Homem, casa comigo?

Esse é um estudo bíblico ~imaginativo~, adjetivo assim porque talvez alguns irmãos “teólogos demais”* se irritem com minhas decisões hermenêuticas, (sim, do que eu aprendi onde estudei, interpretação sempre parte de decisão, ou decisões, mas depende de quem se é pra que sua interpretação seja aceita ou não), é certo também que contexto é fundamental em interpretação. Apesar da aceitação ou não, minha preocupação é compartilhar duas leituras bíblicas que fiz e a imaginação de juntar as duas histórias com amigas/companheiras que passem por situações parecidas com as dessas histórias.

Vou começar pela última:

Fica no Evangelho de Lucas (o provável único evangelista canônico não-judeu), capítulo 7 versos 36-50 (a tradução que uso é a da Bíblia Judaica Completa -BJC-, os nomes que aparecem em hebraico coloquei em português, de acordo com o glossário da própria edição da BJC), coloco o texto aqui para você não precisar ir lá buscar, mas se já conhecer a história, fique à vontade pra seguir no texto:

“Um dos fariseus convidou Jesus para comer com ele; ele foi à casa do fariseu, e tomou seu lugar à mesa. Uma mulher que vivia naquela cidade, uma pecadora, sabendo que Jesus estava comendo na casa do fariseu levou um perfume muito caro em um frasco de alabastro, pôs-se atrás dele, junto a seus pés, e chorou, até suas lágrimas começarem a lhe molhar os pés. Então ela os enxugou com o próprio cabelo, beijou-os e derramou o perfume sobre ele.

Quando o fariseu que convidou Jesus percebeu o que estava acontecendo, disse a si mesmo: ‘Se este homem fosse realmente um profeta, saberia quem está tocando nele, e que tipo de mulher ela é – uma pecadora”. Jesus respondeu: ‘Simão, tenho algo a lhe dizer”. ‘Diga, mestre’, ele respondeu. ‘Certo credor tinha negócios com dois devedores; um lhe devia dez vezes mais que o outro. Os dois devedores eram incapazes de pagar a dívida; então o credor resolveu cancelá-la. Por isso, qual deles o amará mais?’. Simão respondeu: ‘O que tinha o débito maior.’ Jesus lhe disse: ‘Sua análise está correta’.

Em seguida, virando-se para a mulher, disse a Simão: ‘Vê essa mulher? Entrei em sua casa, e você não me deu água para os pés; mas esta mulher lavou meus pés com suas lágrimas e os enxugou com seu cabelo! Você não me beijou; mas desde que cheguei, esta mulher não parou de beijar meus pés! Você não derramou óleo sobre minha cabeça, mas esta mulher derramou perfume nos meus pés! Por isso, eu lhe digo que os pecados dela – e são muitos! – lhe foram perdoados; pois ela muito amou. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, ama só um pouco’. Então Jesus disse a ela: ‘Seus pecados foram perdoados’. Nesse momento, os outros que comiam com eles começaram a dizer entre si: ‘Quem é este que ousa perdoar pecados?’. Jesus disse à mulher: ‘Sua confiança a salvou; vá em paz’.”

A segunda história, também da Bíblia, é mais velhinha:

Fica no livro de Rute (uma história maravilhosa de uma não-judia, que a gente devia reler e fazer novas interpretações, né? Alguém aqui no Redomas falando de sororidade citou Rute e Noemi, lê de novo, vai!), capítulo 3, versos 1-15 (de novo, se já conhece, pula).

“Noemi, sua sogra, lhe disse: ‘Minha filha, devo procurar segurança para você; assim, as coisas correrão bem para você. Boaz, nosso parente – você esteve com suas jovens – limpará a cevada na eira, esta noite. Por isso, banhe-se, unja-se, vista boas roupas e desça à eira; mas não revele sua presença ao homem até que ele tenha terminado de comer e beber. Quando ele se deitar, repare onde ele se encontra; mais tarde, entre, descubra-lhe os pés e deite. Ele dirá a você o que fazer’. Ela respondeu: ‘Farei tudo o que me diz’.

Ela desceu à eira e fez tudo o que sua sogra lhe tinha dito para fazer. Depois de Boaz ter comido e bebido, sentiu-se bem e foi deitar-se junto ao monte de grãos. Ela se aproximou de forma sorrateira, descobriu-lhe os pés e deitou-se. No meio da noite, o homem acordou repentinamente e se virou, e ali estava uma mulher deitada aos seus pés! Ele perguntou: ‘Quem é você?’. E ela respondeu: ‘Sou Rute, sua criada. Estenda seu manto sobre sua criada, pois o senhor é um parente resgatador.’ Ele disse ‘Que Adonai a abençoe, minha filha. Sua última gentileza é maior que a primeira, pois você não foi atrás de rapazes, nem dos ricos, tampouco dos pobres. E agora, minha filha, não tema. Eu farei para você tudo o que disser, pois todos os líderes da cidade dentre meu povo sabem que você é uma mulher de bom caráter. Agora é verdade que sou um parente resgatador; no entanto, existe um resgatador mais próximo que eu. Fique esta noite. Se, de manhã, ele a redimir, ótimo! Que ele a redima. No entanto, se ele não desejar redimir você, então, como Adonai vive, eu a redimirei. Agora repouse até amanhã’.”

Bom, como o título disse, vamos falar de casamento. São textos em que é possível discutir muitas coisas, mas vamos falar das mulheres – e casamento – nessas duas histórias.

Rute pediu Boaz em casamento por uma questão de sobrevivência, enquanto os homens da cidade pensavam em herdeiros e herança, como previa a lei em Deuteronômio 25, Rute e Noemi precisavam de terra e comida, já que situação social de viúva não era nada boa naqueles tempos.

O que imaginei foi: assim como Rute pediu Boaz em casamento, a mulher de Cafarnaum que estava na casa de Simão fariseu, pediu Jesus em casamento (tá, não me mata se você não concorda, só segue imaginando comigo, vai?!). E pediu Jesus em casamento também por uma questão de sobrevivência, no caso, libertação de uma fama de pecadora (um casamento a colocaria numa posição de esposa, retirando de si os ataques por ser “pecadora”).

É claro, que alguns traços das circunstâncias gerais nos textos são diferentes, fato. Por isso é um estudo imaginativo, talvez como algumas músicas do Stênio Marcius, que parecem recriar contextos. Mas a performance é a mesma, o ato de se lançar aos pés, como um pedido de ajuda, de redenção, de salvação, é o mesmo, tanto é que as palavras de Jesus em resposta ao ato da mulher são quase todas sobre salvação, (considerando que Ele entendia salvação como perdão, com referência a Lucas 1.77).

Mas é interessante a mudança entre as duas histórias! Veja que no caso de Rute o casamento realmente salvou ela e Noemi da fome e de ficar sem teto. Mas agora no tempo da Nova Aliança (já que a antiga está a caminho do desaparecimento, de acordo com Hebreus 8. 13) a história pode e deve ser outra!

E esta outra possibilidade de história é demonstrada pela resposta de Jesus a este ~possível~ pedido de casamento da mulher, as únicas palavras de Jesus direcionadas a ela foram: “Seus pecados foram perdoados. Sua confiança a salvou; vá em paz.”, se este contexto for possível, poderíamos traduzir a resposta de Jesus assim: “Mulher, o que salva não é o casamento, mas o perdão, que é uma coisa que todo mundo precisa, até os homens. Então vai viver sua vida em paz, que você já foi perdoada!” (tá, a parte dos homens aí foi mais na resposta pro Simão do que na da mulher).

Daí pra concluir, entre nós, mulheres, que ainda vivemos em sociedade que coloca o casamento como redentor das mulheres, a gente precisa se libertar disso, não do casamento em si (acho que ele serve para outras coisas), mas da ideia de que casamento redime mulheres. Nós como cristãs e cristãos, ainda mais como evangélicas e evangélicos, precisamos não ter dúvidas que a redenção/salvação/libertação está no perdão dos pecados (no perdão! não na rememoração constante e culpa) e na novidade de vida que o perdão gera (inclusive numa nova vida social que seria expressa em amar mais quanto mais perdoado se é. O que geraria uma não opressão às mulheres, a ninguém), e que esse perdão é dado por Este Jesus de Nazaré.

Enfim, foi isso que imaginei, quem quiser imaginar mais comigo, falaê, inclusive imaginar outros títulos pra este texto ;).

Que sejamos cada dia mais mulheres libertas, livres, libertadoras através do perdão desse pobre Deus que veio de Nazaré!

 

*Com referência a um poema que escrevi em algum momento da vida quando estudava Lucas:

Evangelho de Lucas 5.27-39 ou A Religiosa

É difícil entender,
Mas é pior quando entendo.
Sou velha demais
endurecida demais
ritualista demais
enóloga demais
pra aceitar
pra receber
pra viver
pra beber
o Novo.


Ana Elizabete Machado é mulher. Conheceu esse Nazareno que anda mudando muita coisa na vida dela já há algum tempo. Gosta de gente. Não é contra casamentos, só os abusivos. Se sente uma feminista em formação. É de esquerda. Gosta da Teologia da Missão Integral e da Teologia da Libertação. Caminha com a ABU e a Rede Fale. Estuda com um povo indígena lindo aqui de Goiás. E em alguns momentos da vida é professora de espanhol, português, sociolinguística e escola bíblica dominical. E compartilha a vida com o Douglas, mas ele não é seu redentor, apesar de perdoá-la bastante, hahaha, ;).


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

 

 

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