Vou nua

Esses dias aconteceu uma coisa curiosa. Eu tinha mil coisas pra fazer da faculdade, vários fornos pra segurar, e-mail bombando, mundo caindo… Então, é claro, fiz o que todo mundo faz nessa situação… Depois de realizar vários testes do tipo “Que personagem de desenho animado você seria?” (Não me julgue porque eu sei que você também faz e não compartilha) fui ver fotos antigas das pastas mais remotas do meu computador… A conclusão disso não poderia ser diferente de: olhar o passado pode ser bem caótico.

Bom, as fotos eram de sete anos atrás do aniversário de 15 anos de uma prima, mas curiosamente quem estava com dois vestidos diferentes nas fotos era eu: a primeira parte da festa com um vestido preto e branco e a outra metade com um vestido azul. Juro que não estava tentando roubar a cena! O motivo de eu trocar de vestido foi bem mais banal que isso, acreditem… Troquei de roupa porque tinha outra menina com um vestido igual ao meu. Sim, você tem duas opções diante disso, a primeira é me chamar de louca por ter perdido uma boa parte do aniversário pra ir até a minha casa colocar outro vestido e a segunda opção é concordar completamente com a minha atitude, afinal de contas é inaceitável estar vestindo uma roupa igual a da amiga. (Será mesmo?)

Vamos pensar um pouco sobre isso, ok?!

Sempre ouvi dizer que não posso estar num mesmo lugar com um modelo de roupa igual ao de outra pessoa, principalmente quando é um evento mais formal. Lembro até de algumas “notícias” sobre festas em que duas mulheres famosas estavam com um modelito igual ou super parecido, isso virava um certo tipo de chacota e expunha essas mulheres ao ridículo.

Eu aprendi isso muito bem, precisava ser exclusiva como mulher, inclusive fui trocar de roupa quando vi uma outra moça com o vestido igual ao meu, mas calma aê… Isso faz sentido? Quer dizer… Se a guria está com uma roupa parecida com a minha significa que temos um gosto parecido pra roupas, podemos ser amigas e trocar algumas peças! Mas infelizmente não é por esse caminho que as coisas vão.

A mídia prega uma exclusividade que na verdade padroniza. Parece contraditório, mas não é! É só olhar pra um desfile de moda, as garotas precisam ser as únicas com aquelas roupas, mas (infelizmente) todas tem um mesmo manequim, seus cortes e tipos de cabelo variam entre alguns poucos que são tidos como bonitos, suas poses são as mesmas e todas são colocadas num mesmo perfil de estética depois de passarem pelo  Photoshop.

É uma filosofia bizarra de que exclusividade não está mais na mulher, mas na roupa que ela veste, na “estética” que ela tem.

Foi percebendo isso, que depois de todos esses anos entendi o porquê de eu ter ido pra casa trocar de roupa. Eu queria ser exclusiva, pelo menos naquele momento em que todos estavam tão bem arrumados pra festa, o grande problema é que a minha exclusividade se resumia em um pedaço de pano. Eu não conseguia ser única por mim mesma, pela minha personalidade ou pelas coisas que eu realmente gostava, eu reproduzia exatamente o que era tido como “bonito” mesmo que não achasse aquilo bonito; eu queria ficar na festa, mas seria mais “bonito” se eu trocasse de roupa e me tornasse uma mulher exclusiva outra vez. Eu o fiz, mas perdi parte da aniversário. Hoje eu olho pra isso e penso quantos bons momentos deixei de aproveitar por causa do “bonito”, ou ainda, quantas vezes me moldei em exclusividades padronizadas.

Vai muito além de ser “exclusiva”, é uma questão de entender nossa identidade, nossa essência.

Hoje em dia, não sei muito bem como andam as passarelas, eu me visto de Bettyna mesmo, alguns dias versão hippie, noutros versão casual, algumas vezes num estilo mais hipster… E por aí vai, às vezes coloco a primeira roupa que vejo na frente e só depois vou perceber que tá ao contrário (quem nunca?). Mas o ponto é: posso dizer que minhas roupas traduzem sim um pouco do que eu sou, mas elas não me fazem uma mulher exclusiva, porque eu entendi que a minha individualidade está em mim e não sobre mim.

Por isso vou nua, não literalmente, é claro! Mas num sentido de mostrar a Bettyna de verdade, que abandonou (e ainda tem abandonado) essa “exclusividade” padronizada que sufoca tanto com essas regras estéticas que não se aplicam na maioria das mulheres, é a liberdade de se vestir de si antes de colocar qualquer peça de roupa.

E aí? Topa o desafio de se despir?


Bettyna Freitas é estudante de letras, fã de MPB, adora fotografia, cinema, dias chuvosos e fuscas.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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