“Eu não sou machista, tô só brincando!”

Eu adoro fuscas.

Descobri isso não faz muito tempo, mas depois que percebi que meu coração batia mais por esse carro comecei a vê-lo em todos os lugares, de todas as cores, de todas as formas lindas que o fusca pode ter. Antes eu via um ou outro fusca pela rua de vez em quando, mas é diferente quando a gente passa a olhar com mais atenção qualquer coisa que seja, você percebe que essa coisa sempre aparece no cotidiano.Toda vez que vejo um fusca fico pensando como seria maravilhoso colocar uma prancha em cima dele, um óculos redondo no rosto, sequestrar o violão da minha irmã e ir pra praia no final de semana. Fico até mais poética perto de fuscas.

Você já deve ter sentido isso quando pensou em alugar ou comprar uma casa nova, por exemplo. De de um dia para o outro surgiram do além 43209547839 casas com placas de vende-se ou aluga-se. Ou quando você viu alguma matéria na televisão sobre como árvores na frente de casa nos deixam mais felizes e aí se deu conta que seu vizinho tem uma árvore incrível que deixa o ambiente mais fresco e alegre.

Mas esse texto não é sobre fuscas, casas ou árvores. Fuscas, casas e árvores são legais e não vamos falar sobre coisas legais aqui.

A questão é que quando resolvemos dar atenção a algo que não dávamos antes, esse algo passa a explodir na nossa frente o tempo todo. Ele sempre esteve ali por mais que não o víssemos.

Esse texto é sobre o machismo.

Eu não dava atenção a ele. ACHAVA que aquilo não fazia diferença na minha vida, eu BRINCAVA com a situação e até POSAVA de machista (atenção importante aos verbos que estão no PASSADO galere!). Quando alguém vinha falar alguma coisa sobre isso eu usava o famoso “tanto faz” e mudava de assunto o mais rápido possível, queria permanecer na zona da “neutralidade”. Mas esse tema começou a ficar recorrente demais e eu sou adepta da teoria “Se não conhece, não critique, bregadadenada!”. Bom, eu não conhecia direito essa coisa de feminismo então tive que olhar com atenção e ouvir o que aquelas minas que eu ACHAVA meio exageradas estavam querendo dizer.

A partir daí as coisas ficaram bizarras, principalmente pelo fato de que muita coisa fazer sentido. E eu perceber que o machismo fez e continua fazendo diferença na minha vida, que eu não devo brincar com isso e que é insano posar de machista. E adivinha o que começou a acontecer? Isso mesmo, ele estava presente pra todos os lugares.

O mais pesado é, mesmo de brincadeira, levantar a bandeira do machismo como se fosse uma coisa legal. NÃO É LEGAL!

-E por que não é legal, Bettyna?

Ok, vamos lá! Quando você defende ou reproduz o machismo, você está sendo loucamente sem noção.

O machismo é opressor, e quando eu digo isso me refiro ao fato de que o machismo vê a mulher como objeto de dominação e fonte de prazer, como um ser inferior, como alguém que deve ser valorizada pelo tamanho da roupa ou pela cor do batom.

O machismo, que você brinca de apoiar, apoia o fato de que mulher gosta de apanhar e tem que calar a boca porque é o homem quem manda.

Esse machismo tão “bonito” não admite que a mulher vista roupas mais confortáveis ou deixe de usar maquiagem, afinal de contas a mulher precisa estar sempre linda (em cima de uma construção inalcançável de estética), bem arrumada,  bem humorada e pronta pra servir a todos com um sorriso no rosto.

O machismo, que é tão engraçado, ri quando alguma mulher apanha do marido ou namorado, “deve ser uma vadia e mereceu apanhar”.

O machismo entende e apoia o fato do cara trair, já que biologicamente é impossível o homem controlar suas necessidades.

O machismo não concorda com o fato de uma mulher ganhar mais que o marido, já que ele é o cabeça do lar.

O machismo acha que eu tenho que chegar em casa no mesmo horário que o meu marido e começar outro turno de limpeza e cozinha, porque onde já se viu a mulher deixar a casa suja e não cozinhar bem (mesmo que isso seja algo necessário pra todo mundo, virou obrigação da mulher).

O machismo não dá importância ao que uma mulher diz ou pensa porque a função da mulher é ter filhos e calar a boca.

O machismo, que você gosta de dizer que é legal,  (e isso agora fica realmente pessoal) não me deixa em paz na rua.

O machismo, no qual vivemos, me faz andar tão depressa a noite na rua que minhas pernas queimam, mas eu não posso correr o risco de algum homem me vir na rua e me estuprar, afinal de contas se estou andando tarde na rua estou pedindo pra ser estuprada.

O machismo, que parece divertido, me fez chorar horrores quando cheguei em casa o dia que um cara me acompanhou por um longo período de tempo numa rua deserta falando um monte de besteira e me mandando entrar no carro dele.

O machismo, que é só de brincadeira, fez um cara estúpido passar a mão em mim e dizer que eu tinha que me sentir feliz já que era “gostosinha”.

O machismo fez com que minha mãe saísse da escola na quarta série, afinal meu avô dizia “Não precisa estudar pra limpar bunda de criança”.

O machismo me olha e diz que sou feia já que não me encaixo nos padrões de uma bela mulher.

O machismo não me deixou empinar pipa, jogar futebol, andar de skate ou brincar de bolinha de gude com meus amigos da rua, é brincadeira de menino, né?

O machismo fez a minha ideia/proposta ridícula na sala de aula e depois aclamada quando foi dita pela voz de um homem.

O machismo me fez levantar mesmo que gripada pra lavar a louça, afinal de contas meu pai estava ocupado demais vendo o jornal (não faz mais, porque agora ele lava a louça que é uma beleza).

O machismo odeia meu cabelo, porque ele é enrolado e curto.

O machismo acha que eu peço pra ser estuprada se saio com um short curto na rua.

 

Eu realmente não entendo alguém que olhe pra tudo isso e ainda diga: “Sou machista mesmo”. SER MACHISTA NÃO É UMA COISA LOUVÁVEL! Eu considero que esteja na mesma escala de “Sou torturador mesmo”, “Sou assassino mesmo”, “Sou racista mesmo”. O que você faria se alguém – de brincadeira – falasse pra você que é racista?
Não precisa levantar uma bandeira feminista e ir nos atos que as mulheres convocam, mas pare com essas brincadeiras e comentários e entenda que é uma coisa muito séria!

Jesus viveu numa sociedade machista e foi contra ela quando falou com a mulher samaritana no poço, quando chamou Marta pra aprender sobre o reino, quando se deixou ser sustentado por mulheres, quando apareceu primeiro a uma mulher quando ressuscitou, quando não condenou à morte a mulher adúltera, quando parou tudo o que estava fazendo quando uma mulher o tocou e teve tanta fé que fez com que poder saísse dele. Esses episódios e outros mostram como ele lutava sim pela justiça social. Deus é um Deus justo e eu tenho certeza que Ele não diria “ah, ela mereceu e tinha que apanhar mesmo” quando um homem bate no rosto de uma mulher na rua (já vi isso acontecer). Se Ele não pensa assim, por que você pensa?

Eu realmente gostaria de não precisar ser feminista, gostaria que as pessoas se olhassem como pessoas. Tudo parte do respeito! Essa é a base do feminismo, o respeito. Há muitas linhas e discussões sobre vários temas dentro do feminismo, não é todo mundo que concorda com tudo, mas se as mina tão lutando por justiça social e igualdade de oportunidades, por que sair por aí dizendo que isso é ridículo?

Talvez você, assim como eu um dia, não tenha ideia do que era esse machismo, de como o está reproduzindo por aí, ou de como essa reprodução, mesmo que nas mínimas coisas, machuca. Mas agora que tem a chance de ver com atenção esse problema, não o deixe de lado, nem finja que ele não existe. Ele está oprimindo por todos os cantos, por mais que você nunca tenha reparado.

Quando nós paramos pra pensar em algo que nunca tínhamos pensando antes e isso nos pede uma mudança de postura as coisas ficam confusas, eu sei. Mas isso pode ser simplificado se não diminuirmos a dor do outro, nos compadecermos dele, nos colocarmos em seu lugar. Vamos pensar juntos em tudo isso, e vai ser muito melhor se pensarmos durante o caminho da praia no final de semana, de fusca, com uma prancha, um violão e um óculos redondo no rosto.


Bettyna Freitas é estudante de letras, fã de MPB, adora fotografia, cinema, dias chuvosos e fuscas.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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