Padrões que definem também se redefinem

A vida inteira fui gorda, isso sempre foi um problema. Um daqueles problemas que enquanto criança, você não sabe bem o que ocasiona. Tenho várias cenas na cabeça que remontam o cenário da minha vida e gostaria de compartilhar algumas. A mais remota que me recordo foi aos oito anos de idade, estava na praia, de biquíni. Um grupo de meninas de uns 17 anos passou, me apontou e me qualificou de “baleia”. Só me lembro de usar biquíni outra vez na vida aos 21 anos de idade. Depois me lembro de, aos 11 anos de idade, um amigo da escola me falar que se eu fosse magra, ele ficaria comigo. A mais marcante foi no 1º ano do ensino médio, quando um professor de português passou uns exercícios para serem feitos e eu fiz a todos agilmente. O professor virou para um menino bonito e inteligente da sala e soltou o seguinte elogio: “Você deveria ficar um dia com ela, porque ela é inteligente.”. Eu não era bonita e não sabia direito o porquê, mas era inteligente. Até que, observando minhas amigas e a relação dos meninos com elas e comigo, percebi que o “problema” da minha feiura era ser gorda. Isso se tornou mais evidente na festa de formatura, quando um dos meninos que andava conosco abraçou minhas três amigas de uma vez e não me abraçou, pelo contrário, me substituiu pela amiga de uma das minhas amigas, que não era do colégio e era magra.

Na igreja, a situação não era diferente. Eu ainda cheguei a fazer parte do ministério de dança, mas era sempre o tom destoante. Ainda hoje, é meio inconcebível meninas gordas no grupo de dança, todas que eram e permaneceram no grupo emagreceram. Eu não me olhava no espelho. Eu tinha vergonha. Eu não tinha o que ver. A minha autoestima era tão baixa que eu nem me arrumava, não era o típico “mocinha”. Até que conheci um menino e resolvi que queria conquistar esse menino. Então, eu tive uma grande ideia: emagrecer! Se ser gorda me deixa feia, como ficar bonita? Emagreci, e nunca fui tão elogiada em toda a minha vida. Os irmãos da igreja teciam elogios sobre elogios. Um deles me disse que eu estava tão bonita que ia até orar para Deus me dar um namorado. Interessante! Lembro que respondi que não precisava orar por isso. Depois, eu comecei a engordar de novo, porque tinha passado a paixão por esse menino. E junto com o emagrecimento, foram embora também os elogios. Junto desses dois também foi a química do cabelo. Estas coisas, neste momento da minha vida, foram cruciais. Eu tinha 18 anos.

Resolvi me olhar no espelho a partir de então e descobri que eu não era tão feia assim, que o problema de não encontrar roupa no mercado não era meu. Descobri que eu nunca tive uma saúde problemática, que minhas taxas sempre foram controladas. Descobri meu rosto, me descobri. E isso foi libertador. Foi libertador começar a ler uma série de coisas sobre aceitação do corpo – indico que procurem a respeito, como me disse um cara do Benin uma vez: o conhecimento nos liberta – e percebi que eu posso me vestir bem sendo gorda, porque até então achava que pra me vestir bem precisaria ser magra. Descobri que eu tenho cintura, peito, bunda, pernas, silhueta – sim, eu tenho! Descobri que posso ser sexy, atraente, inteligente, dançar, usar biquíni na praia e ser bonita. Eu me vi e isso mudou tudo. Por me ver, consegui demonstrar quem eu era e as pessoas conseguiram me ver para além da minha gordura. Ter me aceito mudou a minha vida. Todo esse processo se deu dentro do meu reconhecimento como mulher e como gente.

Desde que esse processo aconteceu comigo até agora, vejo se intensificar a busca pelo corpo perfeito. A mídia é sempre  o espaço onde se divulga o padrão de corpo e beleza desejável. As reportagens, propagandas, as academias, roupas de malhação se multiplicaram. Eu continuei gorda, apesar disso. O discurso sobre o corpo, a beleza e a saúde continuam rebatendo a minha condição e me apontando como sedentária, preguiçosa… Mas quem disse que magreza é sinônimo de saúde? E quem disse que tenho que ser magra pra ser bonita? Quem dita o que o corpo deve ser? Por que ditam? Ao longo da história não foi sempre a magreza o padrão desejado, ou o marombado. Havia optado por falar primeiro meus relatos, pois antes dos modelos e estruturas está a vida real. O que quero afirmar diante das indagações é que alguém ou algo dita o padrão. Quanto não se ganha com academias, produtos para emagrecer, massa muscular, e roupas de malhação? Quanto não se ganha ao apresentar padrões inalcançáveis de beleza? Problemas…

Há mais do que esses problemas a resolver e que na vida real são fatores que levam mulheres e homens à frustrações enormes. Há mais ainda frustração nas mulheres que são o objeto-sexual-de-consumo-dos-homens e tem-que-ser-sempre-linda-magra-arrumada-e-pronta-pra-cama.

Para terminar, tenho mais um problema a apresentar: por que mulheres gordas não podem namorar pessoas magras ou bonitas ou atléticas ou da educação física? Por quê? A pressão social sobre a mulher gorda é tão grande que lhe excluem da opção de escolha de roupa, espaço e até de alguém pra se relacionar.

Pelo direito de ser do tamanho que quiser, usar a roupa que achar bonita, entrar em qualquer espaço e escolher com quem namorar! Ainda mais, pelo direito de ser mulher! Livre do padrão social do corpo perfeito, capaz de compreender as mudanças no próprio corpo e continuar amando-o. Pela liberdade de redefinir o padrão de beleza! Pela compreensão de que a beleza está no corpo e para além dele. E discutir sobre isso é essencial e assunto pra mais um texto.


Marília Teles tem 21 anos, mora em Sergipe, é graduada em História pela UFPB, aluna especial do mestrado na Universidade Federal de Sergipe, mulher, gorda e tecida em poesia.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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