Nós vamos falar de estupro, sim!

 

Eu estava estudando para escrever um novo texto para o Redomas. Me afundei na história de mulheres que nem sequer conhecemos, e são exemplos que nos empoderam quando assunto é o feminino e a religião.  Mas, confesso, esse texto teve que ser adiado.

Desde que comecei a fazer minha tese de conclusão de curso tenho tido a oportunidade de me aproximar, com mais gana, a assuntos que envolvem mulheres. Me deparo constantemente com diversas estatísticas que me levam a pensar sobre como a igreja tem se relacionado com elas. E me preocupa.

Me preocupa o fato de nomes do meio evangélico se preocuparem mais com um boicote a uma loja de roupas do que em se manifestarem fortemente frente a estatísticas que revelam a cultura do estupro.

Me preocupa o fato de que diante do recém acontecimento da jovem que foi abusada por 33 homens. Eu tenha visto apenas uma, APENAS UMA, manifestação nas redes sociais vindo de uma igreja.

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Nós vamos falar de estupro, sim!

Em 2014, 47,6 mil pessoas foram vítimas de estupro no Brasil. Ou seja, a cada 11 minutos, alguém foi violentado no país.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 67% dos casos de violência entre as mulheres são cometidos por parentes próximos ou conhecidos das famílias; 80% dos casos, o agressor é o marido, companheiro ou namorado.  70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes.

Segundo a ONU, 7 a cada 10 mulheres no mundo, já foram ou serão violentadas em algum momento da vida. No Brasil, em alguns lugares, os números extrapolam. Em Campinas no mês de fevereiro deste ano, os casos de estupros foram 150% maior em comparação a igual período de 2015.

O estupro é um dos crimes mais subnotificados que existem e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estima que os dados oficiais representem apenas 10% dos casos ocorridos. Ou seja, o verdadeiro número de pessoas estupradas todos os anos no Brasil é mais de meio milhão.

E para quem, ainda, acha que isso está longe de acontecer no contexto da igreja, confira essas e outras notícias:

Sonoplasta de igreja é preso suspeito de estuprar 3 meninos durante cultos

Idosa é estuprada após sair de igreja em SP

Missionário de igreja evangélica é preso por estupro em Estreito

Mulher é estuprada após sair de igreja evangélica

“E chegando-lhos, para que comesse, pegou dela, e disse-lhe: Vem, deita-te comigo, minha irmã. Porém ela lhe disse: Não, meu irmão, não me forces, porque não se faz assim em Israel; não faças tal loucura. Porque, aonde iria eu com a minha vergonha? E tu serias como um dos loucos de Israel. Agora, pois, peço-te que fales ao rei, porque não me negará a ti. Porém ele não quis dar ouvidos à sua voz; antes, sendo mais forte do que ela, a forçou, e se deitou com ela”. 2 Samuel 13:11-14

O texto de 2 Sm 13, 1-22 mostra a realidade de uma sociedade patriarcal, em que  um homem não mede esforços para ter por mulher, mesmo que seja sua meia irmã, e à força tem uma relação com ela.

Definitivamente, precisamos falar sobre a violência sexual contra as mulheres. E o estupro é a última consequência dessa realidade que pode começar com uma cantada na rua ou um olhar constrangedor na fila do supermercado. Essa cultura anda nas entrelinhas de muitos discursos, tem a impunidade como sua melhor amiga e a culpabilização da vítima como principal arma.

Nós vamos falar de estupro, sim!

Muito além do estupro, a realidade é acerca da violência contra a mulher. Esta violência traz em seu seio, a “relação com as categorias de gênero, classe e raça/etnia e suas relações de poder”. De modo que estão relacionadas por uma ordem patriarcal existente na sociedade brasileira, a qual atribui aos homens “o direito a dominar e controlar suas mulheres, podendo em certos casos, atingir os limites da violência”. (PINAFI, 2007).

Apesar de entendermos o estupro como um dos piores crimes que podem acontecer a alguém – segundo pesquisas sobre percepção de crueldade, ele só perde para o assassinato -, somos estranhamente incrédulos para acreditar que ele realmente acontece. O estupro é o único crime no qual a vítima é julgada junto com o criminoso.

Isso acontece com quem foi estuprado o tempo todo. Mulheres relatam como são recebidas com desconfiança quando resolvem contar suas histórias para alguém. Pessoas perguntam que roupa ela vestia, onde ela estava, que horas eram, se estava bêbada, se já não havia ficado com o estuprador alguma vez, se deu a entender que queria fazer sexo e até se já teve muitos namorados antes.

É importante papel da sociedade compreender o óbvio. Se uma mulher diz não, ela não quer dizer nada além de não, e qualquer coisa que viole isso é estupro: com ou sem violência, com ou sem armas, com ou sem penetração. É o corpo sendo desfrutado sem que permissão. Ninguém pede para ser abusada!!!

As pessoas só compreenderão que nenhum estupro é um mal-entendido quando pararem de buscar, nas entrelinhas, um consentimento que, de fato, não existe: roupa curta não é consentimento, embriaguez não é consentimento, passividade não é consentimento e estupradores não precisam obedecer a um esteriótipo pré-definido para serem assim classificados.

Que fique bem claro: estupro não é um crime relacionado apenas ao relação sexual. O estupro se refere a uma relação de poder: trata-se de um processo de intimidação pelo qual os homens mantêm as mulheres em um estado de medo permanente. A coação é feita criticando as mulheres que não aceitam se submeterem a essas regras e culpando as vítimas de crimes sexuais. Com medo de serem hostilizadas e violentadas, acabam se submetendo à autoridade masculina para evitar mais violência.

Mais além sobre um olhar de uma sociedade “machista e preconceituosa”, Fukelman (2015) comenta, que o fato dela desmontar o determinismo biológico nos papéis sociais da mulher e do homem, traz incômodo a muita gente ainda hoje, porque vai contra a tradição da sociedade.

E onde está a igreja nessa situação? incomodada ou acomodada?

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Nós vamos falar de estupro, sim!

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”. Provérbios 31:8,9

A Bíblia muitas vezes se refere ao órfão, à viúva e ao estrangeiro – ou seja, pessoas que não eram capazes de cuidar de si mesmas ou não tinham um sistema de apoio. É necessidade da igreja se posicionar contra as formas de opressão, violências e agressões à dignidade humana. É necessidade da igreja se posicionar frente as instituições representativas de poder e justiça, para que essas garantam integridade e justiça as mazelas femininas.

Existe sim uma cultura violenta à mulher. O estupro coletivo da jovem de 17 anos que tomou as redes sociais, não foi um evento isolado. Fora do comum? Não!

É preocupante perceber que para alguns cristãos as injustiças sociais são vistas como uma conspiração satânica, e não como fruto de uma construção social perversa. Deixa de se assumir que o problema é na estrutura social, é algo que toca ao humano, e que requer o reconhecimento de desconstruções de nossos próprios paradigmas. Para trilhar o caminho mais fácil da “diabose”.

A violência da mulher é fruto de um paradigma histórico, uma construção cultural de um machismo ritualizado, silenciado e naturalizado. É preciso dar fim as lógicas e ações que assassinam milhares de mulheres todos os anos, vítimas da monstruosidade machista.

Nós vamos falar de estupro, sim!

É difícil achar no mundo uma grande instituição que não tenha varrido para debaixo do tapete algum caso de estupro. Exércitos, empresas, famílias, universidades e igrejas acobertam estupros rotineiramente. A Igreja Católica foi apenas a mais famosa organização religiosa a fazer isso quando bispos e padres foram acusados de abusos sexuais desde 1050 quando Pier Damiani, escreveu em forma de tratado um  livro que denunciava abertamente os vícios do clero da igreja italiana. Novos casos vieram a tona em 2000. Durante muito tempo o Vaticano fingiu que não sabia de nada – e até o papa Bento XVI foi acusado de olhar para o outro lado nos anos em que liderou um departamento que analisava abusos dentro da Igreja. O mesmo aconteceu com os Testemunhas de Jeová na Inglaterra, onde o pastor Mark Sewell foi condenado por abusar de mulheres e crianças ao longo de anos. E acontece também com igrejas evangélicas aqui no Brasil, onde pastores de diversos Estados já foram acusados de abusar de meninas durante supostos “tratamentos espirituais”.

Não podemos mais perpetuar com essa cultura de violência as mulheres. Em lembrança as palavras de Martin Luther King Jr. : “Nossas vidas começam a perder o sentido no dia em que ficamos calados diante de coisas que importam”.

CHEGA! Não da mais pra ficarmos caladas. Nós vamos falar de estupro, sim!

Dentro e fora das igrejas, nos lares, nas redes sociais, nas escolas, nas universidades, nas ruas, em todo e qualquer lugar!

Faça uma roda com mulheres na sua igreja, converse sobre as fragilidades, anseios, medos, chorem juntas, intercedam. Pense em ações possíveis de se realizarem dentro da instituição. Leve esse assunto ao conhecimento dos homens, dialoguem. Que tal criar uma caixinha onde mulheres possam escrever sobre suas dores, e periodicamente se reúnem para orar pelos relatos?

Faça algo…

” Pedimos perdão a Deus pela omissão sistemática e cultural dos cristãos no Brasil em denunciar opressões machistas que fundam e naturalizam maldades como as que te afetaram, menina querida. Quando as igrejas silenciam diante de expressões categóricas de machismo e de inferiorização da mulher, elas se tornam cúmplices da escalada da violência e facilitam a criação de uma plataforma social em cima da qual pessoas são agredidas, envergonhadas e segregadas.

Pedimos perdão a Deus pela seletividade do nosso cuidado e pela baixa intensidade ética do nosso amor.

Perdão, Deus, porque privatizamos o amor aos encontros e discursos religiosos ao invés de transformá-lo na alegria pública que anima e sustenta nossas relações” (Trecho do post da Redenção Igreja Batista – por Fellipe dos Anjos).

Nota: O termo “cultura do estupro” vem do inglês ‘rape culture’ e surgiu na década de 1970 e foi cunhado pelas feministas dos Estados Unidos. A maioria dos cidadãos americanos assumiam que estupro, incesto e violência doméstica raramente aconteciam. Então, o objetivo era mostrar como a sociedade culpava as próprias vítimas da violência sexual por terem sofrido a agressão, tornando “normal” a violência contra a mulher. A tolerância acaba incentivando ainda mais as atitudes violentas. Entre os exemplos de comportamentos associados à cultura do estupro estão a culpabilização da vítima, a sexualização da mulher como objeto e a banalização da violência contra a mulher. A noção de cultura do estupro também foi usada para descrever e explicar comportamento dentro de grupos sociais, incluindo estupros dentro de prisões, e em áreas de conflito onde estupros de guerra eram usados como arma psicológica. Mas há uma discordância sobre o que define uma cultura do estupro e se determinadas sociedades preenchem os critérios para que possuam uma cultura de estupro.


Denuncie ligando no 180 ou no site do Ministério Público Federal.


Fontes:

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/a-cada-11-minutos-uma-pessoa-e-estuprada-no-brasil

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/21/politica/1442871349_074158.html

http://super.abril.com.br/comportamento/como-silenciamos-o-estupro

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/21/politica/1442871349_074158.html

http://lugardemulher.com.br/o-silencio-que-ecoa-a-cultura-do-estupro-no-brasil/

http://culturadoestupro.blogspot.com.br

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151028_simone_beauvoir_wikipedia_enem_rb

PINAFI, T.. Violência contra a mulher:: políticas públicas e medidas protetivas na contemporaneidade. Histórica, São Paulo, v. 1, n. 21, p.3-3, maio 2007


Ellen Aquino, antiga seminarista, típica nerd da computação com uma queda por cinema e boa música. Estrategista em Age Of Empires e defensora das filosofias Jedi, não dispensa uma conversa sobre tecnologia, curiosidades e afins. Apesar disso, ela garante que vai falar mesmo é de teologia e mulheres.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo

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