Silenciamento das Mulheres

Moça, puxa uma cadeira, vamos conversar!

Falar de feminismo hoje é uma dificuldade para qualquer pessoa; se você concorda com o movimento, se você não concorda, e principalmente se você é uma mulher cristã que sofre com o sexismo dentro e/ou fora da igreja.

O momento de busca pelo lugar feminino que vivenciamos tem levado muitas mulheres a abrirem os olhos quanto aos abusos enfrentados diariamente, seja assédio de qualquer tipo, diminuição, menosprezo, violência etc. Com isso o movimento feminista vem ganhando espaço, conquistando aos poucos pessoas que se cansaram e querem mudar esse cenário. Mas como todo movimento trás consigo grupos que tendem ao radicalismo, algumas pautas sustentadas por algumas vertentes deste movimento acabam por entrar em rota de colisão com verdades do evangelho. Por causa disso, o feminismo tem sido visto por muitos cristãos com o “pé atrás”, como algo prejudicial, que vai distorcer o que sempre esteve certo pra inverter papéis que não devem ser invertidos. A fala é de que as feministas querem ser superiores aos homens, tomar o lugar de liderança deles e deixarem de ser submissas, como manda a palavra de Deus. No entanto, algumas mulheres que se indignam com a situação em que se encontram, são cristãs e não querem deixar a fé de lado; para isso é preciso verbalizar o problema, apontar, e pensar uma solução condizente com as Escrituras. Como tratar essa angústia, essa necessidade de falar sobre algo incômodo, dentro da igreja?

Trazer uma conversa sobre os papéis de homem e mulher dentro da igreja é sempre tocar em pontos como submissão feminina – muitas vezes entendida erroneamente como inferioridade da mulher -, o homem é o líder do lar etc. O que nem sempre a igreja vê é que precisamos ir além disso; ninguém se sente confortável trazendo esse assunto para a roda no ambiente cristão, os rótulos dos papeis de gênero sempre dominam nossas conversas, e eles podem nos distrair de conversas verdadeiras que devemos ter, abordar o assunto e discutir de forma saudável. Silenciar a voz feminina no meio cristão, assim como silenciar qualquer pessoa que se sinta incomodada com algo e queira discutir o assunto, pode trazer consequências como o abandono da comunhão na igreja, por exemplo. Se sentir excluído ou sem voz na igreja é um dos principais motivos que contribuem para o crescimento dos cristãos pós-denominacionais – evangélicos seguidores de Jesus e que buscam experiência comunitária fora das fronteiras da institucionalidade denominacionalista. O que temos respondido a esse grupo? Buscamos entender as necessidades deles? Estamos prontos a ouvir e oferecer ajuda?

O machismo coloca as mulheres em planos inferiores, seja no mercado de trabalho, seja no lar ou na igreja. Atitudes machistas acompanham o cotidiano feminino (desde aquela piadinha que seu professor da escola dominical faz até atitudes mais graves). E é vontade delas tratar o assunto, conversar e serem ouvidas, mas a falta de diálogo pode impedir até que elas cresçam na fé; a restauração da paridade homem-mulher como parte da reconciliação é oferecida no evangelho. A sociedade está tentando definir o que significa ser homem ou mulher, mas o evangelho apresenta pessoas que servem umas às outras. É preciso abordar de forma honesta o sexismo; os problemas encontrados nesse debate muitas vezes não vêm das nossas posições sobre questões de gênero, mas sim da incapacidade de amarmos o próximo, e levar a submissão mútua a sério, submetermos uns aos outros no amor de Cristo.

É preciso que igrejas e irmãos encontrem espaço aberto para diálogo, para ouvir, trocar experiências e orar com e pelas mulheres; trabalhar a capacidade delas servirem na igreja; mostrar que abandonar a comunhão dos irmãos não é a solução [Hb 10.25]. Somos chamados a fazer parte da redenção e da restauração da dignidade humana, cheia de mulheres de Deus que precisam ser ouvidas.

 


Bruna Leal cursa Letras na Universidade Federal de Minas Gerais. Como não é desse mundo, acha refúgio nas palavras; está sempre usando sandálias confortáveis esperando o dia em que a vida vai tirá-la pra dançar, para sempre.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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