Feridas nossas de cada dia

Uma amiga minha uma vez me falou que as violências contra as mulheres acontecem o tempo inteiro, tão perto de nós e conosco, mas a gente ainda costuma achar que se trata de algo distante. Foi por conta de uma dessas conversas que finalmente consegui pensar em escrever um pouco sobre misoginia e feridas. Por que sobre misoginia? Porque essa palavra tomou forma há pouco tempo na minha vida. Eu sabia que se tratava de violência contra as mulheres, que é resultado do machismo e que pode ocasionar tanta tristeza. Como qualquer conceito, muito fácil de tecermos comentários sobre, muito difícil de o vermos na prática, principalmente em nossa prática, independente de nosso gênero.

Numas pesquisadas sobre misoginia encontrei algumas características em um site de psicologia, vou citar algumas aqui: “Na maioria dos casos, misóginos nem sequer sabem que odeiam mulheres. A misoginia é tipicamente um ódio inconsciente que alguns homens formam no início da vida, […]. Seu comportamento em relação às mulheres, em geral, é arrogante, controlador e auto-centrado. […] Ele é extremamente competitivo, especialmente com as mulheres. […] Ele vai [pode] enganar a mulher com quem está namorando, ou em um relacionamento com ele. […] Ele pode desaparecer de repente, partir de um relacionamento sem acabar com ele, mas pode voltar alguns meses mais tarde com uma explicação planejada para conquistar a mulher de volta.”

Diante do conceito e de algumas dessas características fiquei pensando em alguns tipos de relação. Muitas mulheres lembrarão de casos que já passaram diante dessas características, muitas dessas situações passamos ou estamos passando de maneira tão inocente, porque não sabemos como reagir, porque gostamos, porque resolvemos perdoar, por ‘n’ motivos. Mas queria pontuar algumas coisas:

A misoginia é resultado da depravação do ser humano.  Como mulheres precisamos assumir que nossos companheiros tem atitudes misóginas, pois também é resultado de um machismo que oprime, invisibiliza e silencia mulheres. Ainda que ele tenha um discurso feminista, ainda que ele tenha toda uma preocupação em não reproduzir machismos. No geral, os homens ainda são criados em um círculo de machismo. Homens precisam realmente assumir suas fraquezas, crises, dificuldades e as feridas que causam em suas companheiras. Elas não são obrigadas a sofrerem! Nós não somos obrigadas a salvar o nosso companheiro.

Sobre isso, uma outra amiga nos últimos meses tem me falado algo que tem me feito pensar muito: “O seu amor não é capaz de redimir o outro”. E minha mãe sempre me disse que as pessoas não mudam assim não. Por algum motivo, nós, mulheres carregamos em nós o peso da relação. Isso eu ainda não consegui desvendar. Nos sentimos tão frustradas com os términos, mesmo quando não temos culpa alguma. E ao longo da relação esse sentimento de frustração reaparece o tempo todo, por conta dele vamos cedendo a tantas incoerências e violências verbais, morais e físicas. De alguma forma acreditamos que nosso amor, paciência, e tudo que nos ensinam de complacência aos erros masculinos, vão ser capazes de redimir nossos companheiros. Eu tenho uma notícia: não vão!

Para concluir, minhas curtas palavras, quero dizer aos homens que conseguiram acessar esse blog e chegar até o fim dessa leitura. Se você chegou até aqui talvez já tenha algumas desconstruções em curso. Não seja ‘machão’, seja capaz de chegar a sua companheira, a sua mãe, a sua amiga e dizer: “senta aqui comigo, eu agi assim, assim, assim. Como você, como mulher, se sentiria?” E saiba ouvir humildemente. Eu, como mulher, espero que os homens sejam capazes de ouvir, refletir e se desconstruir, mas também de reconhecer seus erros e pedir perdão pelas violências, feridas e dores causadas. A bíblia fala de uma nova terra onde leão e cordeiro ficam juntos. Eu ponho minha esperança aqui e lá, como desejo que um dia mulheres e homens possam conviver sem predatismo, sem maldade, sem opressão, sem feridas. Para que possamos vislumbrar isso nesta terra é preciso lutar contra as feridas que nos são causadas todos os dias, é preciso que se repense nas feridas que a misoginia causa, que o machismo causa, que a falta de sororidade causa. Se somos sempre mudança, que essas questões estejam sempre à vista, mais que à língua.


Marília Teles mora em Sergipe, é graduada em História pela UFPB, aluna do mestrado em História na Universidade Federal de Sergipe, mulher, gorda e tecida em poesia.

O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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