Abuso sexual infantil: e isso é tema para a igreja?

 

O abuso sexual infantil é um fato social, a violência contra crianças e adolescentes é recorrente no Brasil. Em 2012 o Ministério da Saúde constatou pelo sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva), que o abuso sexual foi a segunda maior violência sofrida por crianças até 14 anos. Isso não representa exceções, a violência sexual contra crianças e adolescentes precisa ser discutida e investigada no nosso país, na nossa casa e na nossa igreja.

Quando se fala de abuso sexual dentro da igreja é bem comum pensar nos escândalos envolvendo a Igreja Católica Romana. Os casos envolvendo sacerdotes católicos acontecem em todo o mundo e entre os anos de 2011 e 2012 o número de participantes descobertos e ex-comungados da igreja chegou a 384. Entretanto, o que pensamos sobre o tema na igreja protestante? Abuso sexual infantil é tema para igreja? As crianças brasileiras estão sujeitas a tal mal dentro da igreja evangélica do país? Dentro da minha igreja? Para o sim ou para o não, o que temos a ver com isso?

Antes de pensarmos nas respostas é preciso considerar que o tema poucas vezes é discutido e entendido de maneira coerente. Parece até perseguição, mas se tem “sexual” na questão, então é tabu, não se fala, não se discute e muitos são os que saem prejudicados nesse meio. Então, apresentemos um conceito inicial: O que é abuso sexual infantil?

O que é o abuso sexual infantil?

O abuso sexual infantil é quando uma pessoa em estágio de desenvolvimento psicossexual mais avançado utiliza-se de uma pessoa em um estágio de desenvolvimento menos adiantado para gratificação sexual. Em outras palavras, uma pessoa pelo uso do poder utiliza-se de uma criança ou adolescente para se satisfazer sexualmente – fisicamente ou não. Nisso se inclui todo ato, exploração, jogo hétero ou homossexual, com toque físico (beijos, carícias, penetrações) ou sem qualquer tipo de contato físico (assédio, cantadas obscenas, participação em fotos pornográficas, entre outros).

Ao que ele está relacionado?

O abuso sexual infantil não é limitado a um único fator determinante para seu acontecimento. Ele não se restringe à determinada condição de classe, gênero, idade, religião, nível intelectual, raça/etnia ou até mesmo posição socioeconômica. Nisso se encontram muitos suspeitos e infelizmente muitas vítimas.

Por quem é praticado?

O abuso é considerado como tal, pois a criança e o adolescente não possuem maturidade psicológica ou biológica para consentir com uma atividade sexual. Assim, o abusador é qualquer pessoa em estágio de desenvolvimento mais avançado que violenta sua sexualidade. Nisso se inclui grupos poucas vezes considerados suspeitos, como crianças mais velhas e mulheres – o abusador não é apenas homem. Ainda a partir dos dados do Viva, a maior parte das agressões contra crianças ocorreram na residência das mesmas (64,5%, sendo que neste dado são incluídos todo tipo de violência, não apenas abuso sexual). O abusador (ou abusadora) não tem características visíveis marcantes que o caracterize, muitas vezes são parentes, educadores, vizinhos ou outras pessoas próximas da criança.

Depois desses dados instrutivos sobre o abuso sexual é preciso responder: O que fazer? Se você conhece crianças que vivem situações como as acima citadas, denuncie ao conselho tutelar de sua cidade, ele é o órgão de proteção à criança e adolescente e irá investigar a situação para o melhor; diferente do que muitos pensam os casos não possuem uma única saída e o objetivo não é abrigar a criança em casas de proteção sem considerar alternativas, Pelo contrário, abrigar tende a ser a última opção a fim de acabar ou diminuir o sofrimento da criança.

Na situação de abuso sexual esse menor está sofrendo mais do que ele pode expressar em palavras, o abuso deixa marcas que não são apenas físicas, mas também emocionais e sociais. Psicologicamente a criança vive conflitos que podem não aparecer em curto prazo como também podem ser expressos no comportamento, como agressividade, problemas alimentares, dificuldades no sono, entre outros. Esses podem ser sinais de um sofrimento (não apenas no caso de um abuso sexual) que precisa de atenção e a criança ou adolescente não sabem expressar.

A denúncia também é importante em casos de suspeita de que o abuso possa ter acontecido ou estar acontecendo, pois como dito, ela leva a investigação pelo órgão de proteção de maneira cuidadosa e que resguarda os envolvidos, diferente do que acontece com a divulgação de fotos e vídeos de suspeitos ou vítimas em redes sociais que ao invés de ajudar pode dificultar o trabalho do órgão, levar a linchamento de inocentes e até intensificar o sofrimento da vítima e sua família.

A criança demonstra de maneiras diferentes dos adultos, mas nada impede que ela saiba relatar verbalmente uma situação. Assim, dê credibilidade a sua fala, escute-a com amor em um ambiente seguro e encaminhe a assistência profissional como psicólogos(as), que irão acolhe-la e proporcionar um espaço de cuidado dos sofrimentos, isso pode ser feito através do próprio conselho tutelar.

O que fazer como igreja?

Por mais que eu não tenha dados sobre a quantidade de abuso sexual de crianças e adolescentes na igreja protestante no Brasil é indiscutível que isso aconteça e não podemos nos calar quanto a isso. Um passo indispensável é orar, essa é uma atitude que na verdade dever ser feita em todos os passos acima como abaixo, para casos na igreja ou não. Ore pelas crianças e adolescentes que sofrem/sofreram com isso, por suas famílias, pelos abusadores e para que a igreja saiba lidar com os lados envolvidos. O abuso é pecado, não é preciso argumentos, entretanto não podemos fazer uma escala de pecados e julgar o abusador e seu arrependimento como hipócritas sem pecado; da mesma forma o abuso é crime e a denúncia deve ser feita. Como cristãos, é preciso entender que a igreja é um lugar para doentes, e um lugar de cura, para pessoas que precisam da restauração que só Cristo oferece; em situações como essas a igreja deve proporcionar acolhimento aos envolvidos sem desconsiderar profissionais e órgãos públicos especializados para tal que podem ser referenciados.

Uma breve palavra pra quem se identifica em alguma situação como abusador(a), que possa ter violentado um menor, mesmo que não fisicamente, ou sente desejo em fazer isso: primeiramente afaste-se das crianças e adolescentes. Desvie de chances que possa continuar ou realizar algum mal entendendo as consequências para os dois lados e não dê oportunidade para o pecado. Busque ajuda profissional, procurar um(a) psicólogo(a) não significa que você tem um transtorno mental, ele pode existir, entretanto significa que você é uma pessoa que vive, se relaciona e está sujeito a sofrimentos em que precisa ser acolhido dentro do seu modo próprio ser, como qualquer pessoa pode precisar. Reconheça seu pecado, Deus é o único que pode te deixar branco como a neve (Isaias 1:18) através de Jesus. Procure o líder da sua igreja, seja sincero em buscar ajuda espiritual de pessoas de sua confiança a fim de se afastar de desejos e buscar perdão de quem sofreu o abuso. Cristo é capaz de restaurar todas as áreas corruptas e machucadas em você, para isso é preciso entrega, paciência e responsabilidade pelos seus atos.

De maneira conclusiva olhemos para Jesus, se isso é tema para igreja ele pode dizer. Em uma situação com os discípulos ele disse: ‘deixai as crianças virem a mim, porque de tais é o reino dos céus’ (Mateus 19:14). Se somos a comunidade do Reino precisamos deixar que as crianças venham, brinquem, se relacionem, se expressem, se desenvolvam de maneira adequada e ao seu tempo para que aprendam valores do Reino que é delas. A igreja deve ser o lugar que a defende afim de que senta o amor de Deus através dos adultos, pais, professores, lideres e todos que se relacionam com elas; tendo a igreja como um espaço seguro para compartilhar sofrimentos e alegrias, independente de sua idade e mesmo sem o uso de palavras.

Parece que o objetivo do texto mudou agora no final, é isso? Não, pois é preciso ficar claro que lutar contra o abuso sexual infantil é defender direitos e isso é missão da igreja. A partir de um entendimento claro do problema o nosso trabalho é levar Cristo como restaurador da sociedade, das crianças e dos abusadores. É pensar no futuro do país, das nossas casas e da igreja de Cristo. É reconhecer e acolher as singularidades dos pequenos grandes membros do Reino de Deus.

Referências:

Cartilha Aprendendo a Prevenir. Promotoria de justiça de defesa da infância e da juventude. (Ótimo instrumento para trabalho do tema em igrejas, escolas e outros, com mais informações sobre abuso sexual infantil);
-Gospel mais. Acessado em 10 de janeiro de 2016 em http://noticias.gospelmais.com.br/igreja-catolica-excomungou-384-sacerdotes-abuso-sexual-criancas-64321.html


 

Thayla Marques da Silva é abuense, estudante de psicologia na UFTM (quase se formando!), estagiou no conselho tutelar de Uberaba em 2015 e tem preferência por doces… bem, de todos os tipos.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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