Ciência: substantivo feminino

Lucas já nasceu grande. Cresceu em força e altura, e todos tinham certeza de que ele seria um incrível jogador de basquete – afinal, ele era tão alto. Por toda a sua vida ele ouviu falar sobre como seria uma lenda nas quadras. Lucas cresceu, jogou basquete, mas sempre se sentia um jogador medíocre. Ele odiava aquilo. Seu sonho de verdade era tornar-se chef de cozinha. Mas como dizer para todas as pessoas que disseram que ele tinha de ser um grande jogador de basquete que ele, na verdade, não tinha coordenação motora para o esporte?

Lucas sabia que chefs altos como ele ganhavam menos. Em alguns lugares no Reino Unido, por exemplo, a diferença salarial chega a ser de R$ 29.354,00 a R$ 123.286,78! Ele também sabia que apenas 30% das pessoas que trabalham com cozinha eram tão altas quanto ele. Muitos de seus amigos excepcionalmente altos também tiveram problemas com chefs de tamanho ridiculamente mediano roubando suas receitas e publicando-as. Então, deparou-se com as duas opções: entregar-se às expectativas das pessoas no basquete (ainda que medíocre, pelo menos seria mais fácil), ou encarar as barreiras na gastronomia para satisfazer seu coração.

Lucas não é real e, não, a indústria da cozinha não tem problema algum com altura. Mas as estatísticas apresentadas são reais, e poderiam ir além (http://www.nature.com/news/inequality-quantified-mind-the-gender-gap-1.12550). Essa é apenas uma metáfora para mulheres, e a cozinha é, na verdade, um laboratório. É assim que nos sentimos enquanto mulher adentrando a ciência. Essa é a luta diária e real que toda mulher sabe que terá de enfrentar se decidir ir contra as profissões “mais femininas”.

Para um grupo de pessoas que afirma valorizar a verdade e buscar imparcialidade nas suposições até a análise dos dados ser feita, a comunidade científica pressupõe muita coisa sobre as minorias dentro do seu grupo.

A sociedade cobra de nós a responsabilidade de viver de acordo com as expectativas dos estereótipos em que aparentemente nos encaixamos, quando, na realidade, nossa experiência individual leva-nos a sermos bem diferentes do que nos é atribuído. Infelizmente, mulheres ainda lutam contra vários estereótipos no espaço de trabalho, e a ciência não é diferente.

Muitas vezes as mulheres são consideradas impróprias para o trabalho científico por causa de diferenças entre o estereótipo sobre o pensamento feminino e masculino. Sim, homens e mulheres possuem cérebros diferentes, não é novidade que durante o desenvolvimento temos diferentes formações neurológicas e outra distribuição de neurônios, mas a ideia de que um tipo de cérebro é melhor do que o outro é, no mínimo, uma suposição ingênua, ou, pior, claramente tola.

“As mulheres são muito emocionais. Elas não conseguem ser imparciais para produzir e avaliar informações científicas.”

Sim, nós, mulheres, precisamos lutar todo mês contra picos de hormônios muito maiores do que a flutuação hormonal que um homem sofre durante toda sua vida. No entanto, ter emoções não prevalece sobre todas as outras partes funcionais de nosso cérebro. Se os hormônios são realmente um problema, seria possível dizer que os homens são inaptos ao trabalho de pesquisa, pois, com toda a testosterona que possuem, aumenta a tendência de ficarem nervosos e, com isso, a avaliação de dados poderia ser atrapalhada se acharem que certo resultado pode ser diferente do que esperado. Homens e mulheres possuem dificuldades diferentes, mas isso não significa que um é mais ou menos apto para determinada carreira.

“Homens focam em uma tarefa e se tornam especialistas, mulheres pensam em muitas coisa ao mesmo tempo e não conseguem ser tão boas.”

Focar muito em uma tarefa/habilidade é considerada uma característica masculina e, quase que automaticamente, é considerada melhor. Mas a minha pergunta é: em primeiro lugar, por que é considerada melhor?

Antes de tudo, nem todas as pessoas encaixam-se nos estereótipos de gêneros. E, mesmo se acreditarmos que alguns estereótipos existem por determinados motivos, isso ainda não afeta o meu argumento principal. No livro O que há de errado com o mundo, o autor G.K. Chesterton faz uma afirmação extremamente machista dizendo que as habilidades das mulheres no trabalho doméstico são muito mais impressionantes do que as dos homens; enquanto o homem precisa focar só na carreira que escolheu, a mulher precisa ser cozinheira, faxineira, filósofa e teóloga para as perguntas das crianças, e ainda cuidar dos filhos tudo ao mesmo tempo. Mas a minha pergunta é: quem decidiu que a habilidade de ser multitask e de conectar diversos campos de conhecimento precisa ser restringida ao ambiente doméstico? Muitas habilidades e tendências de como uma mulher trabalha podem ser extremamente úteis, especialmente com o aumento recente da necessidade de pesquisadores multidisciplinares. Quer um exemplo? Marie Curie. Ela ainda é a única pessoa a ganhar dois prêmios Nobel em duas áreas diferentes, química e física.

“As mulheres vão tentar se favorecer usando a aparência ou chantagens emocionais.”

Numa entrevista, o cientista e professor ganhador de Nobel Tim Hunt afirmou que não gosta de ter mulheres em seu laboratório: “Elas se apaixonam por você, você se apaixona por elas, e quando as criticas chegam, elas choram”.

Não posso mentir: já vi mulheres que tentaram ganhar notas maiores e passar nas disciplinas usando saia curta, decote, chantagem emocional ou choro. Também vi professores homens cedendo. Por outro lado, também vi estudantes homens tentarem elogiar docentes para serem aprovados numa matéria, e o professor ser inflexível. O problema como um todo não é uma questão de gênero, mas de ética.

E no caso das mulheres que tentam usar o estereótipo feminino a seu favor, isso ocorre apenas porque houve reforço positivo quando conseguiram o que objetivavam por estes meios; recorrem a isso porque se entregam à noção em que começaram a acreditar em algum momento de que há mais valor em atingir estes objetivos através destes meios que as desvalorizam e prejudicam estereotipando seu gênero, do que fazendo o trabalho bem feito e eficientemente. O problema está tanto em quem aceita isso (e reforça a ideia de que apelar sexual e emocionalmente é bom) quanto em quem recorre a essas táticas antiéticas. Não no gênero.

“Ciência e maternidade não combinam”

Conheço uma pesquisadora que estava grávida quando defendeu sua tese de doutorado e sofreu ao ouvir em tom sarcástico, tanto de homens quanto de mulheres, que ela estava sendo “inteligente” em defender a tese grávida, fazendo com que as pessoas sentissem pena e “pegassem leve”. Esta mesma mulher teve de sair mais cedo do que esperava de uma reunião pois seu filho havia adoecido e, no mesmo contexto em que algumas semanas antes as pessoas viram um homem sair para buscar o filho como um “pai amável e cuidadoso”, ela foi tratada negativamente e as pessoas falaram o quão ruim era deixar que mães trabalhassem fora do ambiente doméstico.

Ser mãe, pesquisadora e palestrante certamente não é a coisa mais fácil do mundo, mas se ser um pai, pesquisador e palestrante é, então definitivamente há algo de errado.

“As mulheres são mais aptas para os trabalhos que envolvem empatia e apego emocional, como enfermagem e ensino, e não pensamento lógico ou posições de poder.”

Da última vez que chequei, todos os seres humanos possuem sentimentos e, repito, talvez estes podem ser mais fortes em certos momentos do mês para as mulheres. Porém, se nossos sentimentos atrapalham nosso pensamento lógico e nossas decisões em situações de poder, definitivamente há algo de errado. E o erro não está em ser um homem ou uma mulher que está tomando a decisão, mas em alguém se colocar (e colocar quem trabalha consigo) vulnerável a algo tão volátil quanto sentimentos. Mais do que um diagnóstico nas questões de gênero, é um diagnóstico de questões sociais que classificam sentimentos como algo ruim (a serem ignorados) ou bom (a serem ouvidos a todo instante). A questão é: sentimentos existem e devem ser reconhecidos e lidados com, mas o que é certo e errado é o que fazemos com eles.

“O trabalho de um homem é mais confiável.”

Um pesquisador e professor disse isso em sala de aula para uma amiga minha. Apesar de não ser algo dito com frequência, é fato que muitos dos trabalhos pesquisados por mulheres e muitas das descobertas por mulheres nos campos de astronomia, matemática, física e biologia só foram conhecidos e considerados relevantes quando publicados por homens que roubaram e publicaram seu trabalho e suas ideias. Boa parte dos créditos ainda não é atribuído corretamente às pesquisadores mulheres. Ah, e por sinal, vários artigos desse pesquisador foram baseados no trabalho de sua esposa, e ele publica várias vezes junto com ela.

Eu poderia falar de mais experiências que vi e vivi sobre o que significa ser uma mulher na ciência. A verdade é que, se há mulheres na ciência, é porque estamos sobre o ombro de gigantes, das mulheres que lutaram contra as expectativas e convenções sociais para provar que nós também podemos investigar a verdade e queremos participar das pesquisas sobre o universo e as leis que o governam. Mas ainda há muito a ser feito nas próximas gerações para que este diálogo não seja mais necessário.

Mas tem algo que repeti várias vezes no texto e com o qual a sociedade e a comunidade científica ainda se debatem: homens e mulheres possuem dificuldades e benefícios diferentes a partir de como seus corpos e mentes funcionam. No entanto, isso não significa que são melhores ou piores na essência, apesar do que dizem. No fim, somos apenas diferentes e as diferenças só podem enriquecer e ajudar o campo científico.

Talvez, da próxima vez, antes de observar através um microscópio o menor fungo que existe ou olhar através de um telescópio os corpos celestiais, nós podemos parar um pouco para apreciar e entender a complexidade da criatura humana maravilhosa que está de jaleco ao nosso lado e que não é definida por rótulos ou estereótipos, e ver com isso que, assim como nós, ela também é humana. Talvez, ao aprender a ver o outro de forma mais precisa, juntos poderemos trabalhar de forma melhor para compreender este cosmo lindo e complexo no qual estamos.


Melissa Grant está terminando graduação em Ciência e Tecnologia na UNIFESP e cursará mestrado em Neurociência na Irlanda. Participou da ABU São José dos Campos e da Diretoria da região SP/MS. Gosta de chá preto com leite acompanhado de bons livros e conversas profundas sobre a vida, o universo e tudo mais.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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