“Não se nasce mulher, torna-se…”

Essa é a primeira frase dita por Simone de Beauvoir em seu livro “Segundo Sexo II – A experiência vivida”. Frase que se tornou mais conhecida popularmente após o ENEM 2015, e que gerou gritos raivosos por uma certa parte de cristãs, afirmando que “Sim! Eu nasci mulher!”. Vamos analisar essa frase de Simone, mas antes é preciso responder a pergunta de um milhão de dólares: O que é ser mulher?

Feche os olhos e reflita um pouco o que te faz mulher?

O que é o ser mulher que Deus criou?  E o que nos diferencia dos animais e homens?

Então façamos esse exercício, pare esse momentinho para refletir quais características que lhe fazem mulher. Pronto?! (Pense antes de continuar lendo, nem que seja por 30 segundos). Quais foram as características que você identificou que lhe fazem mulher?

Eu por exemplo poderia dizer que são meus seios, ou pelo fato de que eu menstruo, porém para alguém que toma cartela emendada ou teve os seios retirados por causa de um câncer não seja exatamente essas características que elas pensaram.

Ou talvez uma das características é o meu gosto, eu amo dançar balé e tocar música clássica no teclado, embora eu mesmo atualmente não esteja desenvolvendo essa parte da minha vida, eu sempre gostei, mesmo antes de praticar tais coisas sabia que seriam minha paixão eterna. Mas… sei de homens que também compartilham dessa mesma paixão. Então talvez esse meu gosto não esteja tão atrelado assim ao meu estado de mulher.

Hum… bem, eu sempre tive cabelos compridos e lindíssimos, até que deu 5 minutos no ano passado e decidi cortá-los, estão em estilo “de menino/joãozinho” agora, mas o engraçado é que mesmo assim isso não diminuiu o meu “ser mulher”.

Eu também sempre gostei de jogar futebol (nem tanto assistir), deliciosa adrenalina quando começa uma partida…. e jogar vídeo-games, meu primeiro jogo foi Mario Bros, no querido nintendinho (obrigada, mãe!), depois a gente vai evoluindo/mudando… Crash Bandicoot, WinningEleven, Persona, Kingdom Hearts, Final Fantasy, Call of Duty… Mas o engraçado, é que essas coisas são diferentes dos parágrafos anteriores, porque sempre escutei ser “coisa de menino”, mas eu nunca me senti menos menina por gostar dessas coisas… Hum…

Mãe, esposa… talvez essas duas características sejam as mais exclusivas do ser feminino, porém o ser feminino não é exclusivo à essas duas características, já que não sou mãe, não sou esposa, mas mesmo assim sou mulher… então que raios é ser mulher?

Você poderia usar o argumento biológico, de que é porque eu tenho cromossomo XX, mas mesmo a genética não é algo simples assim, já que existem os intersexuais* em nosso meio. E nossa genética vai muito além dos cromossomos sexuais, temos outros 22 para determinar nossas características, além dos fatores externos, psicológicos, culturais e espirituais…  

Que complexo… que complexidade o ser mulher… o ser feita a imagem de Deus…

Provavelmente se você fosse escrever esse texto seus parágrafos seriam diferentes do meu, mas eu não duvido que você seja mulher também… Agora outra questão para refletirmos juntas: quando eu me tornei mulher ou nasci mulher? Eu sei que eu era criança, e fazia coisas de criança, jogava bola, vídeo game, brincava de escolinha, pulava corda, jogava mãe da rua, pega-pega, brincava com carrinhos, e amava cachear meu cabelo. E pra mim nunca fez sentido “coisas de meninos”, porque pra mim existia as coisas que eu gostava, e coisas que eu não gostava, e eu era menina. Ponto! Uma coisa não tinha relação com a outra. Embora alguns meninos insistiam que eu não podia jogar futebol, jogar basquete, jogar pebolim com eles porque eu era menina… isso foi algo que também não entendia, porque eles pensavam assim? “Menina é sempre ruim, não sabe jogar!” Ai já comecei a sentir o peso de “tenho que ser boa, assim vou mostrar que meninas podem jogar tão bem quanto eles”, e era estranho já que eu não poderia errar se não “Eu disse que menina não podia jogar!”, e coitado do menino que perdesse pra mim, “perdeu de uma garota!”.

Entrei na adolescência e eu recebi um “Nossa, seus pêlos da perna são tão grandes que dá pra fazer trancinha”, e assim descobri que mulheres raspavam a perna, e era feio não raspar. “Você precisa usar sutiã” e minha pergunta era por quê? “Porque você está crescendo e seus peitos vão cair se não usar”, e eu descobri que peito caído era feio para uma mulher.

Comecei a usar aqueles sutiãs de panos até que “Ui! Está com o farol aceso? Está feliz?”, não entendi o porquê isso era um problema ou o que significava “Estar feliz”, se eu ficasse feliz eles “acendiam”? Ora… todas as meninas tem peitos, todas devem ficar com o farol acesso, então, porquê isso não era algo normal? Por que eu deveria ficar com vergonha? Ai descobri o sutiã com bojo que não deixava aparecer os biquinhos do seio, e assim as pessoas iam parar de ficar encarando meus peitos (ou nem tanto assim…).

Voltando a afirmação de Simone …

Eu sabia que eu era mulher desde sempre… desde criança… antes mesmo que eu começasse a pensar/sentir/imaginar que haviam impulsos sexuais e orientação sexual. Como eu sabia ser mulher? Como eu sei? Acho que depois de toda essa reflexão eu ainda não sei. Mas o que sei é que quando comecei a entender o que era viver em sociedade ela me moldou para o que ela aceita ser mulher. Raspei a perna não por mim, usei sutiã não por mim, fiquei com as pernas fechadas “que nem mocinha” não por mim. Porque pra mim isso ia além de ser mulher e não entendia porque para a sociedade era isso que eles pensavam que me fazia mulher, então, ok… “farei isso que me pedem para eu ser aceita como mulher”.

Sabe como continua a frase de Simone? “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”… E eu experimentei isso, o meu ser mulher vinha antes, mas ao mesmo tempo veio depois também… Veio a partir do que a sociedade ia me ensinando o que mulher significa ser…

Como antes, eu ainda não havia aceitado coisas como “você é menina não pode”, pra mim isso nunca fez sentido e continua não fazendo, mas diferente de antes agora eu me incomodo com minha perna com pêlos, e usar camiseta sem sutiã… O meu eu-mulher não deve vir do que homens dizem pra mim, ou pastores dizem pra mim, ou que mulheres dizem pra mim ou o que minha mãe, meu pai dizem que deve ser mulher. Mas há uma pessoa que pode dizer o que é ser mulher, isso por que essa pessoa é a única com o manual de como funciona os seres humanos. O criador de algo sempre sabe tudo sobre esse algo: Por que isso foi criado; Para que foi criado; Como esse ser deve se comportar… E é nesse Criador, Espírito, Alfa e ômega, que eu posso saber o que é ser mulher… Afinal mulheres são a imagem e semelhança desse Alfa e ômega.

Houve muitas mulheres na Bíblia:

– Eva foi mãe de um zilhão de filhos e filhas, não sabemos em que ano Eva morreu ou parou de gerar, mas se Adão viveu tudo aquilo que viveu, Eva era expert em ser mãe;

– A filha de Faraó adota uma criança;

– Zípora e suas irmãs cuidavam do rebanho de seu pai;

– Débora foi líder em Israel, profetiza e esposa;

-Jael mata a sangue frio Sísera comandante do exército de Canaã (estilo The Walking Dead);

-As filhas de Zelofeade foram consideradas justas por Deus ao pedir possessão da herança de seu pai, e assim estabeleceu o direito das filhas pela herança em Israel;

-Raabe foi prostituta, traiu o seu povo, temia o Deus de Israel, tataravó de Davi;

-Tamar foi de uma sagacidade incrível, fingir ser prostituta e engravidar-se do sogro, Judá, para que a justiça fosse feita;

-Rute era estrangeira, cuidou de sua sogra viúva trabalhando colhendo espigas, bisavó de Davi; (E essas três últimas mulheres estão presentes na genealogia de Cristo!);

– Noemi, casada, mãe de dois filhos e sogra;

-Ester, rainha que se posicionou para lutar pelo seu povo, mesmo que isso significasse sua morte;

-Priscila fazedora de tendas e cooperadora do evangelho;

-Maria escutou ensinamentos aos pés de Jesus;

– Febe diaconisa;

-Lídia vendedora de púrpura, sua casa foi a primeira “igreja” européia;

-Maria, mãe de Jesus, gerou e cuidou do Rei e Senhor da humanidade;

– E muitas e muitas outras….

Sabe o que elas tem em comum? Isso mesmo são mulheres, e uma coisa que vejo nelas é força, determinação, coragem, e principalmente, elas foram chamadas para algo, e cumpriram aquilo que foram chamadas. Maria não disse “Mulher de verdade é aquela que escuta os ensinamentos de Jesus aos seus pés”, Eva não disse “Pra ser mulher tem que ser assim, ter muitos, e muitos filhos”, Jael não disse “Mulher de verdade entra na guerra e estoura os miolos dos homens com um facão!”, Noemi não disse “Mulher de verdade é assim, do lar…” Ester não disse “Mulher que é mulher é bela ao ponto de se tornar Rainha”… Então porque fazemos isso? Ao invés de aceitar que assim como as mulheres da bíblia cada uma de nós temos uma missão?

Somos diferentes! Não existe regrinha do que é ser mulher, pelo menos eu olhando para essas mulheres não enxergo nenhuma… E consequentemente não há competição, novamente não existe competição “Miss mulher 2016” ou “A mulher perfeita do século XXI”. Quer saber o que é ser mulher? Pergunte que mulher eu sou ou devo ser, mas não pergunte à pastor ou à Simone, ou à sociedade, ou à amigos, ou à mim. Pergunte àquele que te criou, e assim como foi entregue a cada uma das mulheres da Bíblia, à você será entregue uma missão, e você saberá que tipo de mulher você é quando estiver cumprindo sua missão nessa terra, e permitindo Deus revelar à você que mulher você é.

Referências:

Beauvoir, Simone de. 1967. Segundo o Sexo II: A experiência vivida. Segunda edição. Difusão Européia do Livro.

*http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/10/111013_meninooumenina_is.shtml


Michelle Corrêa de Araujo. Curiosa para conhecer os mistérios da vida e dos tons azul. Mulher nascida e tornada. Ansiosa para saber mais da minha verdadeira identidade em Deus.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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