Feliz dia internacional da mulher para as que merecem?

 

O tempo se esvai… Em ciclos… E as datas comemorativas nos mostram bem como tudo passa e, ao mesmo tempo, se repete. Eleger datas para homenagear grupos de pessoas ao mesmo tempo em que traz oportunidades de demonstrar afeto e reconhecimento, ocasiona por vezes algum mal estar ou constrangimento social quanto à obrigatoriedade de comprar presentes ou mesmo lembrar-se das datas. A periodicidade bem distribuída pelo ano ajuda a impulsionar o comércio, que se beneficia bastante dessa prática social. E aqui, não pretendo menosprezar o trabalho das pessoas comerciantes – já trabalhei no comércio, e várias pessoas da minha família sustentam suas casas nessa lida que exige muito dinamismo e empenho. O que estou tentando apontar é como essa organização de comemorações ao longo do ano, repetindo-se no tempo pode se expressar como algo banal.

O dia internacional da mulher, no mês de março, pode por vezes se apresentar para muitas pessoas como mais uma dessas datas. Assim como os pais são homenageados em agosto, as crianças em outubro e as mães em maio, as mulheres podem ser homenageadas em março. E então mulheres recebem a estima de diversas pessoas que lhe oferecem flores e outros presentinhos e exaltam as características distintivas de seu gênero. No meio de lembranças e mimos correm soltos os estereótipos. Afinal, como felicitar pessoas por serem mulheres sem tentar encontrar as características elogiáveis da essência feminina? O que é ser mulher? Que características das mulheres poderiam ser elogiadas? Algumas mulheres merecem parabéns por serem mulheres e outras não?

Mulheres que não merecem flores

E aqui chegamos ao ponto central deste texto: todo ano, entre as muitas mensagens que pretendendo elogiar as mulheres, acabam cobrindo-as de estereótipos, há também aquelas manifestações que sugerem o não merecimento de algumas mulheres, justamente porque a essas faltariam as características próprias do feminino ou porque são ou se comportam de maneira inadequada ou não esperada. O mais consternador é que essas manifestações muitas vezes vêm das próprias mulheres, espezinhando-se umas às outras.

Pois bem, certo ano, vi garotas do meu círculo de contatos postando em seus perfis nas redes sociais variações da frase “feliz dia das mulheres para as que merecem”. Fiquei pensando: quais são as mulheres que não estão de parabéns por serem mulheres? Haveria apenas um jeito de ser mulher, um jeito certo que algumas estariam falhando em alcançar?  Por causa disso, essas mulheres não mereceriam felicitações e sim censura?

Dentre os muitos estereótipos que circundam a mulher, como os padrões de beleza, há também pesados modelos de comportamento. Tem-se a ideia de que boas moças são contidas, comportadas e seletivas. Correspondendo à essência feminina que as tornam mais tributárias da emoção do que da razão, elas não teriam muitos envolvimentos amorosos ou sexuais porque seriam mais sensíveis e se apegariam mais ao companheiro em cada relacionamento. De maneira geral, percebe-se um imaginário que, ao mesmo tempo em que confere fragilidade por meio dessas características colocando as mulheres como inferiores e menos aptas para o espaço público por, supostamente, não serem objetivas e racionais, enaltecem-nas pela também suposta disposição em sacrificar-se, servir e sofrer pelas pessoas que ama. Essas características estão bem expressas em um poema* muito conhecido e que circula bastante pelas redes sociais nos primeiros dias do mês de março:

 

O homem e a mulher

O homem é a mais elevada das criaturas;
A mulher é o mais sublime dos ideais.

O homem é o cérebro;
A mulher é o coração.

O cérebro fabrica a luz;
O coração, o amor.
A luz fecunda, o amor ressuscita.

O homem é forte pela razão;
A mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence, as lágrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos;
A mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece, o martírio sublima.

O homem é um código;
A mulher é um evangelho.
O código corrige; o evangelho aperfeiçoa.

O homem é um templo; a mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos;
Ante o sacrário nos ajoelhamos.

O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter, no crânio, uma larva;
Sonhar é ter, na fronte, uma auréola.

O homem é um oceano; a mulher é um lago.
O oceano tem a pérola que adorna;
O lago, a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa;
A mulher é o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço;
Cantar é conquistar a alma.

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra;
A mulher, onde começa o céu.

Penso que esse poema é bastante ilustrativo do imaginário social de uma essência feminina. Ele coloca a mulher em uma posição de fragilidade, e, ao mesmo tempo a sacraliza. A redenção da inferioridade da mulher seria sua compleição para a santidade. Talvez seja isso que distinga as mulheres merecedoras de parabéns daquelas rejeitadas por não serem competentes em cumprir ou agir segundo o esperado. E o fato de essa rejeição partir bastante das próprias mulheres, mostra a preocupante inclinação para a falta de solidariedade e uma infeliz competitividade que só aumenta o jugo de todas nós.

Quando descobri a palavra sororidade     

Aprendi essa palavrinha no Festival de Arte e Cultura Mira que aconteceu no fim de outubro de 2014, na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em uma mesa redonda sobre mulher e arte na América Latina, quando a professora Ana Paula Penkala mostrou alguns trechos do filme “Después de Lucía” dirigido por Michel Franco.

Menciono aqui esse filme porque além de muito impactante ele demonstra bem como os modelos comportamentais e estereótipos da maneira correta de ser mulher podem acarretar em competição e hostilidade entre as próprias mulheres. Perdoem-me, mas terei de dar alguns spoilers do filme. Em Después de Lucía, Alejandra, uma adolescente que acabou de perder a mãe e se mudar de cidade, é vítima de todo tipo de agressão depois que um vídeo íntimo é disseminado na internet. Além dos meninos da escola que acham que podem ter acesso ao corpo dela sem o seu consentimento, também as meninas, suas colegas, humilham-na e agem com hostilidade, desqualificando-a, chamando-a de prostituta e legitimando os abusos dos meninos. É quase como se, sua suposta vulgaridade fizesse dela uma competidora desonesta ou desleal pela atenção dos meninos, tornando-a, assim, merecedora de todo tipo de punição e rechaço por parte das colegas. Alejandra fica não apenas desamparada sem poder contar com qualquer apoio diante dos abusos, como também é alvo de violência das próprias colegas.

Ainda que o exemplo do filme pareça extremo (embora situações de hostilidade envolvendo vídeos íntimos tenham ocorrido algumas vezes recentemente), essa forma de pensar e agir olhando outras mulheres como concorrentes está muito enraizada. Para combater o machismo as mulheres tem de ser solidárias umas com as outras e não reforçar as opressões. É preciso que se olhem como irmãs, como parte de uma sisterhood. E é disso que se trata a noção de sororidade: solidariedade entre mulheres. Não quer dizer que uma mulher não possa discordar do procedimento de outras mulheres ou que o sentimento de ter sido prejudicada por outra não seja legítimo em diversas situações, mas sim que não devemos reforçar as noções machistas que as desclassificam enquanto mulheres quando elas não agem dentro dos modelos morais e comportamentais que alguns consideram corretos.

Outra questão apontada pela professora Penkala nessa ocasião, que pode nos ajudar a entender a descategorização de algumas mulheres por parte de outras, refere-se aos modos de conferir valor às mulheres que consagraram um modelo de estereótipo excludente: como o poema citado nos permite inferir, às mulheres são conferidas duas maneiras de serem valorizadas – um deles é o ser que se doa e serve, cujo maior exemplo seria o da maternidade, e o outro seria o valor de pertencimento exclusivo a um homem cujo símbolo paradigmático é o da mulher recatada moral e sexualmente. Alejandra é uma adolescente que ainda não é mãe e cujo valor da exclusividade é perdida ao ter sua intimidade sexual exposta pelo rapaz com quem se relacionou. Assim, ela é vista como uma moça sem valor, e, portanto, pode ser rejeitada e hostilizada. Segundo essa mentalidade, Alejandra não mereceria felicitações ou flores no dia internacional da mulher.   

Felicitações em um dia de luta

Quando as pessoas felicitam as mulheres no oitavo dia de março imagino que queiram dizer algo como Fico feliz por você ser mulher e você também pode se alegrar. Entretanto, por mais bem intencionadas e sinceras que as pessoas possam ser ao demonstrar afeto e admiração nesses momentos, não estou certa que o mais cabível a esse dia sejam felicitações e presentes.

No site da Universidade Livre Feminista lemos que o dia internacional da mulher foi proposta por Clara Zetkin durante a II Conferência Internacional de Mulheres ocorrida em 1910 na Dinamarca. O foco da discussão era estipular uma ação internacional pela emancipação das mulheres que trabalhavam em fábricas e pelo sufrágio universal. Diversos acontecimentos nos anos seguintes, como o incêndio em uma fábrica de Nova York, que vitimou muitas mulheres, as quais compunham sua maior força de trabalho e uma grande greve entre as trabalhadoras das fábricas de tecelagem na Rússia em 1917, somaram-se ao imaginário coletivo de luta que caracteriza a data. Esta foi adotada por diversos países nas décadas seguintes e reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945 com a assinatura de um documento que afirmava o princípio de igualdade entre homens e mulheres.

Percebe-se nas narrativas que a data se refere às lutas da mulher por emancipação, igualdade, direitos políticos, melhorias e reconhecimento nas condições de trabalho e combate à violência contra a mulher (além de muitos outros aspectos que envolvem a oposição ao machismo) e que, portanto, não faz sentido algum felicitar algumas mulheres por se adequarem a modelos do que é ser mulher enquanto outras são hostilizadas por não se portarem da mesma forma. É um dia de luta, que poderia ser aproveitado para refletir como as mulheres têm sido tratadas em nossas sociedades, dia de nos lembrarmos do duro caminho de conquistas trilhado até aqui e dos diversos desafios que permanecem.

Não acho que essa ânsia de definir o que é ser mulher e esse hábito de eleger as qualidades louváveis seja algo produtivo, algo de que se deva ocupar, porque em minha opinião, os modos de ser são plurais, seja qual for o gênero. As desigualdades entre gêneros permanecem e entre as mulheres há grupos mais privilegiados que outros, com necessidades e desafios diferentes. Em um mundo em que ser mulher pode ser perigoso e oferecer muitos obstáculos, talvez possamos comemorar as conquistas alcançadas e celebrar o inconformismo ante as condições desiguais que ainda se apresentam diante de nós. De qualquer maneira, permanece a luta por emancipação e igualdade, na qual não cabem padronizações excludentes.

 

* Nos lugares em que aparece na rede, esse poema é atribuído ao poeta francês Victor Hugo, no entanto não pudemos localizá-lo em fontes confiáveis para confirmar a autoria. Estamos abertas à correções, caso alguém tenha alguma bibliografia que elucide a dúvida.

 

Fontes para consulta:
Sobre o Dia Internacional da Mulher no site da Universidade Livre Feminsta
Histórico da adoção do dia 8 de março em diversos países e reconhecimento pela ONU (em inglês)


Ana Carla de Brito é mestranda em Artes Visuais na UFRGS. Matogrossense de nascimento e manezinha de coração, sente falta das brumas de Floripa e do tempo seco de Araputanga, mas adora andar pelas ruas de Porto Alegre.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

 

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