relato2016 3

 

“Foi quase tudo nos ditames e conformes da padrão que me disseram, da castidade, da perseverança na fé.  Não casei sob a égide da igreja, mas sob a ótica cristã, de papel passado, de uma vez por todas, para nunca separar. Casei confiante e radiante de estar sob a proteção de Deus. Até que, um “belo” dia, ele me pediu para sair de casa. Não, não foi inesperada a atitude (talvez um pouco por ele ter me deixado à deriva e ter permanecido no nosso imóvel). Brevemente, eis o desenrolar dos fatos.

Começou sob a forma de proteção, de cuidado. Aquele ciúme que faz você se sentir especial. E foi evoluindo, para algumas proibições, algumas regulamentações, chegando ao ponto de me impedir de ingressar na faculdade, de me bater algumas vezes e me afastar da congregação na igreja.

Posso dizer que casei com o príncipe da minha vida, até o “momento” em que ele se tornou o vilão, momento esse bem mais nebuloso e turvo do que muitos pintam.

Você talvez pense “você é idiota duplamente, por casar cedo e por se submeter a isso” (como dizem as minhas nobres colegas de serviço), mas no meu coração eu lidava com alguém doente e que a Palavra de Deus o constrangeria. Quando eu decidi estudar e congregar “apesar de meu marido”, foi quando conheci a ABU, e quando ele desistiu de me controlar.

Até hoje me pego com sentimentos de culpa, me perguntando onde errei durante o casamento, e mais recentemente onde errei antes do casamento, que sinais deixei de ver, porque estendi tanto uma situação insustentável. Eu justificava para os amigos que eu havia escolhido, e que havia sido escolhida para sofrer. Aliado ao meu medo das pessoas me julgarem. “Tão nova, tão burra. Está aí, separada”.

Enfim, me disseram que águas passadas não movem moinhos. Creio nesse Cristo que tem um propósito pra cada etapa da minha vida, e que nada fugiu dos seus planos, mesmo tudo isso tendo acontecido. “Que Deus carrasco esse seu”, muito pelo contrário, vejo a mão dEle me sustentando apesar da minha relutância e moldando meu caráter, talvez para que eu viesse a ajudar outras nessa situação. A dor e o silenciamento não me impediram de amar (a ele, às pessoas ao meu redor, e às almas perdidas). Contudo, eu poderia ter perdido a minha própria vida nessa empreitada, nas mãos dele.

A culpa do controle excessivo, da arrogância e, sim, do machismo (entendendo-se superior) foi exclusivamente dele. Era um casamento cristão, mas sem Cristo (Aquele que morreu pela Igreja). E sob discursos justificador atrás de discurso. A minha culpa, creio, foi não ter buscado ajuda.  Recebi muito suporte quando saí de casa,. Eu me arrependo mais de ter sido cega e afastado pessoas importante como meus familiares, com todas as falhas deles, mas que fariam tudo por mim – e algumas vezes foram recolher o que sobrava de mim quando, próximo ao final, eu preferia não dormir na minha própria casa. Casa na qual não consigo mais entrar, diga-se de passagem.

Moça, eu entendo você que apanha e não quer abandonar o lar. Ainda mais se você tem filhos. Rogo, porém: não se prive por outra pessoa, existem muitas formas de demonstrar amor que não seja sendo o saco de pancadas de alguém. Às vezes você ajuda muito mais longe – e viva. Pense bastante se quer criar os filhos, se os possui, nesse ambiente hostil e desrespeitoso, por mais que o padrão de vida oferecido pelo pai seja invejável. Mas não se submeta a essa loucura: lute. Deus nos chamou para a paz. Denuncie.”

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