Lugar de Maria é na cozinha?

Ou: um convite para aquelas que ainda defendem Marta a se colocarem no lugar de Maria

Diz a verdade: você também não vai muito com a cara de Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro, não é? Ela deixou a irmã trabalhando sozinha com a casa cheia de visitas, com certeza não lavou nenhum prato e nem deve ter esquentado a água do café. Ficou lá, curtindo a galera, enquanto sua irmã suava a camisa. Sabemos que são irmãs de Lázaro, mas não pensamos “ah, Lázaro também deveria ter ajudado!”, talvez você até justifique corretamente por uma questão cultural: “Cuidar dessas coisas era tarefa da mulher na época, um homem realmente não faria isso, mas Maria que abandonou a irmã sabendo que nenhum homem a ajudaria”.

É muito comum questionarmos a preguiça de Maria, sua falta de cumplicidade com a irmã, sua folga e falta de vontade que deixou Marta cheia de tarefas, sem tempo pra descansar. Com isso, simpatizamos com Marta. Queremos abraçá-la e dizer: “Tem razão. É muito serviço! Tua irmã é folgada, ela não teve a menor compaixão! Tadinha de você, cuidando de tudo sozinha.”

Ninguém gosta de Maria

Rebeca mostrou sua indignação: “Eu entendo Marta!”, ela dizia, defendendo a hospitalidade e o espírito de serviço da irmã de Maria. Era mais um estudo na ABU FFLCH (USP-Cidade Universitária) em que Raphael Freston levava um trecho com uma provocação, e quem falava era Rebeca, uma fofa estudante do primeiro ano. A conclusão era que Maria, aquela folgada, não ajudou a irmã nem um pouco! Jesus não devia ter dado um mínimo apoio ou reconhecimento pra Marta? A inquietação surgiu quando estávamos estudando Marta e Maria em comparação com a parábola do Bom Samaritano, contada logo antes na narrativa de Lucas, capítulo 10.

Foi a segunda vez que vi falarem sobre Marta e Maria trazendo a perspectiva do Bom Samaritano para dentro do quadro. A primeira tinha sido na Semana de Reflexão Teológica de 2013 da ABU São Paulo, levada por Josué “Caps” Bratfich, obreiro da ABU São Paulo e Mato Grosso do Sul. Depois de um estudo sobre a parábola, Josué falou sobre como ela nos ajuda a compreender o relato de Marta e Maria. O exemplo do samaritano, dado a um mestre da lei que queria detalhar a lei e se provar um bom praticante dela enquanto testava a Jesus, fala de servir ao próximo, mesmo sem conhecer a este, mesmo colocando-se em risco.

Logo em seguida, vem Marta, quem provavelmente tinha ouvido a história repetida pelos discípulos ou pelo povo. Admiradora de Jesus, Marta quer mostrar que ama e serve ao próximo, então quando recebe Jesus em sua casa dedica-se longamente aos serviços de hospitalidade. A invisibilidade de quem está na cozinha está ali em contradição com o desejo dela em mostrar o serviço e, assim, mostrar que cumpre a lei. Acontece que não somos capazes de cumprir a lei por nós mesmos, não sabemos amar plenamente o próximo, dependemos da graça e do perdão de Deus. Mas Marta ainda não tinha percebido isso.

Ela fica decepcionada em não ser reconhecida, e também começa a julgar sua irmã e a comparar-se a ela, vendo-se como superior. Com esse sentimento, ela aborda Jesus e diz: “Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude!” (Lucas 10:40b). Como quem diz: “Você não está vendo o meu esforço e a folga dela? Não está vendo minha bondade, e a falta de obediência dela? Pelo menos faça com que ela me ajude! É o mínimo”.

Porém, ao contrário do que Marta esperava, Jesus defende Maria e mostra como uma só coisa é necessária. O serviço é importante, mas não é o esforço individual que irá salvá-la. Nosso serviço (ou nossa teologia, ou nossa boa-vontade) não pode nos salvar do nosso pecado: só o sacrifício de Cristo faz isso. Além disso, não devemos desprezar quem serve e obedece de formas diferentes de nós, enquanto o próximo do samaritano era distante de sua realidade, a próxima de Marta, a quem ela precisa amar, está ao seu lado e tem o mesmo sangue (falta-lhe sororidade, não?).

Maria se coloca no lugar do homem roubado, e não do bom samaritano. Por isso, aos pés de Jesus, ela busca a cura para as feridas, o pagamento do preço de seus pecados, a “boa parte”.

Foi mais ou menos isso o que Josué compartilhou conosco naquela SRT, e eu tinha ficado bem impressionada. O que eu não esperava era que eu ainda veria mais coisa na história das irmãs: além da nossa dependência em Cristo até pra aprender a amar de forma desinteressada, encontrei o empoderamento de uma mulher que buscava sabedoria.

Lugar de mulher é na educação

Naquela época, as mulheres eram responsáveis pelas tarefas de cuidado com a casa e pela hospitalidade. Podemos nos lembrar da mulher exemplar (ou virtuosa) de Provérbios 31:10-31, que garantia as provisões, levantava cedo para preparar comida, cuidava dos familiares e inclusive garantia que estavam bem abrigados. (A gente costuma esquecer, mas este mesmo texto fala que ela também era responsável pelas decisões de propriedade e negócios, trabalhava e era forte, administrava o comércio, falava com sabedoria e ensinava com amor.) Naquela cultura, o cuidado com a casa ficou exclusivamente para as mulheres – o que não é muito diferente do que ainda se espera de nossa geração, não é? Talvez por isso tenhamos passado tantas gerações entendendo Marta e rechaçando Maria.

Porém, as mulheres não eram muito bem-vindas no espaço do debate religioso, no âmbito educacional. Na tradição judaica, ao que tudo indica, a educação era feita em casa, tanto pelo pai quanto pela mãe (Pv 6:20), no Antigo Testamento também não há indicações de que as mulheres deveriam ser excluídas. Porém, vemos que na época de Jesus existia centros de educação de público mais masculino, formação formal que surgiu depois do exílio dos judeus. Embora nem todos os homens tinham acesso a essa educação formal (no caso, religiosa), aparentemente as mulheres não eram consideradas aptas para participarem. Algumas contrariavam isso, como a profetisa Ana (Lucas 2:36-38), que não saía do templo (pra não falar da juíza Débora, mas ela era de outra época).

Entretanto, em geral, os homens tinham uma educação básica dos escritos e da história judaica, indo à sinagoga aos 13 anos para ler a Torá e sendo os únicos que poderiam participar das discussões. As mulheres podiam ser ensinadas informalmente em casa, mas não eram muito bem aceitas nos círculos educacionais e de debate religioso, pois, na reestruturação da religião judaica do pós-exílio, este não era visto como o lugar delas. Ainda que não haja indicações para essa exclusão da parte da lei de Deus, a cultura moldou dessa forma. Elas eram isoladas em galerias onde poderiam apenas observar e orar, e alguns rabinos diziam que não se devia ensinar às mulheres. Apesar dos rituais levíticos serem complicados para as mulheres, por serem consideradas impuras devido ao seu ciclo menstrual durante vários dias do mês, a maior parte da evidência dessa exclusão encontra-se na tradução oral registrada, e não no texto bíblico em si.

Essa situação de exclusão educacional feminina não é muito longe dos dias de hoje, sendo que no Brasil as mulheres ganharam o direito citado ao ensino superior, por exemplo, só em 1879 com a Reforma do Ensino Primário e Secundário do Município da Corte e o Superior em todo o Império brasileiro. “A primeira mulher brasileira a possuir um diploma de ensino superior foi Maria Augusta Generoso Estrela, que se graduou em Medicina no ano de 1882, porém nos Estados Unidos, não no Brasil. Desta forma, em 1887, Rita Lobato Velho Lopes (1867-1954) se torna a primeira mulher a se graduar no País na Faculdade de Medicina da Bahia”, conta a professora Nailda Marinho (UniRio) em entrevista sobre um estudo no assunto à FAPERJ. Hoje, somos maioria, de acordo com o Censo da Educação Superior de 2012 (Inep): são 3.286.415 matrículas femininas, contra 2.637.423 masculinas.

Como Emily Monteiro nos contou em seu texto sobre a mulher no ensino superior, muitas vezes, por mais que tenhamos conquistado esse espaço em números, somos ameaçadas através de piadas machistas de professores e até por abusos sexuais que fazem de nossos próprios corpos femininos a nossa desvantagem no espaço educacional. E isso não precisa chegar no ensino superior: recentemente uma aluna de 12 anos foi abusada três vezes num dos colégios mais prestigiados do Brasil.

Ainda assim, não vemos Maria com bons olhos. Por que será? Maria estava num espaço onde a mulher não era aceita cultural e historicamente. Jesus provavelmente ensinava aos seus discípulos, pois o texto diz que “Maria (…) ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra”. Maria não apenas sabia que a salvação vinha de Jesus e não da prática da lei, como também queria aprender e crescer. Ela ocupou um espaço que lhe era negado, e até mesmo sua irmã queria negá-la a educação impondo o serviço doméstico. Porém, Jesus mostrou que a prática do debate religioso que excluía mulheres não era boa, e empoderou Maria, legitimando sua atitude.

De volta ao estudo na FFLCH, Rebeca ainda mostrava seu desconforto com Maria e sua compreensão da atitude de Marta. Na nossa sociedade, ainda reproduzimos esse padrão de separação dos espaços. Mas foi ninguém menos que Jesus quem validou o comportamento de Maria, mostrando não somente as intenções legalistas de Marta (“olha quanto eu faço!”) quanto também valorizou e assegurou o apreço de Maria pela única coisa necessária, pela melhor parte, que envolvia aproveitar da presença do Messias e aprender de sua sabedoria. Repito: o próprio Jesus validou Maria, reconheceu o coração dela, e repreendeu a Marta. Por que teimamos em questionar as palavras do Mestre?

Mais tarde, alguns registros dizem que foi Maria foi quem derramou o frasco de perfume que preparou o corpo de Jesus para seu sepultamento (João 12:1-8), sendo talvez a única que havia compreendido que era preciso que Jesus morresse e que este momento estava chegando. Todos os discípulos não tinham entendido, mas Maria já estava preparando o momento em que a morte de Jesus na cruz (e sua ressurreição) levaria todos os nossos pecados e tornaria a vida eterna possível para nós, respondendo finalmente à pergunta do mestre da lei.

Por mais que nossa sociedade ainda diga que lugar de mulher é na cozinha, mesmo sendo elas maioria nas universidades, foi o próprio Cristo quem nos abriu esse espaço. E é aos pés dele, ouvindo suas palavras, que podemos finalmente compreender que não adianta todo o nosso serviço, ainda dependeremos da sua graça para alcançar a vida eterna. Rebeca, querida, escolha a melhor parte, escolha a única parte necessária, que é estar aos pés do nosso salvador e deixá-lo nos empoderar para que possamos crescer e aprender, brilhando então a luz do Pai!

Agradecimento: ao Caps, por emprestar a exposição bíblica da SRT/2013; e ao Son, por me ajudar a verificar os pontos históricos e esclarecê-los.

Referências não mencionadas (em inglês, foi mal!):
http://jwa.org/encyclopedia/article/torah-study
http://www.bible-history.com/court-of-women/women.html
http://www.biblestudytools.com/dictionaries/bakers-evangelical-dictionary/education-in-bible-times.html


Jessica Grant é jornalista e tradutora freelancer, casada com Lucas, congrega na Igreja Metodista Livre da Saúde e participa da ABUB desde 2006.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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