Existe feminismo sem as cristãs?

Durante uma noite de supervisão do estágio, ouvi de uma colega feminista que faz parte do mesmo grupo de trabalho que eu que havia entrado muitos evangélicos na nossa faculdade, de psicologia. Ela falou isso enfatizando o caráter retrógrado desse grupo religioso e contou-me de uma caloura, recém chegada à faculdade, evangélica, que destilava machismo e homofobia em suas opiniões. E, com muito orgulho, minha colega de estágio disse que fizeram uma pressão tão grande contra essa menina por suas ideias que ela saiu da faculdade.

Essa conversa me afetou profundamente, não porque concorde com qualquer discurso opressor, mas porque esta tirou o espaço numa faculdade pública de uma menina de uma classe social pobre. Uma irmã da minha fé. Alguém que ouviu algo contra aquilo que a constituía como pessoa, dentro da faculdade de psicologia e teve que sair. E dificilmente uma menina dessas um dia se tornará feminista.

Outra história acerca desse mesmo tema foi em um grupo de discussões do coletivo feminista de minha universidade quando teve o estouro de uma matéria acerca de feministas cristãs onde, sem nenhum medo, a grande maioria do grupo, sequer religiosa, sentiu-se no direito de elaborar se era possível ou não uma mulher ser feminista e cristã. No meio, havia algumas poucas, resistindo em sua fé, procurando linhas de fuga num espaço em que é – em teoria – acolhedor para as demandas femininas.

Estou concluindo com isso que há cristofobia? Que evangélicos são perseguidos no Brasil? Que a fé cristã funciona em total acordo com o feminismo? Não. Nada disso. De modo algum. Afinal, trata-se de um caso diferente da intolerância religiosa, que depreda o espaço de culto, violenta e mata pessoas por causa de uma fé, que enquadra na Lei 11.635/07. Quem conhece um espaço onde há Igreja Perseguida consegue perceber a diferença, onde o culto é restrito, silenciado e não apenas tratado com desgosto, mas sim caçado.

Eu quero me adentrar por outro trajeto que talvez seja tão naturalizado que sequer percebemos.

Lembrando um pouco da aula de História, com o fim da idade média, o ser humano começa a construir o espaço de autonomia das instituições religiosas e, com a consolidação do conhecimento científico, como aquele que pode desbravar o mundo por conta própria. Isso, a princípio não era uma experiência de negação da fé – pois o conhecimento cientifico, quando criado, foi desenvolvido por religiosos – mas como necessidade de novos critérios de análise dos fenômenos, a principio, da natureza. Não havia, dentro da religiosidade na época, espaço para se produzir outro critério de estudo que possibilitou o desenvolvimento de áreas como física e a medicina. Muitas das áreas de conhecimento que nós estudamos enquanto universitárias vieram desse rompimento metodológico com a igreja a fim de se produzir algo novo, laico.  Aos poucos, o que era algo somente de algumas áreas de conhecimento, se expandiu para a política, na produção de um Estado laico, a qual os próprios protestantes foram entusiastas por facilitar a conversão dos príncipes a nova religião. Este Estado laico, sendo a consolidação da modernidade, veio para proteger as diversas expressões religiosas. Todavia, no caso brasileiro, esta consolidação tem sido muito conturbada pela constante religiosa na política. E, devido a uma grande dificuldade histórica no nosso país de separar o público/privado e, no caso, a religião e o Estado, nos é muito caro lutar pela laicidade dos espaços públicos e, no caso, os conhecimentos universitários.

Você pode defender que o feminismo não é um conhecimento universitário, mas, vendo de fato de onde vem as lutas, existe sim uma preponderância nesse meio que é elitizado e não-religioso. Há mais coletivos feministas em universidades do que em favelas. E, mesmo com um feminismo em expansão de divulgação, vemos ainda um receio muito grande de aproximar-se do que é, de fato, popular.

Seria, porém, exagero falar que esse é o único motivo pelo qual o feminismo tem receio com as religiosas é seu academicismo. Mais do que isso, tem um histórico muito forte ao lado do socialismo e estes foram se influenciando mutualmente, principalmente no caráter mais comum na segunda vaga do feminismo, a qual entendia a mulher como classe. Sendo este revolucionário, é filho também da modernidade e da visão da religião como retrocesso. Apesar de Engels ter estudado igreja primitiva ao pensar o socialismo, Marx faz uma crítica pesada a religiosidade que entorpece, que desfoca da luta e que faz as pessoas ficarem estagnadas. Crítica legítima? Completamente legítima, porém ela abarcou um sentimento anti-religioso muito forte que caminhou ao lado do ateísmo que crescia na época.

Uma feminista revolucionária tem em mente que a religião é uma barreira de luta. Barreira porque cria crenças nas mulheres que as estagnam, que de fato é ópio. E, isso tudo é coroado com o fato de que a religião cristã tem um histórico androcêntrico. Por mais que falemos de lugares de resistência de mulheres, de papéis importantíssimos, ainda somos silenciadas, diminuídas.

Porém, não vou me adentrar num debate teórico sobre se é possível conciliar a fé e o feminismo porque não acredito que há “a fé” e “o feminismo” como entidades separadas das vivências das pessoas. E se há mulheres cristãs que se consideram feministas, não há debate teórico que as impeça de existir e de se expressar como tal. Esse não é meu foco.

Meu foco é outro. E aqui eu me lembro da primeira história que citei. Afinal, o que o feminismo quer? Ora, cada um do seu jeito, a libertação da mulher. E qual mulher eles querem libertar? Todas, porque todas sofrem alguma opressão, não é? Então, vamos analisar quem são as mulheres brasileiras.

Um pouco mais de 97 milhões de mulheres responderam ao IBGE de 2010 e vou usar os dados que eles mapearam – apesar de ser um dado imperfeito, cheio de questões. Dessas 97 milhões, um pouquinho mais de 6 milhões são sem religião, dentre estes 200 mil são absolutamente ateias. Os outros 5 milhões e 800 mil, mesmo não se afirmando religiosas, não negam a possibilidade de uma crença. Se fossemos assim pensar em de um feminismo sem religião, nem chegando a considerar um feminismo ateu, este não chega a 10% da população feminina do país. Então, percebemos que um feminismo assim não representa a mulher brasileira.

“Ah, então vamos fazer um feminismo que inclui espiritualidades que para mim não são opressivas. Desse modo, não aceito o cristianismo como uma religião possível para as feministas.”

Eu poderia até entrar na questão de que não existem religiões sem opressão, mas vou deixar passar essa porque merece outro texto. Ok, então. Só que existem 85 milhões de mulheres cristãs no Brasil (62 milhões católicas e 23 milhões evangélicas). Você estará lutando com a demanda de 12% da população nacional. Com uma representatividade assim, caso você seja reformista, você não elege ninguém. E, caso você seja revolucionária, não faz revolução alguma!

Esses 12% importam? Importam. Importam muito! Importam porque ninguém se lembra deles e precisam da luta feminista ao lado destas demandas. Minorias vivem e tem direito de viver. Contudo, a luta feminista é para além das minorias, é uma mudança de sociedade.

Cito aqui muito rapidamente porque não tenho lugar de fala sobre a negra no nosso país. Um pouco mais de 300 mil pessoas no nosso país são vinculadas a religiões de matriz africanas – que, aliás tem sido apropriada por muitos brancos deixando de ser um espaço de resistência negra unicamente. Logo dá para perceber que a religião majoritária das negras no Brasil não são mais a de matriz africana. Ora, você pode discordar, dizer que precisa buscar a ancestralidade, mas hoje, agora, elas não estão. A religião mais negra do Brasil é a evangélica e, mais especificamente, pentecostais.

Posso citar muitos outros exemplos para entender que escolher a fé de com quem quer lutar é escolher, também, a classe com quem quer lutar. A grande maioria das mulheres pobres não é espírita, nem budista, nem vai para Índia meditar e às vezes pensa em Deus. Não. A grande maioria das mulheres pobres são católicas e evangélicas.

Então, a que mulheres estamos libertando? Essa pergunta que é tão difundida quando pensamos o transfeminismo e até mesmo o feminismo negro. Às vezes deixamos passar esse recorte porque ele toca numa ferida, em algo que é oposição ao feminismo. Afinal, é mais fácil expulsar a mulher religiosa. E, mais do que isso, é mais fácil tentar forçar a barra da mulher para perder sua fé do que aceitá-la como é. Contraditório, não?

Se você está lendo o texto e não é religiosa, pense: será que eu sei mais da fé dos outras que elas próprias para questionar o que elas acreditam? Será que eu sou me acho tão esclarecida a ponto de achar que 90% da população está errada em sua fé e eu estou certa? Será que meu feminismo é tão arrogante que não deseja, de fato, que todas possam participar e serem livres?

E se você é religiosa, gosta do feminismo, mas se sente angustiada com o que dizem sobre sua fé: a sua fé é uma questão sua com Deus! É seu direito e ninguém pode te negar. Muitas de nós temos visto que é possível se reconfigurar na fé e lutar, como eu.

Chega junto, irmã. Nós nos chamamos irmãs muito antes das feministas chegarem.

 

Referências:

IBGE. CENSO 2010. Disponível em: <http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?view=noticia&id=3&idnoticia=2170&busca=1&t=censo-2010-numero-catolicos-cai-aumenta-evangelicos-espiritas-sem-religiao&gt;. Acesso em: 02 abr. 2014.

IBGE. Estatísticas do CENSO 2010. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_religiao_deficiencia/caracteristicas_religiao_deficiencia_tab_pdf.shtm&gt;. Acesso em: 02 abr. 2014


Rebecca Maciel é carioca, psicologa, teóloga e escreve no blog Teologicamente Instável.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

 

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