Todos pecaram. Ponto.

Este versículo de Romanos 3 é uma base importante para muitas igrejas cristãs. O conceito de todo o capítulo é crucial para a fé: todos pecaram. Não há um justo sequer. Ninguém faz o bem. Ou ainda: “Ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado” (20). Eu achei que, a partir de textos assim, estava bem claro que todos erramos, pecamos, somos nada sem o sacrifício de Cristo. Mas parece que não é bem isso que algumas pessoas entenderam.

Quando Cristo encontra a mulher samaritana ou ainda a adúltera, é muito curioso que elas não tentaram justificar seus pecados. Elas aceitaram as correções, pois vinham inundadas de graça. A graça, que limpava todas as suas histórias, era a mensagem central. Reconhecendo esse aspecto, não há o que discutir. O pecado estava posto para todos, mas a graça abundava e fazia sumir as transgressões. Pra que ficar se justificando com desculpas que não tem a menor comparação com a graça? Afinal, não é óbvio que todos pecamos? Por que tentar fugir do diagnóstico certeiro?

Muita gente também fala que arrependimento tem a ver com isso: reconhecer o pecado, e humildemente aceitar a graça que o faz passado. É entender a continuidade do famoso versículo de Romanos 3: “… sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça” (24-25).

Reconhecendo estes dois fatos essenciais à fé cristã – que todos pecamos e que é pela graça e fé em Jesus que recebemos perdão – por que há tanto a necessidade de se justificar quando alguém aponta um comportamento errado seja seu, do seu grupo, ou da sociedade? Por que não apenas acolher o comentário, compreender que você já era pecador com ou sem o conhecimento desse pecado, e buscar agora, já que você tem o conhecimento, mudar a atitude, o comportamento, a cultura?

Uma das respostas mais comuns quando aponta-se um comportamento ou comentário machista é a justificativa. “É pelo bem da mulher.” “Mas é só uma piada.” “Não fique procurando pelo em ovo.” “Você está exagerando, não foi bem assim.” “Ele tinha de se defender.” “Não foi estupro.” Depois dessas respostas, talvez a outra mais comum seja o silêncio. Algo como: “Vamos fingir que nada aconteceu pra que eu não precise me retratar e assumir que sou pecador”.

Sabe, eu sempre fui a chata que reclamava, mas comecei a calar há uns anos porque estava cansada de ser excluída por pessoas que gostava muito quando apontava erros como estes. Mas com tanta mulher voltando a ver a importância dos “detalhes”, voltei a ter força e coragem: não calo mais.

Quando encontro um amigo meu fazendo uma brincadeira machista, eu vejo ali um pecado contra a dignidade de mulheres e vou, sim, corrigir. Quando vejo comportamentos de um grupo ou de toda a sociedade que só repetem o desrespeito às mulheres, eu vou me posicionar e denunciar. Quando vejo líderes religiosos usarem o púlpito para perpetuar preconceitos e piadinhas que geram dor e fazem alguns acreditarem que existem seres humanos (machos) melhores que os outros, também vou apontar o dedo. E faço isso assim como gostaria de que as pessoas ao meu redor fossem honestas sobre os meus erros comigo.

Mas, como já falei, isso não muda nada nessas pessoas. Elas não se tornam machistas depois do que eu falei, não viram “mais” pecadoras. Elas são pecadoras. Nada mudou. Portanto, em vez de justificativas, ou ainda o silêncio, do fundo do coração espero um pedido sincero de desculpas, um arrependimento que compreenda que a graça de Deus pode mudar até o menor dos nossos comportamentos. Que Deus pode nos ensinar a amar ao próximo como a nós mesmos. E que tá tudo bem. Porém, agora, com o conhecimento em mãos, fica a pergunta: como essa pessoa pode continuar sem mudar?

Aliás, fica a pergunta: como, sabendo que estas correções não inventam nossos pecados apenas apontam eles (pois todos pecaram), como vamos mudar nossas respostas ao recebê-las? Será que vemos a graça de Deus abundante vir junto com a denúncia do erro nosso, apagando-o e transformando-nos? Ou vamos querer continuar fingindo que somos justos e nos cegar para a dor do outro?


Jessica Grant é jornalista e tradutora freelancer, casada com Lucas, congrega na Igreja Metodista Livre da Saúde e participa da ABUB desde 2006.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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