Unicórnios e manchas na parede: maneiras de ver a realidade

Rinocerontes, unicórnios, uma avó encantada com sua neta e Marco Polo. Além desses personagens inesperados, uma vivência de sete anos no Uruguai com meu marido e duas filhas, tudo isso conforma um caldo que, creio eu, tem me ajudado a crescer e a amadurecer em minhas perspectivas da realidade, em como eu entendo e me comunico com o outro, em especial com aquele que percebo como sendo bem diferente de mim mesma. Permito-me a liberdade de trazer a essa conversa com vocês um autor que me ajuda nesse caminho, Umberto Eco. Entendo que seu lado mais conhecido é o de romancista, mas são suas habilidades como linguista e tradutor que mais me chamam a atenção. Te convido a ler algo que ele nos conta.

“Nós viajamos com noções pré-concebidas do mundo, derivadas de nossa tradição cultural. Num sentido muito curioso, nós viajamos sabendo de antemão o que estamos a ponto de descobrir, porque leituras prévias nos contaram o que deveríamos descobrir. Em outras palavras, a influência desses ‘background books’ – noções preconcebidas  do mundo derivadas de sua tradição cultural – é tal que, independente do que os viajantes descubram e vejam, eles vão interpretar e explicar tudo de acordo com esses ‘livros de referência’.”1

Daí Eco segue relatando que a tradição medieval convenceu aos europeus que os unicórnios existiam. Também que eles podiam ser encontrados em países considerados exóticos. Então, quando Marco Polo viajou para a China ele também procurava por unicórnios.

“Em seu caminho de volta para casa, em Java, ele [Marco Polo] viu alguns animais que se assemelhavam a unicórnios, já que tinham um único chifre em seus focinhos. E porque toda uma tradição o tinha preparado para ver unicórnios, ele identificou esses animais como unicórnios. Mas como ele era ingênuo e honesto, ele não podia deixar de dizer a verdade. E a verdade é que os unicórnios que ele viu eram muito diferentes daqueles representados por uma tradição milenar.(…) Na verdade, o que Marco Polo viu foram rinocerontes. Não se pode dizer que ele mentiu (…) pois na impossibilidade de falar do desconhecido, ele só podia se referir ao que já conhecia ou esperava encontrar. Ele foi uma vítima de suas noções preconcebidas do mundo derivadas de sua tradição cultural [‘background books’].”2

Queria contar outra breve história. A casa da minha avó estava em obras, o que a deixava irritada com toda a sujeira e a bagunça. Um dia ela viu uma marca de sujeira na parede e começou a reclamar: “Esses pedreiros sujam tudo! Assim não é possível!” Minha mãe então lhe respondeu: “Mas não foram os pedreiros, essa é a mãozinha da Bia.” Bia era sua netinha, à época com uns 3 anos. A reação imediata da minha avó ao ouvir sobre a autoria da arte foi: “Que gracinha!” A mesma marca na parede, mas diferentes perspectivas e reações à mesma realidade.

Compartilho essas duas histórias porque elas de alguma maneira têm me ajudado a reconhecer que trago comigo noções preconcebidas do mundo, e que elas influenciam a maneira como vejo os fatos, como interajo com outros e com o que acontece ao meu redor.

Recordo haver lido esse texto do Umberto Eco quando ainda vivia com minha família em Montevidéu. Uma época de experimentar em minha própria pele o desafio de entender que diferentes culturas possuem diferentes linguagens e visões de mundo. Também de perceber que muitas vezes falamos a mesma coisa, ainda que nos expressemos de maneiras bem diferentes.

Para mim o processo interessante se dá em perceber como essas perspectivas diferentes sobre o mundo têm me ajudado na difícil tarefa de realmente escutar e tentar compreender o outro. Escutar de verdade, como o outro de fato é e o que ele ou ela realmente dizem. Claro, um processo de também perceber e rever noções preconcebidas tão arraigadas em mim.

Um detalhe não menos importante: os fatos não mudam! Rinocerontes vão sempre ser rinocerontes e a mancha na parede continua ali, independente de quem tenha sido o autor ou autora. Mas a maneira como eu leio a realidade e como me relaciono com os demais, essa sim muda, ou pelo menos deveria mudar. Ser consciente de quem eu sou, de onde vim, e como leio a realidade deveriam me fazer mais sensível, mais honesta e mais respeitosa com as perspectivas dos outros. Posso viajar até a China, ou Uruguai, ou para um encontro genuíno com o outro em suas diferenças, sem a necessidade de trazer meus unicórnios para esse encontro. Ouvir com sensibilidade, cuidado e respeito será suficiente. 

  1. Umberto Eco, From Marcopolo to Leibniz. Stories of Intellectual Misunderstandings. In: Serendipities. Language and Lunacy. Houghton Mifflin Harcourt, 1999, p.71.
  2. Idem, p. 72.

 


Ruth Borges adora ler e viajar. É professora, casada e mãe de duas adolescentes.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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