Sou mansa, mas não acho que todas devam ser

Certa vez estava passeando com duas amigas quando uma delas falou a respeito do modo como as mulheres bravas são preteridas pelos rapazes, como é comum que as mulheres mais assertivas, firmes e que não se omitem de demonstrar descontentamento sejam não somente deixadas de lado e menos procuradas para envolvimentos amorosos, como também passem por diversos tipos de crítica e desaprovação como se estivessem sendo menos femininas, ou faltando ao comportamento que se espera de uma mulher. Na ocasião me surpreendi muito com a fala dessas minhas duas amigas que são mulheres fortes, decididas e assertivas que eu admiro muito e fiquei pensando sobre como os rapazes poderiam rejeitar essas características, que aos meus olhos só as tornam mais interessantes.

Nesse aspecto do temperamento eu me encaixo no padrão esperado das mulheres: as pessoas frequentemente destacam minha calma e timidez. Sou uma mulher mansa, faço parte da terceira geração do agrado na minha família materna (talvez mais, mas não tive a oportunidade de conviver o suficiente com minha bisavó). Nós aprendemos e fomos formadas para falarmos docemente e sermos agradáveis, e no meio disso ficamos atreladas ao agradar, inseguras e temerosas para discordar e dizer o que pensamos. No nosso caso, e pode ser o de muitas outras mulheres, a assertividade é um grande esforço.

Nos espaços cristãos a mansidão é muito elogiada. Está entre as bem-aventuranças do sermão do monte proferido por Jesus e registrado nos evangelhos de Mateus e Lucas*, e está no ethos do Cristianismo, ou seja, é concebido como parte constituinte da maneira de ser e agir no mundo das pessoas cristãs. Os filmes bíblicos consagram a figura de seguidores e seguidoras de Jesus calmas e contemplativas, e nós por vezes performamos essa maneira gentil e tranquila aos domingos, sendo que muitas vezes, admitamos, essa cortesia se apresenta de forma superficial e ritualística. Tão logo a liturgia do culto acaba, tão prontamente nos despojamos do modo zen e retornamos à maneira de agir característica de cada um.    

“Bem-aventurados os mansos porque eles herdarão a terra”. John Stott explica o adjetivo manso a partir da palavra grega, como foi utilizada pelo evangelista: praüs, “que significa gentil, humilde, atencioso, cortês, e, portanto, o que exerce autocontrole, sem o qual essas qualidades seriam impossíveis” (STOTT, 2008, p. 32). No entanto, o mesmo Jesus que elogiou as pessoas mansas, expulsou aquelas que estavam explorando comercialmente a fé das outras (Evangelho de João, capítulo 2, versos de 13 a 22), e não se furtou de criticar a hipocrisia de alguns religiosos usando palavras e comparações duras e pouco elogiosas. Lembremos de algumas: sepulcros caiados (bonitos por fora, mas cheio de imundície por dentro), serpentes, raça de víboras, hipócritas… No evangelho de Lucas, capítulo 11, Jesus tece diversas críticas aos fariseus**, ao que é respondido com a queixa dos estudiosos da lei de que criticando aos fariseus, estava insultando ao mesmo tempo a classe dos mestres à qual pertenciam. Incrivelmente, Jesus não se acovarda e responde com mais críticas! Dessa vez, dirigidas diretamente aos estudiosos da lei (versículos de 46 a 52). Na versão relatada por Mateus, no capítulo 23, Jesus junta fariseus e mestres da lei em uma lista ainda maior de críticas. Diante disso, a pergunta a se fazer é: por que a maneira de auto-renúncia gentil e calma atribuída aos mansos é mais esperada das mulheres, se vemos tantos exemplos de um Jesus combativo e indignado? Por que são repreendidas e censuradas quando demonstram indignação e assertividade se essa característica também é vista em Jesus?

O meu palpite é de que isso acontece por causa de uma estereotipação da feminilidade, do que é considerado da essência do ser mulher, e em consequência, do estabelecimento de um modelo ao qual todas deveriam se encaixar. E aqui, conto a vocês mais uma situação.

Em um grupo virtual de mulheres cristãs de que participo, uma das garotas nos mostrou a captura da postagem de uma página do Facebook que pretendia abordar a feminilidade cristã, e tentava fazê-lo de uma maneira reguladora, segundo a qual haveria uma maneira verdadeira e outras falsas, errôneas ou mal-sucedidas de ser feminina. O post apresentava a imagem de uma mulher da qual se podia ver apenas o pescoço e uma parte da blusa, dos ombros ao busto, que era de um tecido rendado rosa claro com um detalhe em renda branca na gola. O texto breve que acompanhava a imagem enaltecia mulheres que se vestem e se portam com discrição e recato e criticava as feministas que, segundo a postagem, tentariam apagar essas características das moças que são “felizes por serem mulheres”, e “sabem se valorizar”. A junção da imagem da roupa delicada com esse texto parecia sugerir que somente as mulheres que se vestem dessa maneira e se comportam de forma contida seriam femininas e somente essas estariam agindo em conformidade com o seu gênero por estarem felizes em serem mulheres. Por fim, essas características demonstrariam que elas são competentes em existir em conformidade com o seu gênero, pois “sabem se valorizar”. Gostam de ser mulher, agem como mulheres, e assim se valorizam. Em contraste, sempre conforme a dita postagem, as feministas não agiriam assim e tentariam apagar todas essas características “femininas” por não gostarem de serem mulheres e não saberem se valorizar como mulheres! (emoji decepcionado, indignado e estupefato aqui).

Esse estereótipo de feminilidade – mulheres contidas, doces, delicadas – é excludente e exclusivista, não considera outras maneiras de ser e estar no mundo e estabelece normativamente um modelo a ser seguido. Se em nossa sociedade ocidental, de modo geral, a pressão de modelos do ser mulher já é forte, nos espaços cristãos são acrescidos argumentos bíblicos conforme o famigerado costume da cultura cristã de regular comportamentos.  

Aqui vamos fazer uma pausa, porque tenho usado os mesmos termos para falar de coisas diferentes e talvez as coisas estejam um pouco embaralhadas. Quando digo que sou mansa, mas não acho que todas devam ser, refiro-me ao temperamento, a essa maneira de se portar de que trata a desditosa postagem que critiquei há pouco. Nesse caso não me refiro à qualidade da mansidão que Jesus recomendou no sermão do monte. Imagina-se que não somente cristãs praticantes, mas qualquer pessoa que queira contribuir para com o mundo e a humanidade considere a humildade e a paciência como qualidades a serem cultivadas. Entretanto, essa busca não se contrapõe à possibilidade (e necessidade) de aprender a ser assertiva e firme. As mulheres bravas, como as estou chamando, reúnem essas características em seu temperamento, personalidade ou modo de ser, e por assim se apresentarem não as vejo como menos femininas, simplesmente porque a assertiva de que as mulheres tem de ser doces é uma forma de estereotipação e essencialização do que é ser mulher. Penso que ser mulher é tão múltiplo e plural quanto ser gente.

É claro que as pessoas têm mais afinidade com algumas personalidades do que com outras, como alguma leitora ou leitor poderia argumentar, no entanto… permitam uma provocação de alguém que está tentando aprender a seguir o próprio conselho: é possível aprender a lidar e respeitar personalidades muito diferentes sem deslegitimá-las.  Faz dez anos que deixei minha cidade natal e nesse tempo morei em três cidades distintas e conheci muitas pessoas diferentes. Nos últimos tempos tenho percebido que minhas amigas mais próximas, aquelas que permaneceram sendo minhas amigas, apesar da distância e do tempo, são mulheres bravas. Nem sempre foi suave e fácil conviver com elas e entender a maneira como lidavam com as situações, mas aprendi muito com minhas amigas bravas. Elas me ensinaram que posso dizer coisas duras a alguém porque realmente gosto da pessoa; e que podemos nos desentender fortemente – e vamos – mas isso não precisa se traduzir no rompimento da amizade. E dentre tantos outros aprendizados, compreendi convivendo com minhas amigas bravas que, muitas vezes, quando ficamos doloridas ao receber críticas assertivas isso acontece não porque a pessoa foi grosseira e sim devido ao nosso próprio melindre e falta de humildade.  

Podemos retomar o depoimento de minhas duas amigas que relatei no início desse texto e nos perguntar: por que as mulheres bravas são preteridas? Ainda que este espaço não pretenda encerrar conclusões, creio que nossa reflexão forneceu algumas pistas de possíveis motivações que perpassariam a questão de um estereótipo que tanto essencializa a feminilidade cristalizando-a em um modelo de delicadeza e passividade (os temperamentos mansos), quanto o normatizam como modelo exclusivo do ser mulher. Ainda, a eleição das mulheres mansas como modelo e a rejeição das bravas sugere que essa concepção essencialista é também machista porque proscreve aquelas que se colocam e não se importam em discordar e desagradar. Por último, há ainda o fator da humildade: para conviver com pessoas assertivas é necessário aprender a receber críticas.

As mulheres assertivas não deveriam ter de passar por silenciamento ou descategorização de sua personalidade como um modo de ser mulher. Ao invés de elencar adjetivos ofensivos que questionam a feminilidade da pessoa, tentemos parar por um instante, suspender nosso julgamento e ponderar se esse sentimento de abjeção e desaprovação acaso não seria resultado de um desejo contrariado. E se, para além da opinião contrariada, se a insatisfação residir na maneira como a pessoa disse o que disse, perguntar-se se ela foi agressiva, se ela tinha motivos para isso, se acaso estava se defendendo, ou apenas não usou a voz maviosa que se supõe própria e essencial das mulheres. Não será o fato de ela não ter procurado se desculpar ou agradar as pessoas que incomodou? Ela é mesmo arrogante ou tão somente segura e firme? Por que ela deveria salpicar açúcar de confeiteiro em volta de si enquanto fala? E nesse ponto faço uma brincadeira, porque já usaram essa frase para criticar meu modo de ser. Pois é, as mansas também não agradam a todas as pessoas. Graças a Deus há muitos modos de ser mulher e podemos nos inspirar em nossas amigas bravas para aprender o destemor quanto ao desagradar. A elas toda a minha admiração.

*A bem-aventurança da mansidão não aparece no relato de Lucas, mas apenas no de Mateus.

** Os fariseus compunham um partido ou grupo dentro do judaísmo de estrito zelo e observância da Lei mosaica. Muito rígidos, são frequentemente criticados por Jesus que sabia ser a vaidade e o louvor das pessoas a principal motivação da prática zelosa deles.

 

Referência:

STOTT, John. A mensagem do sermão do monte: contracultura cristã. Trad. Yolanda M. Krievin. São Paulo: ABU Editora, 2008.


Ana Carla de Brito é matogrossense e mestranda em Artes Visuais na UFRGS. Inquieta por dentro e mansa por fora, anda sempre procurando levezas para um dia desenhá-las.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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