Mulher, periferia e ação social

Aos quinze anos tive meu primeiro contato com assuntos relacionados a questões de gênero, machismo, feminismo etc, como cristã, influenciada por valores “conservadores”, pela família e  privilegiada classe média, com acesso a educação de qualidade  e com corpo “dentro dos padrões” estipulado pela mídia, exceto pelo cabelo cacheado, encontrei muita dificuldade em compreender o machismo na sociedade, já que aparentemente ele não existia no meu mundo. Não havia problema nenhum em ser mulher, mesmo que diariamente lidasse com tarefas desiguais dentro de casa, com a dupla jornada da minha mãe, com as duras  críticas dos meus avós sobre como minha mãe deveria ser ou agir para ser tornar uma “mulher virtuosa”, com o assédio na rua, com os almoços em família onde só as mulheres eram responsáveis por cozinhar, servir e  limpar. Na minha cabeça isso tudo fazia parte do ser mulher, era o natural, não havia sentido em reclamar da nossa própria natureza.

Entretanto, minha visão mudou drasticamente quando tive contato com comunidades de periferia, onde ser mulher era literalmente um castigo. Nas periferias da cidade de Montes Claros, pude ser voluntária em dois projetos sociais, um no Bairro Cristo Rei que possui um dos maiores índices de violência e tráfico de drogas da cidade, e outro em uma comunidade próxima ao antigo aterro sanitário da cidade, um dos bairros mais carentes. Em ambos, pude notar como a condição da mulher era precária, além de conviver com a pobreza que afeta toda comunidade, veem-se obrigadas a se sujeitarem às mais diversas formas de violências e  escassez de direitos, o que torna determinante o futuro daquelas meninas e mulheres. Diferente dos homens da mesma comunidade, a maioria são privadas do direito a educação e ao lazer, pois, geralmente, quando as meninas não engravidam na adolescência e tem seus filhos abandonados pelos pais, sendo forçadas a criar a criança sozinha, levam para si a responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos sendo obrigadas a se tornarem adultas muito cedo, ou até mesmo forçadas a largar os estudos pelo marido ou companheiro .

Sem contar a baixa auto–estima das meninas., Enquanto os meninos são em sua maioria falantes e espontâneos, as meninas, principalmente as adolescentes negras, se quer olham em nossos rostos, falam baixo e tem dificuldade em emitir suas opiniões. Se achavam feias e tentavam se adequar aos moldes da beleza branca escondendo o cabelo crespo  e não gostavam dos seus traços faciais, além de terem seus corpos sensualizados e objetificados, o que contribuía para sua falta de perspectiva e sonhos. O ser mulher naquelas comunidades era sinônimo de ainda mais sofrimento, da ausência de direitos, de violência, de objetificação, enfim  era o “natural”.

Após esse choque de realidade, pude me dar conta dos meus privilégios e enxergar de uma maneira nítida o machismo presente em nossa sociedade, não era justo o sofrimento daquelas meninas e mulheres, não era o natural, não fazia parte da nossa natureza sofrer e ter o futuro, de certa forma determinado. Deus não havia nos criado para isso. Ele nos amou de uma forma incondicional para sermos livres. Por isso, que como cristã eu entendo que tenho também a missão de refletir o amor do Pai,  não podendo ficar parada diante de tanta injustiça – era preciso  dar poder aquelas mulheres .

Como mentora  do projeto que trabalhava com leitura, usei da literatura  para tentar modificar a realidade daquelas meninas. Através da obra Dom Quixote de Miguel de Cervantes , tentei ensiná-las a sonhar, a lutar por um mundo melhor, a utopia, a acreditarem que podem ser o que quiserem mesmo que o mundo esteja contra elas. Com os livros “Os cabelos de Lele” podíamos conversar sobre cabelos crespos e negritude, mostrei a elas como era bonito ter pele escura e os cabelos toim-toim. Fizemos um dia sobre consciência negra e pude me deliciar com a alegria das meninas ao se enfeitarem com turbantes, acessórios e roupas com estilo africano além das poesias de protesto contra o racismo. No dias das meninas, as apresentei à Malala e a importância da educação, falamos dos direitos das meninas e  sobre autoestima e no final da programação ainda tivemos sessão de fotos.

Não pude e não posso  mudar o mundo daquelas meninas, e toda estrutura perversa as quais estão inseridas, a violência dentro de casa, a educação de má qualidade, o machismo estrutural e a falta de oportunidades, o projeto ainda continua para tentar de certar forma modificar essa realidade. Mas antes de mudar a realidade delas, estes projetos com os quais me envolvi modificaram primeiro a mim, mudaram completamente meu jeito de pensar, de agir, de enxergar o cristianismo e o amor ao próximo e a ter empatia. Aprendi que não posso falar de um Deus de Amor se sou incapaz de me colocar no lugar no outro, e se me omitir diante das injustiças e privação de direitos. Aprendi que não posso me calar diante do machismo na sociedade ou ficar em minha zona de conforto, como mulher e principalmente como cristã, devo levar a liberdade para outras meninas e mostrar como incondicional é o amor do Pai.


Sara Rebeca gosta de funk, cursa Gestão de Políticas Públicas na USP e faz parte da Aliança Bíblica Universitária. Ela também faz parte do projeto Reciclando Vidas e é mentora de uma área do projeto que tem como objetivo despertar o interesse pela literatura em crianças que moram em uma área de aterro sanitário na cidade de Montes Claros em Minas Gerais.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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