“Eu lhes digo, respondeu Ele: Se eles se calarem, as pedras clamarão” (Lucas 19:40)

 

Falar sobre mulher na Igreja, via de regra, é falar sobre a submissa (e não a ajudadora e parceira), sobre a tentadora e sobre as tolas que destroem o lar… Mas será que é só isso que temos para falar sobre as mulheres? Sou nascida e criada em berço cristão, meu filho é a quinta geração de evangélicos da minha família. Minhas avós foram diaconisas e mães exemplares, sendo minha avó materna diaconisa emérita em sua comunidade. Respeito todos os fundamentos do casamento e da família cristã e fiz questão de respeitá-los ao me unir ao meu esposo. No entanto, há algo engasgado em minha garganta: o que nós cristãos temos feito em favor das mulheres que estão subjugadas aos mandos e desmandos de homens abusadores e que não amam suas esposas como Cristo amou a igreja?

Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. (Efésios 5:28)

Podemos refletir sobre a Marcha das vadias: nascida no Canadá em 2011, por causa da indignação de estudantes que estavam numa palestra em que um policial afirmou que para as mulheres não serem estupradas, elas não deveriam se vestir como vadias. Elas não aceitaram a  culpabilização das vítimas e, através do movimento slutwalk, defenderam que a culpa é do agressor, nunca das roupas da mulheres. Hoje, a Marcha das Vadias está em vários países e é fortemente criticada pela Igreja por entrar em conflito com os princípios cristãos de família.

Essa marcha não é nada a mais do que o clamor das pedras (Lucas 19:40) que dá voz a quem a igreja esqueceu e que mostra o sofrimento que a igreja finge não ver. Os números do abuso sobre a mulher (e também sobre a infância, os incapazes e dependentes de homens) são altíssimos e em situações muito piores que o apedrejamento de Madalena, defendida por Jesus em um exemplo divino de sentimento de humanidade.

Dados da violência contra mulheres no Brasil são alarmantes

-Quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica.
-43,1% das mulheres já foram vítimas de violência em sua própria residência.
-25,9% foram vítimas de seus cônjuges ou ex-cônjuges.
-O número de atendimentos feitos pela Central de Atendimento à Mulher (Disque 100) cresceu 16 vezes de 2006 para 2010. Em 2006, foram feitos 46 mil atendimentos.
-Abusos de crianças e adolescentes atingem 50% das cidades.
-Em metade dos municípios brasileiros há registros de denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes.
-De acordo com o mapeamento, as regiões Sudeste e Nordeste concentram 64% dos municípios de onde partiram ligações para o Disque 100. Os municípios com maior número de denúncias são os que recebem a menor cobertura de programas de combate à exploração sexual.

Fonte: http://www.adur-rj.org.br/5c…/pop/dados_violencia_mulher.htm

Esta é a questão, onde está o sentimento de humanidade da Igreja para com as mulheres e crianças que sofrem abusos, que estão vulneráveis às ações de redes de exploração sexual? Quantas vezes eu ouvi nas reuniões de oração: “vamos interceder pelas mulheres que apanham e são abusadas por seus maridos e pelas meninas e meninos que são estupradas por pais, padrastos e tios”? Sempre que posso, peço oração pública por essa causa, temos que orar e agir por essa causa! Temos que defender o casamento que nasceu no coração de Deus, com amor respeito e companheirismo! Temos que orar pela infância! Ah, como meu coração chora a cada notícia de abuso que escuto! E você? E nós? E a Igreja? Como estamos nos comportando frente a essa situação?

Pela minha experiência em conversar com mulheres abusadas e por conhecer o preconceito existente no meio cristão, acredito que algumas posturas podem ajudar as mulheres:

  1. Dê ouvidos a uma mulher em situação de abuso, não tente explicar que ela está exagerando, que vai melhorar ou que é normal homens serem assim. Escute, se houve abuso físico, sexual ou psicológico a ajude encontrar um programa de apoio à mulher e denunciar em uma delegacia de polícia.
  2. Não crie filhos para serem machões e filhas para serem escravas. O que temos visto no meio evangélico é que os valores do casamento se transformaram em valores machistas. Não se deve tratar mulheres como escravas ou inferiores.
  3. Não faça piadas machistas, ou ria delas, isso ajuda a perpetrar uma cultura de abusos.
  4. Uma mulher que sofreu abuso, de qualquer espécie, deve ser lembrada que a culpa NUNCA é dela, mas de quem cometeu o abuso.
  5. Não seja conivente com casos de violências domésticas que tiver conhecimento.

Texto postado originalmente em Sim, Genuflexos!


Simony dos Anjos é Cientista Social e mestranda em Educação, é membro da IPI do Brasil desde sempre, é professora de Jovens e Adolescentes na EBD e autora do Blog Sim, Genuflexos (www.simgenuflexos.blogspot.com.br).


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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