A dança, a rua e o machismo

Como uma bailarina encara o mundo machista que vê o instrumento de seu trabalho como um objeto de carne em exposição; e como uma cidadã se enxerga em suas caminhadas “livres” pela cidade

Ato 1:

Eu estava na aula de ballet, concentrada em fazer os “piqués” e “relevés” com boa técnica, superando meus próprios limites. A barra onde eu fazia os exercícios ficava de frente a uma grande janela no segundo andar de um prédio. Lá de baixo, ao olhar para a janela, tudo o que um cidadão poderia ver seria uma bailarina do busto pra cima, e pra isso ainda era preciso concentração. Algumas vezes, no meio do exercício, eu olhava para fora dessa janela pra que não visse nenhuma das minhas colegas bailarinas, para não perder a concentração em um “balance” (equilíbrio) e não cair da meia ponta.

Um dia, vi um homem na calçada do lado de fora fazendo movimentos grotescos e repetitivos olhando para a janela (eu nem sabia o que era o movimento que ele fazia com as mãos dentro da calça, no meio da rua, era o que era. Ingênua). Aquele homem olhava pra mim e, na outra janela, pra uma colega. Tínhamos 15 anos. Achei aquilo muito esquisito e senti nojo. A aula era só de ballet clássico! Não era nem pole dance… Avisei a professora. Ninguém fez nada, também não cobrei que fizessem… e o homem desapareceu. Eu via aquele homem como alguém com sérios problemas na alma, uma pessoa que provavelmente estava doente por dentro.

Como bailarina, além de tudo, acredito ser um exagero considerar o mundo da dança um espaço só de mulheres e homossexuais. O palco não é uma vitrine de mulheres em exposição!

Ato 2:

Sempre me vi como uma pessoa forte e admito que sinto isso também por ter a resistência e força física que o ballet gerou em mim. Às vezes me imagino “lutando ballet”. Sempre andei (e ando) na rua como se nada pudesse me atingir, como se ninguém pudesse passar dos limites comigo, nem abusar de mim, de qualquer forma que seja. Criei uma casca, uma capa protetora. Andei muitas vezes sozinha pela rua à noite, voltando do metrô e, graças a Deus, nunca sofri nenhum episódio que passasse de “homens mexendo comigo”.

Eu sei bem que quando me arrumo mais para sair nas ruas de São Paulo (da mesma forma como me arrumava enquanto morava na Europa), com certeza os homens vão mexer mais comigo. É “normal”. A diferença é que enquanto eu estava na Europa, recebi “cantadas” na rua somente duas vezes (dentro de seis meses) e uma só vez recebi uma encarada “mais descarada”. Estudemos nossas culturas, sem preconceitos, porque temos muito a aprender uns com os outros.

Nós somos muito sábias e inteligentes. Somos mais do que nosso corpo (com todas as suas belezas) e temos conhecimento de que Deus nos deu tantos talentos, ousadia, sensibilidade e isso quer dizer que sabemos a nossa identidade. Podemos nos posicionar com ousadia, amor e paciência e mostrar ao mundo que Deus nos deu nosso espaço de liderança, que não nada a ver com “ter poder” por simplesmente ter seios e bunda!

Ato 3:

Se observarmos genericamente, as diferenças femininas são naturais e óbvias: nós somos sensíveis, emotivas, temos TPM, nos importamos muito mais com relacionamentos etc. Sim, no geral somos mais sensíveis. Observamos detalhes, gostamos de colocar emoção nas coisas, não nos conformamos com “produzir por produzir” ou “fazer por fazer”. Questionamos. Podemos ser tão práticas e objetivas no trabalho quanto os homens, mas sempre olhamos pra um cantinho que ninguém viu e ali matamos a charada! Em momentos como a TPM (sim, a maioria das mulheres têm), naturalmente os erros se sobressaem de maneira muito mais intensa. Queremos a solução. AGORA!

Grande problema. Sofremos pra controlar a nós mesmas sem nos culpar de incompetentes e ainda controlar os hormônios. Já me paralisei muitas vezes por ser julgada, até mesmo por mulheres (e por mim mesma), como fraca e “distante de Deus” por ter mais sensibilidade nesses dias de festa dos hormônios. “Isso tudo é só desculpa”, é o que dizem… Olha o mundo querendo nos igualar aos homens, mas de forma injusta! É um longo processo reconhecer que somos diferentes, nos aceitarmos e usarmos nossas diferenças pro bem.

O papel da mulher na sociedade é tema pra muitos outros textos e os homens que ainda não o reconhecem, deveriam reconhecê-lo, o que então destravará boa parte dos problemas da sociedade. Mulheres mais ativas geram mais desenvolvimento. É uma estatística básica. Na minha igreja vivo um ambiente saudável no posicionamento das mulheres e homens, onde as mulheres recebem posição de liderança, pastoreiam. Vivo em um ambiente onde a mulher tem sido cada vez mais valorizada e tem conquistado seu espaço de forma equilibrada. Em encontros de certa igreja ouvi incentivos como: “Boa parte dos países mais desenvolvidos também são países onde as mulheres têm posições de honra e liderança, aliadas aos homens”.

Tenho convicção de que as mulheres não tem de fazer exatamente o que os homens fazem, ou que se deve buscar igualar os gêneros, mas se, por exemplo, assumimos uma posição ou temos uma personalidade objetiva, direta, e se nos encaixamos no perfil de tarefas que a maioria dos homens faz não devemos ser barradas por isso, mas sim aprender que não vivemos dentro de uma caixinha. Isso me faz lembrar de um exemplo simples: quando criança minha cor preferida era A-Z-U-L (não ficava falando isso pra todos porque era normal menina gostar de rosa) e nas primeiras aulinhas de ballet eu odiava ter de usar rosa da cabeça aos pés, mas suportava porque gostava das aulas! Eu ganhava todos os presentes em cor-de-rosa por ser bailarina o que me levava a um ciclo infinito de cor-de-rosa, já que me viam de rosa e achavam que eu amava rosa, pra sempre, amém.

Por fim…

Há homens que julgam a mulher por ser emotiva, por ser menos forte fisicamente, por ser bela – e se aproximam dela simplesmente pelo fato de ser maravilhosa e atraente, se esquecendo de querer saber todo o conteúdo inteligente que seu cérebro, mais belo ainda, pode produzir.

Há homens que julgam a mulher por ser aquela que dá conta do lar, mas olham para ela com desprezo, porque quando veem a colega de trabalho gostosona e que trabalha super bem, com excelência, consideram-na superior a sua própria esposa, e podem pensar: “minha esposa nem trabalhar, trabalha, fica em casa e nem a comida faz bem!”.

Há homens que julgam a mulher por fazer tudo: trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, do relacionamento, trazer dinheiro pra casa. Ele pensa “ela acha que pode fazer de tudo” e em vez de dividir o peso, o julgamento acaba sendo: “ela poderia abrir mão de algo, exagerada”.

Mas não foquemos nos julgamentos. Nós, mulheres, precisamos saber o nosso valor e olhar para as ameaças sabendo que Deus é nosso Pai. Temos de descobrir nossa identidade e, mesmo que os outros não aceitem, devemos ter paciência e sabedoria pra dizer o que deve ser dito, mas na hora certa. É preciso evitar responder com ira carnal, de forma negativa, mesmo quando temos razão, e procurarmos virar a mesa apenas quando a ira estiver no centro da vontade de Deus . Peçamos a Deus mais paciência, amor e atitude, porque Ele nos fez para andarmos juntas aos homens — e os homens juntos a nós, nos valorizando e nos dando o espaço que devemos ocupar. Assim, poderemos crescer juntos, com nossas características, fora da caixinha de padrões impostos, cada um dando de si e aprendendo com os outros, indo além das acusações e buscando a transformação.

 


Marina Mutuzoc tem 22 anos, participou da ABU na EACH/USP, em São Paulo. É bailarina clássica, formada pela Royal e fez parte de grandes companhias de dança profissionais. É também formada em Têxtil e Moda pela USP, fez intercâmbio em Portugal aprendendo Design de Moda. Já aprendeu muito sobre padrão de beleza, processos criativos e tem uma mente em um turbilhão de ideias e criações. Vai se casar com um homem incrível que a valoriza em todas as suas loucuras e a ajuda a voar com os pés no chão. Está aproveitando esse espaço pra recomendar a leitura do livro O Gosto de Montesquieu, porque “o gosto se discute, sim!”.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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