A piedade também é brasileira!

Sempre achei importante o lugar de visibilidade que a mulher no exercício da fé ganhou entre os puritanos. Na adolescência, quando me comprometi realmente com Jesus, eles foram minha primeira referência quanto ao conhecimento bíblico, compreensão do Evangelho e conhecimento de Deus. Assim, em pouco tempo, tive contato com estudos direcionados à formação da identidade da mulher em Cristo que me foram muito importantes na caminhada.  

Facilmente encontramos blogs e páginas no Facebook abordando temas a respeito da piedade feminina numa leitura puritana. Apesar da tendência mais conservadora quanto à compreensão da mulher, esses blogs têm conteúdos que reafirmam o compromisso com a teologia reformada, o zelo bíblico, a centralidade e senhorio de Cristo, em reflexões sobre um exercício de fé que preze pela santidade, sem a qual ninguém verá a Deus (Hebreus 12:14). Junto a isso, também discutem autoestima, relacionamentos e família, o papel da mulher, identidade, etc. Conteúdos representativos, relevantes para serem pontuados e discutidos nos nossos espaços de fé.  

No entanto, se observarmos, a maioria desses blogs, nas imagens de destaque dos links e conteúdos, são utilizadas imagens de mulheres como referencial. Claro, é um blog de mulheres e para mulheres. Se observarmos mais cuidadosamente veremos algo em comum entre elas: brancas, magras, europeias, norte americanas, canadenses. Algumas são obras de arte do século XIX de pintores europeus. Outras, fotos mais atuais, ora estilo Anne Hathaway, ora filhas do American Way of Life, ora a cara da realeza do Reino Unido. Todas sorridentes, quietinhas, comportadas.  

E qual o problema disso?

Bom, o referencial de santidade ainda é um lugar branco, intocável, distanciado, com belas mansões, palácios e jardins, nos lindos cenários europeus. Ainda é nosso referencial o American Dream, onde encontramos as boas meninas, nas suas grandes casas destrancadas e sem cercas, em enormes jardins, afastadas da cidade grande. Assim, institucionalizamos a santidade e a limitamos a espaços específicos, inclusive o eclesiástico, sem uma compreensão real de que o véu já se rasgou e o Consolador está em nós. A santidade também pode estar no país de terceiro mundo, na favela, na casa que passa por dificuldades, no frio da rua, na bagunça do metrô, na escola, na Universidade, no Brasil!

Nossa imaginação de piedade feminina se projeta em mulheres brancas, magras, longos cabelos lisos louros ou castanhos, rosto-nariz-lábios finos, com boa educação e bom comportamento: uma princesa. Assim, continuamos a reproduzir um sistema de aparência e identidade que não condiz com a nossa e que reafirma um padrão opressor. A mulher piedosa também pode ser a negra, a japonesa, a indígena, a gorda, a tímida, a séria, a baixinha, a cacheada, a exagerada, a brasileira!

Nossa compreensão de pureza ainda se limita à virgindade como prova de bom comportamento até o casamento, e assim, a sermos “valorizadas”. A partir disso, inferiorizamos aquela que já transou, aquela que teve muitos maridos, aquela que adulterou, aquela mãe solteira e aquela ex-prostituta, quando deveríamos nos concentrar na obra de santificação que o Espírito Santo faz em todas nós. Nos afirmar piedosas não nos faz um tipo superior de gente porque não beijamos tantos caras quanto a fulana, ou uma identidade intocável e distante que nunca alcançaremos, nem a mulher ideal projetada numa representatividade exclusivamente branca.

Nosso referencial de piedade ainda é a aparência humana. As menções à piedade no Novo Testamento se relacionam a devoção a Deus e/ou compaixão ao próximo. Nosso referencial precisa estar em Jesus: se fez homem, se fez pobre, sem beleza ou majestade que nos atraísse, rejeitado pelos homens, e nada havia em sua aparência para que o desejássemos (Isaías 53). Alheio a construções de beleza e status humano, era um homem qualquer andando pela rua, pobre, sem lugar para repousar a cabeça (Mateus 8:20), mas cuja a vida toda se dedicou a fazer a vontade daquele que o enviou (João 6:38) e nos amou entregando sua vida (1 João 3:16). Já pensou nisso? Nosso maior referencial de piedade era um homem pobre! Lembra-se da viúva pobre? Duas pequenas moedas demonstravam piedade que não se via nos ricos (Lucas 21:1-4). Piedade não tem a ver com o que parecemos ser. Mas com quem somos de fato, em Cristo Jesus!

Biblicamente, temos muitos referenciais para examinarmos quem somos de fato. Geralmente, nossos grandes modelos são Ana, Rute, Noemi, Debora, Ester, Maria e até a Mulher Virtuosa, por exemplo. Sim, são mulheres que temeram a Deus, com histórias que moldam nosso coração em sabedoria e conhecimento de Deus. Mas dificilmente nos referenciamos a partir da mulher do fluxo de sangue, da mulher adúltera, da viúva pobre ou da mulher samaritana às quais a fé e a piedade também se demonstraram quando encontraram e acompanharam Jesus.

Graças a Deus a Bíblia é completa e representativa, e nos molda um verdadeiro ser de diversas formas! Por isso quero me enxergar em Ana, Rute, Ester, sim, todas elas! Mas quero me ver principalmente crendo que Jesus é o único que pode me curar, por isso me esforçarei para tocar suas vestes. Ele é o único que pode me garantir perdão, por isso estarei aos seus pés. Ele é tudo o que mais amo e por isso darei tudo o que tenho mesmo sendo pouco. E é o único que conhece a podridão e seca da minha história, por isso beberei da água da vida. É com essas mulheres que me pareço mais. Quantas vezes estive perdida, morta, com a vida em cacos, e o Mestre esteve ao meu lado. Quantas outras de meu país não estão também perdidas, abusadas, ignoradas, subestimadas, abandonadas. Você não precisa pensar muito pra perceber que é com essas mulheres com quem nos parecemos mais.

Não tenho, literalmente, nada a ver com princesas, muito menos com europeias. Minha risada é escandalosa, faço caretas espontâneas, meus cabelos são crespos, sou negra e brasileira, nunca fui magra. Independente disso, uma obra de transformação vem acontecendo em mim que me manterá firme até o fim, para que eu seja encontrada irrepreensível até o dia de Jesus Cristo, nosso Senhor (1 Coríntios 1:8). Vejo o mesmo nas minhas amigas negras, mestiças, japonesas, brancas. Compartilhamos nossas vidas, nossa fé, nossas lutas. Elas tem me abençoado em graça, em exemplo de perseverança, de sabedoria e de amor a Deus. E quando eu vejo a beleza dessa diversidade, com alegria eu sei: a piedade também é brasileira!

Obs.: Thayla, Priscilla e Jessica, especialmente para vocês!


Ana Elisa Crispim cursa Psicologia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, faz parte da ABU Uberaba e arrisca umas poesias de vez em quando.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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