Eu, aqui, na minha confortável redoma

 

Uns dias atrás assisti um pequeno vídeo que mostrava o quão facilmente somos influenciados pelo todo, o quanto normalizamos o padrão vigente para nos sentirmos aceitos, nos protegermos e vivermos como grupo. Na filmagem uma moça está na sala de espera, quando as pessoas presentes – atores contratados – se levantam juntos a cada vez que ouvem uma sirene. Nas primeiras duas vezes a moça acha estranho mas não se levanta, porém logo na terceira ela passa a participar também, provavelmente pensando que aquela é a prática do local então, é melhor participar.

É claro que dá para problematizar uma série de coisas nesse conceito de conformidade social, mas por ora vamos pensar um pouquinho sobre as redomas. Fica estabelecido aqui, que as redomas são os abusos físicos, emocionais, mentais, econômicos e estruturais que sofremos por sermos mulheres –  mesmo quando querem nos “proteger”, ora se está tudo certo, do que precisamos ser protegidas? Enfim, assunto pra outro texto.

Cada uma de nós que se identifica como mulher vai passar por uma situação de machismo, direta ou indiretamente. Acontece que além do machismo, nossa sociedade tem outros problemas como: racismo, miséria, gordofobia, homofobia etc… E quando falamos para os homens a nossa volta reconhecerem seus privilégios, nós também precisamos olhar para nós mesmas e pensarmos de quais privilégios desfrutamos.

É claro que nenhuma redoma é confortável e o título só foi para provocar mas, eu sendo mulher branca, de olhos claros, magra, cisgênero, universitária, classe média e heterossexual, não passo por racismo, por homofobia, por discriminação social, por dificuldade de acessibilidade e outras séries de coisas. Preciso reconhecer que, apesar de ter redomas para quebrar, tenho irmãs que precisam lutar muito mais e por uma agenda diferente da minha em vários aspectos.

Essas agendas diferentes nos separam? Não necessariamente. Quando eu dou voz para a minha irmã falar dos problemas que ela enfrenta, estou na verdade reforçando ainda mais a nossa união na luta. É bom pensarmos nisso, porque temos a facilidade de achar que os nossos problemas são únicos, maiores e mais relevantes.

É importante ter uma representatividade não objetificada da mulher nas mídias? Sim, é claro! Mas que tal pensarmos em nossas irmãs negras que muitas vezes nem sequer aparecem e quando o fazem, estão numa posição ainda mais estereotipada/objetificada do que as brancas? É importante conquistarmos a igualdade salarial? Gente, é e como é! Mas que tal pensarmos que milhares de meninas não tem nem acesso a educação?

Além disso, queria lembrar daquelas irmãs que muitas vezes parecem compactuar com certas formas de opressão, que muitas vezes reproduzem um discurso de julgamento e ódio. Isso mesmo, eu disse: reproduzem, porque esse discuso é o normalizado em nossa sociedade e infelizmente, é reforçado por algumas organizações religiosas. Logo, para não enfrentarmos resistência, para nos sentirmos aprovadas, é mais fácil nos tornarmos embaixadoras desse discurso.

Ou seja nós somos como aquela moça na sala de espera, vemos a sociedade, como exemplo, culpabilizar a vítima de assédio diversas vezes em nossa frente, daqui a pouco estaremos levantando também e apontando nosso dedo.

Por isso, eu aqui, na minha confortável redoma, hoje faço o exercício de olhar pelo vidro e perceber onde estão e como estão as outras. Hoje eu quero prestar atenção e não levantar ódio quando a sirene da opressão tocar.


Bianca Rati cursa Design Gráfico na UFPR, é cristã, feminista e sommelier de pipoca.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo

Anúncios