O que aprendi com minha mãe e com a mãe de minha mãe

Um tempo atrás me deparei com um texto em que a autora lamentava o fato de sua mãe não ter te ensinado uma série de coisas. Entre elas, sua mãe não teria lhe ensinado a depender financeiramente de seu marido, a justificativa do lamento é que não confiar nessa provisão era falta de fé. Achei um pouco chocante, principalmente por vivermos em um país onde boa parte da população tem uma renda familiar baixa (dados aqui), e cerca de 37,3% das famílias são sustentadas por mulheres (mais outros dados aqui e outros aqui também).

Minha avó é uma velhinha muito conversadeira que gosta de contar causos da sua vida. Se der corda não para mais. Uma de suas histórias (das mais repetitivas, mas tudo bem) é sobre seus “dia primeiro”, mais conhecido como “antigamente”.

Como teve problema “nas vista” desde criança não foi colocada para estudar e foi mandada pra lida, para trabalhar. Desde colher marcela ou marmelo, tirar tarefa (capinar) a pregar rótulos em latas de doce. Nessa, ela conta que teve que brigar para receber igual homem, afinal, trabalhava mais que eles (ela diz “enquanto eu tirava duas tarefas num dia, um homem levava três dias pra tirar uma tarefa” – uma tarefa é referente ao trabalho de capinar mais ou menos 30 metros quadrados de um terreno). Tempo depois, minha bisavó a mandou para o convento, lá a fizeram decorar todas as rezas em latim, mas não a ensinaram a ler ou escrever. Depois saiu do convento e se casou com meu avô, que era viúvo e tinha um filho de 11 anos do outro casamento. Depois de se casar não foi tão diferente, eles dois precisavam trabalhar para cuidar da casa e dos filhos. Não bastasse a dificuldade que já havia, meu avô – que trabalhava com formicida – desenvolveu esquizofrenia. Por um tempo ele foi até para o hospital psiquiátrico em Itapira (e sim, levou choque como muitos outros, e viu coisas horríveis). Por conta disso ele não pode mais trabalhar, e minha avó teve que trabalhar dobrado. Nessa época minha mãe era criança e passava o tempo em casa com meu avô, que a ensinou a cozinhar e nas épocas em que ele estava melhor, fazia peneiras e cestos para vender. Independência financeira para minha avó nunca foi falta de confiança em Deus, pelo contrário, sobra de confiança e gratidão por Deus a fazer forte para trabalhar e sustentar sua família.

Por conta da situação financeira, minha mãe também trabalhou desde muito cedo. De ir pra lida com minha avó, trabalhar em casa de família, ser babá, servir em restaurante a trabalhar em mercearia. Largou os estudos muitas vezes, porque era difícil juntar o ritmo dos estudos ao cansaço do trabalho. Ela se converteu aos 17 anos entre Assembléia de Deus e Igreja Presbiteriana do Brasil e, por fim, ficou na IPB. Entre seus 22 e 23 anos fez o curso missionário do Instituto Bíblico Eduardo Lane e viveu como missionária por um tempo. Depois que casou com meu pai ela ficou em casa. Meu pai trabalhava com meu avô no açougue dele. Nunca fomos ricos, mas meu pai dava conta de nos sustentar. Por volta de 2002, as coisas apertaram. O açougue, que então era apenas do meu pai, já que meu avô tinha falecido fazia 7 anos, entrava em falência e a gente ficou bem mal das pernas. Minha mãe não pensou duas vezes, começou vender AVON e Natura (que na vida de muitas mulheres foi uma boa saída financeira, já que se adapta a jornada do lar). Também ajudou meu pai a desenrolar as coisas da declaração de falência do açougue e a pensar um novo destino para o ponto comercial: revistaria e livraria. Nesse tempo ela dividia seu tempo entre a loja e os cuidados da casa.

Quando se toca nesse assunto, é sempre importante fazer os devidos recortes sociais, culturais e econômicos. No nosso recorte, trabalhar nunca foi uma escolha, foi necessidade. Poder trabalhar é benção.

Em janeiro do ano passado tive a oportunidade de trabalhar por alguns dias no Projeto Missionário Vila Capriotti, em Carapicuíba. O projeto tinha duas frentes principais de trabalho: as crianças e as mulheres. As crianças porque no meio da pobreza da favela é preciso falar de esperança. Esperança de perspectiva de vida e em Cristo. As mulheres porque além da Esperança é preciso capacitá-las para se desenvolverem financeiramente para cuidar de si e, em muitos casos, de seus filhos, pois muitas daquelas mulheres eram abandonadas por seus parceiros ou os perdiam para o tráfico. O PMVC, portanto, oferecia cursos de informática, manicure e padaria.

Minha família não é exceção. Minha família não é formada por pessoas em que a máxima meritocrática de que “quem não é vagabundo e trabalha sobe na vida” fez sentido e se cumpriu. As mulheres daquela região de Carapicuíba também não podem ser tratadas como exceções.

Por muito tempo o livro de Eclesiastes fazia com a minha cabeça o mesmo que aqueles brinquedos de parque de diversão que giram e giram como uma coqueteleira fazem com a gente. Eu não entendia qual motivo eu tinha em fazer qualquer coisa se nada fazia sentido e era correr atrás do vento. Depois de longas conversas e estudos, fui percebendo algumas tensões. Eclesiastes não está lá sozinho, não foi só esse livro que (supostamente) Salomão deixou para nós. Também tem o livro de Provérbios. Enquanto Provérbios gasta linhas e linhas dizendo “faça isso que você vai se dar bem”, Eclesiastes gasta linhas e linhas dizendo “mas pode ser que você faça tudo o que deveria ser feito para se dar bem e não dê, viu? Pode ser que aquele que não estava fazendo nada com nada é que vá se dar bem…”. Parece que é contraditório, mas percebo como complementares, um paradoxo. Deus não é um deus encaixotável, é óbvio que ele não faria a existência, a vida, assim. Somos seres humanos, não androides binários. Dito isso, faz muito sentido que nenhuma regra se aplique bem, mas que também se aplique.

Essa tensão de Provérbios e Eclesiastes fala basicamente da responsabilidade humana e soberania divina. Eu preciso fazer a minha parte, e confiar que Deus, assim como lhe aprouver, vá fazer a sua. Não me parece muito sábio seguir ao pé da letra o verso dos Salmos de que “aos seus, Deus dá enquanto dormem”. Não me parece muito sábio que, tendo oportunidade de se preparar para Deus-sabe-o-quê vem pela frente, se escolha sentar e aguardar que Deus venha a prover um marido que sustente a mulher (veja bem, não estou falando de mulheres que num contexto mais favorecido escolham trabalhar apenas na jornada do lar). Não há nenhuma promessa na bíblia acerca disso. Pelo contrário, há o exemplo de Rute, que a sorte veio a deixar viúva, e ela teve que se desdobrar para levantar o seu sustento e o de sua sogra – ou ela em vez de ir para o campo de milho ficou sentada esperando Boaz aparecer montado num cavalo branco? Também não há promessas de que todas (ou todos) irão se casar. E isso será falta do cuidado de Deus? Ou será um ídolo do coração frustrado?

Se preparar para não depender do marido (ou de alguém) financeiramente não é falta de fé. Para além disso, também é óbvio que não fomos criadas para sermos independentes (no sentido de isoladas), lobas solitárias pelo mundo. Fomos criadas para trabalhar em parcerias. Deus deseja que os relacionamentos sejam restaurados sim, mas ele quer que as pessoas aprendam a depender e a confiar nEle, no Criador, antes da criatura. Não fomos criadas para depositar nossa fé e dependência em outros seres humanos, mas antes na presença de Deus, que ao mesmo tempo nos dá parceiros e parceiras de caminhada e comunidades de fé com quem contar. Mas que antes de tudo estejamos com Ele. Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza. Até que a morte (morte?) nos una de vez.


Deborah Vieira é acadêmica em Letras pela Universidade Federal de Pelotas, participa da ABUB, do Coletivo Severina e você pode clicar aqui para encontrá-la em outros lugares.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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