Deus mobilizando suas tropas: as mulheres na história do protestantismo brasileiro

 

Minha pesquisa de iniciação científica era na área de literatura feminina nas ditaduras latino-americanas. Em uma das apresentações que fiz sobre o tema, o professor da banca – que até então eu não havia entendido de que nacionalidade era, já que o português não era tão claro – encerrou minha fala com algumas perguntas e depois soltou sua conclusão (tradução livre): “Esse papo aí de ‘o privado também é político’ é balela que vocês mulheres inventaram para fingir que fizeram alguma coisa.”. Na hora eu travei, porque não sabia se realmente havia entendido o que ele estava dizendo… pensei que meu tradutor mental estava enganado, olhei com cara de uai e sorriso de Monalisa pra um colega que sentava um pouco atrás desse professor, que me devolveu a mesma cara. No fundo da sala uma moça maravilhosa sorria com o punho erguido. Sorri, mostrando os dentes, de volta pra ela. Perguntei se não havia mais nenhuma pergunta ou colocação dos colegas ou professor, e recebendo a negativa, me sentei. Confirmei com meu amigo que o professor realmente havia dito aquilo que entendi. O privado é político sim. Todas nossas ações (ou não-ações) são políticas, e às vezes é tão óbvio que as mulheres estavam envolvidas na resistência contra a ditadura que a gente tem até uma travada pra explicar sobre isso. Tipo explicar o motivo de 2+2 ser igual a 4.

Enquanto desenvolvia meu trabalho, percebia e constatava o quanto a história é contata através do viés masculino. Mais do que isso, embora de uns tempos pra cá tenha ocorrido uma agitação maior em torno de dar voz àqueles que nunca tiveram voz, é de se perceber que não só o viés é masculino, como é excluída toda, ou quase toda, a presença feminina que não é passiva. Um dos textos que estudei e que apontava isso, era de um estudo sobre os livros didáticos de história, que constatava que dos livros analisados, normalmente não se mencionava mulheres. Quando mencionava era em um quadrinho meio que por fora da questão. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi o recorte que o autor daquele artigo fez dizendo que em dado texto o autor havia chegado ao cúmulo de dizer que os estudantes envolvidos nos protestos contra a ditadura eram cabeludos e barbudos – ou seja, não havia nenhuma mulher. Só homem fazia e acontecia.

Como minha área de estudo, fogo e paixão é literatura, e acredito que a arte tenha um potencial muito grande de envolvimento social e político (embora não acredite que isso seja, ou deva ser, via de regra), fui ver o que as mulheres que viveram aqueles períodos tinham a dizer sobre. E percebi que elas foram envolvidas até às vísceras com a resistência.

Com esse olhar mais afiado e preocupado, me voltei para olhar a história da igreja, e percebi que mesmo na igreja a coisa é bem parecida, ou pior. Percebi que era às mulheres destinado o lugar de serva – não que isso seja desonroso, muito pelo contrário – mas o que deve ser questionado é: na igreja, as mulheres são incentivadas a serem servas primeiramente de Cristo ou dos homens? Veja bem, não digo que não devemos ser servos uns dos outros, mas digo que a motivação que é imposta às mulheres de servidão aos homens, é colocada corretamente de “trate o outro como maior a si mesmo”, mas erroneamente aos homens ao passo que a eles não é posto que devem considerar as mulheres como maiores do que eles. Pelo contrário, a eles é muitas vezes ensinado que isso é uma tremenda heresia. “Onde já se viu? Eu sou O CHEFE! Eu sou praticamente o representante de Jesus nessa casa/igreja/terra!” (alguma semelhança com o Papa católico?). Essa, portanto, não é uma constatação que busca a exaltação das mulheres, mas que busca elevar os vales e rebaixar os montes. Busca trazer para a reflexão masculina como esse espaço privilegiado pode estar, ou está, fazendo os trazer para si glória própria, exaltação própria, e um protagonismo de atuação que não é seu, mas do próprio Deus.

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Sarah Poulton Kalley (1825-1907) / fonte: http://www.robertreidkalley.xpg.com.br

Por exemplo, no Portal Mackenzie, há uma Breve História do Protestantismo no Brasil, onde (sem surpresa) nos são apresentados cerca de 90 nomes de homens, enquanto sobre as mulheres, apenas nos são dados os nomes de Sarah Poulton Kalley, Martha Watts, a esposa sem nome de Jefferson Bowen ( “Os primeiros missionários da Igreja Batista, Thomas Jefferson Bowen e sua esposa (1859-1861), não foram bem sucedidos.”), seguido de mais mulheres sem nome (“Os primeiros missionários junto aos brasileiros foram William Buck Bagby, Zachary Clay Taylor e suas esposas (chegados em 1881-1882).”), Billy Gammon, Aimee Semple McPherson (fundadora da igreja Quadrangular nos EUA, denominação esta que permite que mulheres ocupem o ministério pastoral). Eu sei que a ideia do texto era ser breve, mas um fato bacana de partilhar é que o Instituto Bíblico Eduardo Lane, da Igreja Presbiteriana do Brasil, foi fundado por ele, por sua esposa D. Mary Lane, e pela Frances Hesser – mas só carrega o nome dele.   

Em sua página de Sarah Poulton Kalley na Wikipedia (apesar de fonte: wikipedia ser meio fraquinho, mea culpa, ainda não puder ler a biografia de Sarah) é dito que:

Sarah desejava organizar uma Sociedade de Senhoras, o que não era aceitável na época, porque não ficava bem que as mulheres saíssem sozinhas às ruas. Como da Igreja faziam parte três senhoras alemães casadas, que não se conformavam com essa restrição, Sarah pôde programar a fundação da Sociedade, e, para sua alegria, na primeira reunião, dia 11 de julho de 1871, estavam presentes onze senhoras que apoiavam a ideia. Nesse dia o estudo bíblico versou sobre: O caráter de Eva, Mãe da Raça Humana. Foi sua presidente até voltar para a Escócia. Era o início das atuais Uniões Auxiliadoras Femininas das Igrejas Evangélicas Congregacionais.

Página esta, que encerra a fala sobre Sarah, dizendo que

Posteriormente à morte do seu esposo, ocorrida em 17 de janeiro de 1888, Sarah fundou, em 1892, a missão conhecida como Help for Brazil (Auxilio para o Brasil), com o objetivo de cooperar com as igrejas originadas do trabalho de seu esposo através do envio de obreiros.

Ora, após todo o trabalho de Sarah que o texto nos conta, é dado apenas a seu esposo o crédito de ter originado várias igrejas. Não estou dizendo que seu marido, Robert Kalley, é soberbo, mas sim que nosso olhar valoriza mais o trabalho de uns em detrimento de outras.

Em um texto sobre Martha Watts (que quase que fala de tudo e todos e menos de Martha) no blog Exemplos da História, é admirável seu empenho em fundar uma escola para moças em Piracicaba, do qual o blog diz que um padre da época comenta:

Um padre Romanista [Católico] publicou uma série de artigos nos jornais de Piracicaba-SP contra os Protestantes, bem como criticou o colégio fundado por Martha Watts: “Nessa instituição cada aluna tem uma Bíblia e a lê, como se qualquer pessoa pudesse entendê-la; e através da influência dessa escola toda a cidade está perdida nas trevas do Protestantismo“.

Que absurdo uma mulher dando Bíblias a outras mulheres e dizendo que elas podem entendê-la por si só, não? Graças a Deus por mulheres ousadas e corajosas como Martha que desafiaram não só a sociedade da época – sozinha -, como também a uma religião que dizia quem tem ou não autoridade para ler, entender e pregar sobre a Bíblia. E que pena que muitos protestantes ainda reservem essa graça e benção apenas aos homens.

Isso tudo não é um manifesto visando que as mulheres se vangloriem de suas obras, bem pelo contrário, é um apelo para que todos, mulheres, mas principalmente homens, tratem os outros e outras superiores a si mesmos, como nos exorta Jesus Cristo em Lucas 22: 24-27, valorizando o que Deus faz através das outras pessoas – e isso inclui as mulheres! Cristo diz que tenho que exaltar o outro como maior a mim – do eu, parte a própria diminuição, e não é do eu que deve partir a diminuição do outro.

O menosprezo e a diminuição da mulher pelo outro, tanto na história contada e escrita do país, como na do protestantismo, ou da igreja de Cristo, exclui as mulheres dos ministérios, não só pastorais, mas missionários. A história contada dessa forma cria gerações de mulheres que acreditam que a elas não lhes cabe fazer nada que envolvam as palavras e A Palavra. Que a elas não cabe pregar. Que a elas não cabe transformar a sociedade. Que o evangelho deve ser para o homem todo e para todos os homens, mas não para as mulheres. Que ao os entusiastas da Missão Integral, ao diluir a hierarquia e horizontalizar a missão, dizendo que todos somos missionários, não faça disso uma horizontalidade e uma “expansão de chamado” sexista, apenas masculina, como se dissesse “ok, todos os homens agora devem se envolver com o evangelho todo para levar ao homem todo e a todos os homens, mas as mulheres, ei, queridinha… você ainda fica apenas na cozinha, na costura e na limpeza, não queremos vocês abrindo a boca, a não ser que seja pra dizer ‘amém’.”.

Não devemos nunca esquecer que o “ide e pregai a toda criatura” que Cristo nos deixou nunca implicou que era apenas os homens que deveriam ir e pregar. Que os homens aprendam ser servos e a tratar e a considerar aos outros e às outras como maiores que a si. E que nós mulheres resgatemos, portanto, o exemplo dessas e de outras irmãs, como Ruth Siemens, Madre Teresa de Calcutá e Frida Vingren que desafiaram as convenções por amor a Cristo, e que nos desafiemos a sermos servas sim, mas, antes de tudo, a Cristo. Que nos infiltremos sim, nos ministérios da Palavra, que nos empenhemos sim a estudar e produzir teologia, que nos metamos nas oratórias.

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Frida Vingren (1891-1940), uma das fundadoras da Assembléia de Deus / fonte: -www.exemplosdahistoria.blogspot.com

Despertemo-nos, para atender o chamado do Rei, alistando-nos nas suas fileiras. As irmãs das “assembleias de Deus”, que igualmente, como os irmãos têm recebido o Espírito Santo, e portanto, possuem a mesma responsabilidade de levar a mensagem aos pecadores precisam convencer-se que precisam fazer mais do que tratar dos deveres domésticos. Sim, podem também, quando chamadas pelo Espírito Santo, sair e anunciar o Evangelho. Em todas as partes do mundo, e especialmente no trabalho pentecostal, as irmãs tomam grande parte na evangelização. Na Suécia, país pequeno com cerca de 7 milhões de habitantes, existem um grande número de irmãs evangelistas, que saem por toda parte anunciando o Evangelho, entrando em lugares novos e trabalhando exclusivamente no Evangelho. Dirigem cultos, testificam e falam da palavra do Senhor, aonde há uma porta aberta. (Os que estiveram na convenção em Natal e ouviram o pastor Lewi Pethrus falar desse assunto sabem que é verdade). Por qual razão, as irmãs brasileiras hão de ficar atrasadas? Será, que o campo não chega, ou que Deus não quer? Creio que não. Será falta de coragem? Na “parada das tropas” a qual teve lugar aqui no Rio, depois da revolução, tomou também parte, um batalhão de moças do estado de Minas Gerais, as quais tinham se alistado para a luta.

– Frida Vingren, no Mensageiro da Paz, em 1º de fevereiro de 1931 p.6

 

 

Referências:
http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2012/03/frida-vingren-desabafos-na-escrita.html
http://100mulheresad.blogspot.com.br/

 


Deborah Vieira é acadêmica em Letras pela Universidade Federal de Pelotas, participa da ABUB, do Coletivo Severina e você pode clicar aqui para encontrá-la em outros lugares.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

 

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