo uma rosa numa redoma. Devemos ser mantidas em silêncio e ensinadas a ser aquilo que “as verdadeiras mulheres cristãs” devem ser. Mas quem são as verdadeiras mulheres cristãs?

Eva. Raabe. Maria. Madalena.

 

“E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Gênesis 3:15

A Semente de Eva feriu a cabeça da serpente, justificando e reconciliando todos os homens – e as mulheres, mas parece que esqueceram, parece que ignoram. A igreja não está disposta a reconhecer a justificação das mulheres, porque continua a culpabilizar. A igreja não dá espaço à reconciliação das mulheres, porque continua a afastar e envergonhar.

Maria é Eva, é o ápice da criação carregando o Ápice do universo em seu ventre; e através de sua Semente todas nós fomos justificadas. A vergonha e a culpa do fruto não está sob nós, somos livres. Por isso, não nos envergonhemos de sermos mulheres, ainda que tentem nos oprimir e dizer que somos incapazes, lembremo-nos que Deus escolheu a nós para carregarmos a Seu Filho, seja no ventre de Maria, seja nas Boas Novas das mulheres pós-ressurreição e nos nossos corações hoje e sempre.

Somos Eva, somos a primeira mulher convergida em milhares de outras, somos cúmplices do seu pecado mas estamos com ela em sua redenção. Somos Eva, somos Raabe, somos Maria, nós somos Madalena.


Bianca Rati cursa Design Gráfico na UFPR, é cristã, feminista e sommelier de pipoca.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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