Mulheres e a Bíblia: Não é somente sobre recuperar a história das mulheres no cristianismo, mas recuperar o cristianismo primitivo em seu conjunto

Quando se olha para a história cristã, enormes são as críticas que direcionam o cristianismo como legitimador ideológico, e favorável à opressão que a mulher sofre em sua realidade. Nota-se que tais argumentos podem se fundamentar quando suas bases são tomadas a partir das escrituras, isolando ou descontextualizado os textos, ou por vez quando se baseiam em leis culturais ou em conceitos do androcentrismo.

Contudo, o problema radical é perceber que até mesmos os textos do Novo Testamento, em boa medida, já são produtos de uma mentalidade e de uma escrita intimamente ligada à noção de patriarcado.  O que não só dificulta a compreensão escrita, como coloca a história das mulheres ligadas ao cristianismo, sendo apenas ponta de um iceberg.  

O mesmo pode-se confirmar com o processo canônico bíblico do Novo Testamento, que segundo historiadores (como Elisabeth Schüssler), foi formado em meio a um processo histórico e paralelo à crescente exclusão de mulheres dos ministérios eclesiásticos.

É curioso notar também as relações entre os sexos na antiguidade no meio eclesiástico. Definiram-se os homens por sua própria função (discípulo, apóstolo, mártir…); Enquanto as mulheres, são definidas com frequência, por sua relação ao sexo e ao homem (virgem, viúva); quer dizer, que define a relação da mulher com Deus, por meio da sua relação sexual com o homem, e/ou através das estruturas patriarcais da família e da igreja.

Dentre as relações entre sexos, nos deparamos com a possibilidade de uma forma primaria para significar as relações de poder: o gênero. No ambiente teológico isso também pode ser considerado.

Brunelli em Teologia e Gênero, deixa claro que a análise de gênero questiona a própria estrutura do pensamento teológico e provoca uma mudança significativa nessa estrutura. Gênero, portanto, seria uma mediação epistemológica, e não apenas hermenêutica. Assim, torna-se possível perceber que a teologia é masculina não só porque foi sempre produzida por homens, mas porque se desenvolveu numa cultura na qual o masculino era o normativo, e porque se serviu de um conhecimento filosófico produzido dessa forma. Por isso o discurso teológico ‘universal’ é androcêntrico. Muitas afirmações apresentadas como sendo do ‘humano’, na realidade, referem-se à experiência e à percepção masculina.

A essas percepções diversos questionamentos podem ser levantar para as práticas estruturais vigentes no Cristianismo, tais como: a ocultação das mulheres na construção do discurso teológico; a hierarquização social de sexos; a apropriação masculina do sagrado; o controle das práticas, dos discursos, das crenças e das representações simbólicas por parte de um único sujeito – o masculino.

Nesse sentido Bultmann, recomenda a desconstrução de discursos construídos na visão androcêntrica. Por vez, também, uma interpretação despatriarcalizadora e que recupere a genuína mensagem bíblica muito além dos condicionamentos do patriarcado.

Por exemplo, ao analisarmos o período de escrita dos evangelhos, sabemos que em seu contexto o processo de patriarcalização estava em marcha. Porém, nada se atribui a Jesus que se resulte prejudicial à mulher. A igreja não é capaz dese basear em Jesus para justificar o comportamento patriarcal.

Paralelamente, o próprio anúncio do reino de Deus é um rompimento as estruturas hegemônicas, de poder, de domínio e o convite a igualdade. Podemos demonstrar isso nos versículos de Marcos 10:42–44 “Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles; Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.”. E em Gálatas 3:28: “Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Reparamos também, que as mulheres aparecem em diversos momentos seguindo a Jesus (Marcos 5:25-34; Lucas 11:27), o que para época era um comportamento escandaloso. Conseguimos observar que Jesus traz a mulher a uma consideração social, estando não somente presentes acompanhando seu ministério, como recebendo tarefas importantes.

Esta consideração também é fortemente marcada quando olhamos para cristianismo mais primitivo (1 Coríntios 15:1–4): a morte, a ressurreição e a aparição de Cristo. É um grupo de mulheres que estão diante da cruz (e que segundo Marcos 15:41 relata, estas mulheres seguiam e serviam a cristo desde a Galileia). São as mulheres que descobrem primeiro a tumba vazia e anunciam a ressurreição de Cristo (Marcos 16:1-8). É a uma mulher que Jesus aparece ressuscitado (Mc 16:9).

Mas, porque Paulo (1 Coríntios 15:5) menciona Pedro (Cefas), como o primeiro a ter visto Cristo após sua ressurreição? É perceptível que Paulo não relata a lista completa, e da importância apenas ao testemunho de Pedro. No primeiro século, apenas era considerado legal o testemunho de homens. De modo a compreendermos Lucas 24:11, onde após as mulheres relatarem a Ressurreição, os discípulos descreram em suas palavras (Em sequência, o texto mostra que apenas Pedro se levanta e vai em direção ao tumulo para verificar a informação dada por elas).

Muito se caminha também para as descrições da mulher na teologia paulina, a aparição de mulheres ativas na vida eclesiástica: Priscila, juntamente com seu Marido Áquila (Romanos 16:3). Ninfa, com a igreja formada em sua casa (Colossenses 4:15). Lidia, primeira convertida em Filipos que também exercia uma igreja doméstica (Atos 16:14). Maria (Romanos 6:6), Trifena, Trifosa e Perside (Romanos 6:12) que recebem atribuição ao seu trabalho no original à kopiao (que é o mesmo que trabalho apostólico)… Entre outras tantas situações que podemos descrever a mulher, e o cristianismo na Bíblia.

A trajetória de articulação em torno de uma nova possibilidade de análise as escrituras é um convite para além da percepção da mulher nos relatos históricos, ou para transformar as estruturas e as relações que demarcam o campo teológico. É um convite a recuperar o cristianismo em seu primórdio, em sua simplicidade, rudimentaridade e crueza.

 

Nota: O uso de patriarcado é utilizado aqui enquanto um sistema de dominação dos homens sobre as mulheres que permite visualizar que a dominação não está presente somente na esfera familiar, tampouco apenas no âmbito trabalhista, ou na mídia ou na política. O patriarcalismo compõe a dinâmica social como um todo, estando inclusive, inculcado no inconsciente de homens e mulheres individualmente e no coletivo enquanto categorias sociais.

Referências:

-FURLIN, N.. Teologia feminista: uma voz que emerge nas margens do discurso teológico hegemônico.
– LA MUJER EN EL CRISTIANISMO PRIMITIVO
-SCHOTTROFF, L.; SCHROER, S. e WACKER, M.. Exegese Feminista – Resultados de pesquisas bíblicas a partir das perspectivas das mulheres

  1. BRUNELLI, Teologia e Gênero

Ellen Aquino é paranaense de nascimento, paulista de coração, catarinense por acaso e espanhola por estudos. Tem cinema como paixão e faz designer nas horas vagas. Curiosa desde sempre e um tanto quanto nômade, uma mocinha que começou seminário aos 15 anos e largou para quase jubilar TIC.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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