Efêmera

“Minha beleza não é efêmera, como que eu vejo em bancas por aí. Minha natureza é mais que estampa, é um belo samba que ainda está por vir. Bobagem pouca, besteira, recíproca, nula, a gente espera, mero incidente, corriqueiro, ser mulher a vida inteira.”  Bobagem – Céu

Quando eu era pequena, lembro-me de um dia ser convidada pra um evento na casa de uma coleguinha de escola. Me arrumei e fui pra “festa”. Perto da entrada da casa, alguns meninos estavam conversando, quando me viram. Eu estava com minha irmã e algumas amigas. Os meninos começaram a falar meu nome e rir da roupa que eu estava vestindo. Diziam que não era apropriada pro meu corpo, claro que as falas não eram com tanta delicadeza assim. Eu me olhava no espelho e não via nada de errado. Na época, estava na moda usar saia mais “grudadinha” com meia calça, todas as meninas da minha idade usavam e eu também queria. Eu tinha mais ou menos uns 8 anos e até hoje, com 26, me lembro do quanto constrangedor foi. Na adolescência, a moda era outra, calças com cinturas baixas e cheias de botões e bolsos. Achava bonito, mas nunca pude usar, não tinha meu número.

Era engraçado como a roupa que você usa nessa idade te qualifica pro “grupinho mais descolado” ou te exclui totalmente dele totalmente. Ir a loja comprar roupas era uma tortura, uma menina com 12 que usava o mesmo tamanho de uma pessoa adulta. Mas eu não queria roupa de adultos, queria roupas pra minha idade. Pessoas me diziam pra colocar roupas mais largas pra que eu parecesse um pouco mais magra, ou o contrário, mais justas pra que vissem minha cintura. Pra cortar o cabelo eu tinha que ver numa revista os cortes para o meu tipo de rosto, pra que ele parecesse mais magro também. Eu não tinha vontade de comprar roupas/sapatos e coisas assim. Os elogios eram do tipo – nossa como você tem o rosto bonito – ou – nossa como você emagreceu. Em restaurantes eu também já ouvi várias coisas. Se no dia eu estava com vontade de comer salada – ai, ela está de dieta. Se queria comer normalmente – nossa, não coloque batatas com arroz, engorda – sobremesa então, ficava com vergonha de pegar, porque não queria ouvir mais comentários. Dias atrás, li uma reportagem que falava sobre uma “fat girl” que decidiu por uma semana usar aquelas blusas tipo cropped. Achei fantástico e muito corajoso, mas fiquei triste por ela quando li que quando entrava num restaurante, sentava de forma curvada pra que não vissem que uma parte de sua barriga estava aparecendo.

E quando você conhece um cara e no começo a conversa é bacana, mas depois você percebe que ele acha que você vai se subordinar a tudo o que ele quiser fazer ou que quer que você faça, porque você é gorda e ele é muito legal por estar falando com você mesmo assim? Falar sobre relacionamentos é bem difícil também, porque infelizmente ainda a menina gorda serve pra ser a melhor amiga dos meninos, aquela que é engraçada, que ajuda e ouve.

Nosso mundo, está repleto de padrões, regras de moda, beleza e comportamento. A gente acorda e tudo isso parece que vem automaticamente na cabeça, e não se enquadrar é difícil. Mas tem dias, que você simplesmente foge um pouco dos padrões e se resolver encarar, sabe que tem que ser muito corajosa, porque comentários virão, muitos, mas você liga? Desconstruir padrões é um exercício diário, das outras pessoas pra gente e da gente pra nós mesmas. A nossa verdadeira beleza não está só nessa carcaça, conhecida como corpo. Claro, que o corpo faz parte da gente e pelo amor de Deus – o que importa é a beleza interior – não é elogio. Olhem pra gente e percebam que a beleza está em tudo, no corpo, na fala, nos sentimentos, nas atitudes, não somos apenas uma coisa, mas uma junção de tudo isso, nos elogiem pela nossa totalidade.

Isso tudo de beleza interior, carcaça e coisas assim, pode parecer clichê ou até fora do nosso contexto tão “moderninho” e desconstruído. Mas tudo isso que falei, ainda acontece comigo e com as minhas amigas gordas. Talvez seja um preconceito “cheio de névoa” e por isso não é tão claro e transparente para as pessoas, mas se ainda hoje é xingamento o termo “gorda”, temos muito a falar sobre isso.

Ainda bem que Cristo morreu por todas e todos, não viu endereço, padrão de beleza, sexo, cor de pele ou qualquer outra coisa que a gente dá muito valor. Pra Ele, todas e todos somos iguais, temos a mesma beleza mesmo sendo tão diferentes umas das outras e uns dos outros. Somos feitas a imagem e semelhança dEle e isso inclui qualquer um e é maravilhoso perceber que por Ele somos notadas e nossos valores reconhecidos. Somos parte do mesmo corpo. Em Romanos 12:2, Paulo diz: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Paulo fala sobre a não conformidade com o  mundo, nos chama para transformar e renovar a nossa maneira de pensar.

Já lhe passou pela cabeça que os padrões também fazem parte dessa desconstrução?


Ana Paula Conde, estuda design, vive em Curitiba mas é do interior de SP, curte aquarelas e desenhos com giz carvão, é apegada aos pequenos gestos e sonha com uma vida mais leve.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo

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