Em quem dói mais?

Uma reflexão sobre a crítica que dói em mim, em nós, mas deveria me instigar a mudar as injustiças do mundo

Outro dia cheguei em casa cansada do trabalho quando meu marido foi reclamar, também cansado. Não gostei. Eu queria ter a vantagem de estar mais cansada, queria ter mais pontinhos por ter sofrido mais naquele dia, ser reconhecida. Queria que ele entendesse que eu sofri, sem compreender que ele também estava cansado.

Mas a vida não funciona assim e eu estava bem errada. Que vantagem tem em ter sofrido mais que o outro? Isso prova algo sobre mim? Também não temos como medir quem trabalha mais, quem trabalha menos, quem sofre mais, quem sofre menos. Pior: não temos autoridade pra decidir sobre a vida dos outros. “Você está menos cansado do que eu” – claro que não! Talvez por isso mesmo que dói tanto ouvir quando os outros falam sobre privilégios inerentes.

“Privilégio” é um termo que tem sido usado pra definir uma série de características que, por causa das falhas da nossa sociedade (e não das suas!), fazem a vivência de uma pessoa menos difícil que a de outra. Por ser homem, por exemplo, ninguém questiona um cara voltando sozinho pra casa sem camisa à noite. Mas uma mulher de saia no meio das coxas vira um alvo, é questionada e culpada de qualquer coisa que possa acontecer, fazendo exatamente a mesma coisa. Uma loira bem vestida dentro de uma loja raramente vai ser seguida pelo segurança, assim como acontece com muitas mulheres negras também bem vestidas.

Privilégio inerente, portanto, é uma característica intrínseca a nós, que não fizemos nada pra merecer, mas que nos faz ter uma vida menos difícil. Mas quando falamos sobre isso, incomoda pra caramba. Como já disse, não temos autoridade pra decidir sobre a vida de outras pessoas e o quanto eles sofrem, talvez por isso mesmo que sempre nos incomoda quando alguém parece querer medir o nosso sofrimento, diminuindo nossa vivência, precificando nossa vida (e por um preço bem baixo). Falar de privilégios soa, pra alguns de nós, falar do que não precisamos lutar mesmo quando lutamos. Do que ganhamos sem fazer nada, e de repente tudo aquilo que batalhamos vira nada. Nossos sofrimentos viram pequenos. E não queremos ser vistos assim, não é?

Só que falar de privilégio não tem a ver com aquilo que a gente não fez ou fez. Não tem a ver com aquilo que era mais fácil pra gente, com o que não lutamos. Talvez seja assim que estejamos olhando pros outros quando eles ganham algo pra compensar pelo que já tinha lhe sido negado, e talvez essa interpretação do termo tem muito mais a ver conosco do que com a crítica do privilégio… Ai :/

“Privilégio” tem a ver com o que fica mais difícil pros outros, ao invés do que fica mais fácil pra gente. Tem a ver com uma dor que deveria ser desnecessária na vida do outro, e não uma dor a menos na nossa. Tem a ver com aquilo que o outro lutou e não conseguiu, e não com o que a gente lutou e conseguiu. Em vez de pensar na crítica como algo que diminui a nossa vivência, é hora de pensarmos no outro de quem nós temos diminuído a vivência.

Falar de privilégios não significa dizer que foi tudo fácil, significa dizer que pra alguém é mais difícil por motivos injustos. Compreender isso aumenta em nós a empatia, a compreensão da vivência do outro, a misericórdia. “Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso.”

Não tem como eu ter sofrido racismo por ser branca, o máximo que sofri foi preconceito e bullying (#truestory) durante alguns anos da minha infância. Isso não se compara com ser perseguida toda vez nas lojas. Não se compara com ser tida como suja pela cor da sua pele e o tipo do seu cabelo. Não se compara em ser chamada de preguiçosa ou desarrumada toda vez que insiste em ter o cabelo natural, não liso nem ondulado. Não se compara em ser lida como uma empregada, em ser tratada com desrespeito por estar num hotel 5 estrelas, por ser negra. Não se compara em perceber, toda vez, que você é a única ou uma das poucas negras na sua sala de aula, no restaurante. Essas são vivências que nunca tive, mas que amigas negras minhas tiveram. E não custa nada perceber que, por uma idiotice da sociedade, eu tenho um privilégio inerente, e elas lidam com a parte ruim desse fato.

Falar de privilégio é parar de querer medir a dor do outro, medir quem lutou mais, pra começar a ouvir o outro. Começar a compreender o processo do outro e reconhecer as que, infelizmente, as condições da sociedade são diferentes pra cada um de nós, criando mais obstáculos pra algumas pessoas. Isso não faz de você menor, também não faz de você culpada. Mas é difícil começar a reconhecer essas estruturas pecaminosas da nossa sociedade e não querer mudar isso. Se ficarmos de braços cruzados e não procurarmos quebrar as estruturas do machismo, do racismo, a culpa não estará muito longe de nós.

E como mudar as estruturas que não criamos enquanto estamos privilegiadas? Dar espaço. Ouvir o outro. Posicionar-se contra as opressões. Empoderar o outro. Deixar o outro se representar. Abrir um pouco a mão daquilo que temos e de ter sempre a razão. Analisar seu próprio preconceito, sempre. Estar alerta quando alguém te privilegia por estes pontos errados em prol de um outro que tinha os mesmos motivos pra ganhar algo.

Talvez seja bom entender que, ao apontarem essas diferenças, as pessoas não estão querendo mais atenção por sofrerem, não estão ganhando nada com isso, pelo contrário: já perderam, e muito. Também não significa que você é ruim ou menos melhor por isso. Simplesmente significa que nossa sociedade é injusta. E está em nossas mãos mudar isso.

Você e eu podemos fazer algo pra mudar isso, buscando a vontade de Deus e procurando realizá-la junto dele. Apenas com Deus do nosso lado podemos percorrer este caminho: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”, já dizia Jesus no Sermão do Monte. Davi reconhecia em Deus a origem da justiça: ‘Então a minha alma exultará no Senhor e se regozijará na sua salvação. Todo o meu ser exclamará: “Quem se compara a ti, Senhor? Tu livras os necessitados daqueles que são mais poderosos do que eles, livras os necessitados e os pobres daqueles que os exploram'” (Salmo 35: 9,10).

Pensa em Cristo lá na Cruz. Pensa nele entendendo que, embora não tenha sido fácil pra ele, nós precisávamos do seu sacrifício, da sua misericórdia. Lá, todos somos iguais, privilegiados ou não. Mas no dia-a-dia ele tratava diferente quem tinha acesso diário e fácil à Palavra de Deus daqueles que eram excluídos na estrutura da época. A verdade era a mesma pros dois, e ele se preocupava mais com o coração do que com quem eram, mas deu uma atenção diferente ao longo de seu ministério pros que não tinham as mesmas condições que outros.

A mulher sírio-feníncia, por exemplo, era definitivamente injustiçada naquela sociedade: estrangeira, mulher, com uma filha imunda. Mas ele olhou pra ela e lhe deu a mesma salvação que todos os outros, lhe deu espaço de fala, lhe deu ouvidos. E lá está ela, registrada ao lado de um monte de gente que não estava entendendo o que graça significava, como uma das poucas que entendeu.

Vamos nós continuar dizendo pros outros: eu também sofri; ou vamos nós parar pra ouvir o outro e entender que talvez as condições nem sempre são iguais pra cada um de nós, buscando mudar isso tudo?


 

Jessica Grant é jornalista e tradutora freelancer, casada com Lucas, congrega na Igreja Metodista Livre da Saúde e participa da ABUB desde 2006.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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