A Terra das Bonecas

Tem sido difícil admitir, mas tenho uma confissão a fazer: tenho vivido há muito tempo em um lugar  chamado “Terra das bonecas”.

Nessa terra, nós mulheres temos um padrão de beleza a seguir.  Ainda não sei como exatamente ele é, mas afirmo: aqui as brancas e magras tem preferência.

Pra manter as coisas em “ordem”  na Terra das bonecas, a mídia e o mercado investem pesado na campanha do Embonecamento.

Não é de hoje que observo que essa campanha está tomando proporções cada vez maiores. Além das sobrancelhas impecáveis, pra ser considerada “bonita” aqui, é necessário ter uma pele perfeita. Nada de espinhas, pés de galinha, verrugas, manchas na pele, sardinhas. Pra “resolver” esse problema então, assim que percebemos o menor vestígio de imperfeição, somos apresentadas ao fantástico e obsessivo mundo da indústria da beleza, onde não há nada que um bom (e caro) cosmético, ou tratamento estético não resolva.

O mesmo fenômeno se estende ao corpo. É sútil o processo da percepção de que se tem um corpo não ideal – fora do padrão (o caso da maioria das habitantes dessa terra). Estamos falando de pernas muito finas, ou muito grossas, seios grandes ou pequenos demais, ombros largos e pernas finas, alta demais, baixa demais – eles nos ensinam a sermos insatisfeitas até mesmo com a nossa própria genética. E o processo de descobrimento das soluções também acontece nesse caso.

Então percebi, que para nós, por causa de nós, e por nós é que existe a indústria das cirurgias plásticas, das lipoaspirações, do botox, do crescente  número de academias por metro quadrado, a indústria da moda, a mídia, os remédios e principalmente – os antidepressivos. Tudo isso e muito mais gira em torno de nós – as mulheres imperfeitas.

Convém ressaltar, que a minha oposição não se refere a questões de saúde, e muito menos a busca do bem-estar feminino por meio da aparência, pois sim – isso também é importante.

O grande problema do fenômeno embonecador de mulheres, é justamente o padrão que ele busca: a BONECA. O resultado deste fenômeno, não é uma sociedade de bonecas, mas sim uma população de mulheres cada vez mais infeliz e doente por não conseguir alcançar este padrão.

A terra das bonecas é um espaço hostil e é real! Suas implicações afetam e influenciam diretamente o interior feminino, e transformam sua forma de enxergar o mundo e a si própria.

Quando se está na terra das bonecas,  não há espaço para as diferenças, para os traços sutis da herança genética, pra auto-aceitação, amor próprio e um espírito confiante. Há uma constante propagação de ideias de rivalidade baseados em julgamentos superficiais, uma espécie de ditadura da beleza.  É um lugar de mulheres solitárias. A terra das bonecas é bonita apenas pra quem vê de fora.

É por isso que decidi participar da construção de um novo lugar, dentro e fora de mim. Um lugar de aceitação, de cumplicidade, profundidade, justiça e amor. Um lugar de reencontro e convívio com o grande arquiteto da construção: Jesus. Um lugar verdadeiramente BELO, onde minhas irmãs e irmãos tem sido as pedras vivas desta maravilhosa edificação.

Talvez essa Nova Terra demore para ficar pronta. Pode ser que ela esteja sempre em manutenção e nunca se conclua no plano terrestre. Mas será um lugar bom de se estar, onde toda mulher está convidada a entrar e a iniciar construções (e desconstruções) mais saudáveis dentro (e fora) de si.

 


Luísa Soberano é estudante de Artes Visuais da FURB. É discípula, artista, ABUense, trabalhadora e muito mais.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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