Talvez, a Retórica

Um relatinho ignorante sobre o que eu pensei esses dias lendo um livro legal

Dia desses vi na estante da biblioteca em que trabalhava um livro fininho com título legal, atraente, ficção leve, sinopse interessante, desses de ler numa sentada.  Estava num hiato de preguiça mental e de culpa por conta da preguiça mental, o que geralmente faz a gente recorrer aos minilivros. Bendito hiato! Topei com a narrativa ficcional mais espetacular e engraçada da minha trajetória leitora! Vou dar aquela pincelada com algum spoiler: a mulher mais feiosa das galáxias nasce no oriente médio séculos antes de Cristo. Desertão, clãs, famílias nômades, aquela coisa meio novela da Record, contexto velho testamento. Essa indivídua foi entregue pelo pai para ser uma das 700 esposas de Salomão que, depois de muito toma-lá-dá-cá e mil aventuras, descobre na moça uma excelente redatora. Isso mesmo, jovem. A mulher sabia ler e escrever! Foi ensinada por um velhote da sua tribo que, compadecido da criatura feia, muniu-a de outra arma letal e alfabetizou a pobre.

O Rei incumbe a senhorita de redigir todas as peripécias da humanidade até então. Criação, dilúvio, os 10 mandamentos, quem era escravo de quem, Moisés vindo com tudo etc. Não vou abrir o bico sobre o final pra não estragar a empreitada, que vale a pena demais.

Só queria dividir a coisarada que passou na minha cabeça quando eu me encontrei na última página. Então, segue o relato da ideia que percorreu meu cérebro.

Sempre acreditei que quando a Bíblia menciona nossa semelhança com Deus ela se refere, entre outros detalhes, à habilidade de criar, de produzir o novo que tange a abstração. No ambiente eclesiástico, por algumas razões profundas e esquisitas, parece que a gente deu uma atrofiada em muitas categorias de criação artística – dança, música, escultura, cinema, pintura, teatro – sob a perspectiva de que é possível criar a partir de referências, coletando o que nos atravessa para reelaborar o novo, em detrimento de xerocar o que se faz em outros lugares. Em termos grosseiros, a gente traduz música do Hillsong, não se ouve falar em ministério de composição musical pr’aquele momento do louvor, a gente não tem mais artefatos de arte no templo (dizem que quem tem escultura na igreja é católico) etc.

Também temos esse problema de atrofia na práxis litúrgica, mas felizmente, até onde pude observar na minha “trajetória igrejal”, o pouco que se alcançou de espaço artístico no evangelicalismo, detém a presença da mulher em boa parte das categorias: a gente dança, canta, ministra louvor, faz teatro, Muppets de natal, estamos em todas.

Mas há um lugar, amigos e amigas, há um lugar na arte que ainda não foi ocupado. E talvez seja o mais letal.

Este lugar de formar opiniões, de incitar ânimos e espíritos, de provocar movimentos mentais, este lugar de persuadir de reorganizar, de expurgar correntes teóricas heréticas, de apregoar concepções, de modificar comunidades inteiras, este lugar é masculino. Não há espaço para mulheres na arte do discurso.

Mil passagens subjugando mulheres são reinterpretadas sob nova essa ótica do cristianismo que pensa, que reflete, que questiona. Uma geração lindíssima de teólogos e pregadores tem ressignificado a fé fazendo vlog, fórum, congresso, mesa de debate, DVD, palestra, aulão, mil recursos modernos. É Ed René, é Ariovaldo Ramos, é Ariovaldo Jr., é Paulo Brabo, é Cristiano Machado, Fabrício Cunha, Marcos Almeida, Marcos Botelho, Lucinho Barreto, posso listar até semana que vem nomes de personalidades desse universo e vão aparecer duas mulheres para cada 30 homens na minha estatística mental aqui.

Esse desabafo-depoimento é concebido sob muita ignorância e curiosidade. Ainda há muito que se ler e escrever sobre mulheres e empoderamento aqui da minha parte e estou animada na empreitada, por isso não sei se as questões que desejo levantar agora são sobre a origem dessa problemática historicamente. Não li o suficiente.

A presença da mulher na arte dentro nas igrejas ainda não aconteceu de fato e plenamente porque, entre zilhões de razões históricas, talvez a gente ainda não tenha tomado o mais vital dos espaços, que é o do discurso. Brasil com presidenta e a gente ainda capengando dentro do espaço que deveria ser o de maior equiparação, igualdade e voz para o oprimido.

Por muitas vezes fui convidada para, por conta do que discursamos como grupo com a Simonami, cantar aqui e ali. Não me lembro de ter sido chamada para discursar. Quando componho, escrevo, reflito, eu deixo reverberar uma série de conceitos nas entranhas, mas depois de todo esse trabalho árduo que é parir uma obra o que tem vindo das igrejas é uma coisa sobre ministrar um louvor num retiro e sobre a habilidade do canto etc. Não sei se eu realmente desejaria discursar quando tenho a composição que discursa em meu lugar, por mim. Mas gostaria ao menos de poder desencadear algum tipo de inquietação. Por que é que você, garota, pode dar aulas na Escola Bíblica Dominical, ser líder de uma célula, ministrar louvor e realizar toda a papagaiada da estrutura típica eclesiástica, mas só tem voz no púlpito no dia da mulher? Talvez com a gente tomando esse lugar artístico mais contundente e provocando comunidades a refletir sobre o assédio e abuso sexuais e morais que perpetuam lideranças em grande parte das igrejas evangélicas, a gente consiga soterrar essa prática de vez dentro das igrejas. Mas é só uma conjectura, um sonho, uma incerteza. Oxalá seja real e possível e provável e eu troque o ‘talvez’ por ‘é certo que’, depois da gente ter ocupado de vez esse lugar da arte da retórica.

*O livro mencionado é o A Mulher que Escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar.


Lilian Soares é acadêmica mas não foi capaz de concluir um curso universitário em 10 anos. Canta compõe na nacionalmente famosa banda Simonami. É de virgem. Não sabe seu ascendente.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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