Por menos “Mulheres Nota Mil” e mais “Homens Valorosos”

Antes de tudo, gostaria de agradecer às idealizadoras do projeto Redomas pelo convite para escrever este texto. Foi um prazer e também uma grande oportunidade que tive para pensar sobre as minhas próprias experiências e minha trajetória de vida, como mulher e cristã. Ler tantos relatos emocionantes e libertadores foi bastante encorajador! Por isso, quero parabenizar a todas as meninas envolvidas nesta iniciativa e agradecer pela coragem de compartilhar suas histórias, dores, conquistas, sonhos e lutas! Que outras mulheres (e também homens) sigam sendo tocadas e sensibilizadas através dessas narrativas.

Bom, tenho 31 anos e nasci em Belo Horizonte, numa época em que ter telefone em casa era luxo e as pessoas faziam consórcio para comprar vídeo cassete (sim, como esses consórcios para adquirir carros ou motos hoje em dia, rs!). Na minha casa, meus pais sempre me estimularam a ler e nós assistíamos a muitos filmes juntos. Clássicos como “Spartacus”, “E o Vento Levou”, “Quo Vades”, além dos lendários “Os Goonies”, “O Pequeno Príncipe” e “A fantástica fábrica de chocolates” fizeram parte da minha infância. Muito da minha imaginação e percepção da realidade vinha desses filmes e de livros, como “Os desastres de Sofia” e as “histórias de princesas” (Branca de Neve, Bela Adormecida, Cinderela etc) que eu havia ganhado do meu avô.

Quando eu tinha sete anos de idade, lembro que um filme me fez perceber, pela primeira vez, que havia um “tipo” de mulher “ideal” e considerada “perfeita”. Era uma comédia/ficção chamada “Mulher Nota Mil” (em inglês, “Weird Science”, 1985) que narrava a história de dois adolescentes que, após serem rejeitados pelas garotas da escola, decidiram “fabricar” uma mulher usando um computador (a grande novidade do momento, rs!). Eles, então, selecionaram recortes de revistas masculinas (com rostos, pernas e lábios de mulheres); conectaram cabos do computador a uma boneca da Barbie; e, à medida que a imagem da “mulher ideal” (branca, alta, magra, com lábios carnudos) era projetada no monitor, eles a alteravam, de acordo com as suas preferências (por exemplo, aumentando o tamanho dos seios). Eles também deram à mulher um cérebro muito inteligente, alimentado com informações de mentes de homens brilhantes, como Albert Einstein e Beethoven. Ao final do experimento, um forte raio acaba por atingir a casa dos meninos e, num passe de mágica, a “Mulher Nota Mil” – chamada Lisa – ganha vida e aparece diante deles, à disposição de seus “criadores”!

Lembro que esta foi a primeira vez que me dei conta do que seria uma mulher “linda”, “desejável” (pois todos os meninos se apaixonavam por ela) e “invejável” (já que as garotas da escola morriam de ciúmes quando ela passava)! A partir daí, comecei a me indagar sobre como seria a minha aparência quando eu crescesse… Ficava me perguntando: “Hum, então é assim que a gente fica quando vira adulta? Será que vou ser desse jeito?”. Pouco depois, porém, comecei a comparar o estereótipo da “Mulher Nota Mil” com os biotipos da minha mãe e de minhas tias: todas com lábios finos, estatura baixa, pernas grossas, seios pequenos… Muito diferente do padrão “Barbie” que aparecia no filme. Para minha tristeza, constatei em pouco tempo que eu não seria como a Lisa quando crescesse.

O tempo passou e, desde então, são incontáveis os momentos em que me percebi tentando corresponder a um determinado padrão de beleza ou de comportamento considerados “adequados” e “ideais” para uma menina/moça/mulher. Já fui criticada pela minha forma de andar, pela minha postura ao sentar, pela roupa que vestia, por não gostar de cozinhar, por não saber costurar etc. E até hoje não sei andar de skate, bicicleta ou patins porque aprendi que “uma mocinha não pode ter cicatrizes nos joelhos”. Muitas vezes me senti frustrada por ser proibida de fazer “coisas de menino” ou por não corresponder às expectativas dos outros. Por outro lado, quando eu agia conforme o esperado, percebia que era recompensada e parabenizada (ao ficar quietinha e em silêncio na igreja ou na escola, por exemplo).

No final da adolescência, quando comecei a cursar História na universidade, descobri que eu não só poderia como deveria falar e ter opinião própria. “Problematizar” era a palavra preferida dos meus professores e colegas. Nessa época também conheci a Aliança Bíblica Universitária e descobri neste ministério um espaço onde minhas dúvidas, questionamentos e angústias poderiam ser revelados e acolhidos. Tanto na faculdade como na ABU havia espaço para debate e discordância, mas no início eu era muito tímida e preferia ficar em silêncio, pelo simples medo de sofrer algum tipo de rejeição ou censura.

Acho que eu não tinha muita consciência de como a minha condição de mulher afetava a minha realidade e determinava, em grande medida, a forma como eu me relacionava com os/as outros/as e como eles/elas se relacionavam comigo. Certo dia, numa reunião de jovens, sobre políticas públicas, senti o desejo de opinar sobre um determinado assunto. Quando me deram a palavra, meu coração estava a mil e minha voz saiu baixinha e trêmula. Imediatamente, uma mulher, não muito discreta, me interrompeu dizendo: “Querida, fale mais alto, fale grosso, fale forte! Sei que você aprendeu a vida toda a ficar em silêncio, mas nós queremos te ouvir! A sua opinião é tão importante como a de qualquer um ou qualquer uma aqui, está bem?”. Confesso que na hora fiquei assustada, constrangida e acho que tremi ainda mais ao falar, mas saí daquela reunião pensando no que aquela mulher havia dito e feito. Eu ainda não havia estudado o conceito de “empoderamento”, mas, na prática, ele já estava surtindo efeito na minha vida através de intervenções e provocações que surgiam nos novos espaços que passei a frequentar (universidade, grupos de juventude) e do meu envolvimento com o ministério estudantil. Acabei me tornando líder do núcleo da ABU no Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, aprendi a dirigir estudos bíblicos e a falar em público, fui presidente do Grupo Base da ABU – Vitória (ES), fiz várias viagens sozinha e descobri que eu era capaz de fazer coisas que eu nunca havia imaginado!

É evidente que ao longo de minha trajetória, eu também encontrei machismo dentro da ABU e de outros espaços cristãos, infelizmente. Isso se revelou, muitas vezes, por meio de comentários jocosos sobre o ministério feminino ou até bem intencionados sobre o meu casamento e as inúmeras viagens que preciso fazer Brasil afora. Algo do tipo: “Seu marido deixa você ficar fora de casa tanto tempo?”, ou “Quando você viaja, quem faz a comida pro seu esposo e lava as roupas dele?”. Entendo que muitas pessoas querem ajudar quando fazem comentários dessa natureza, mas não percebem o quanto estão sendo preconceituosas e machistas!

Além de ouvir essas coisas (que não sei se meus companheiros obreiros da ABUB também ouvem), acabo enfrentado, como mulher, riscos e perigos que a maioria dos homens não enfrenta. Recentemente, numa viagem a trabalho, que fiz de ônibus e à noite, acordei assustada ao ver que o homem sentado ao meu lado, na cadeira do corredor, estava inclinado sobre mim, bem pertinho do meu pescoço, sussurrando alguma coisa que não compreendi ao meu ouvido! Dei um pulo da poltrona, me encostei na janela do ônibus e perguntei o que ele estava fazendo e falando comigo. Ele, sem graça com o meu escândalo e a minha reação, disse que “estava passando mal”. Eu ameacei chamar o motorista e ele disse que “não precisava, pois já estava melhorando”, e se afastou de mim. Não preciso dizer que passei o restante da viagem acordada e alerta.

Enfim, há um sem número de situações de abuso, violência, desrespeito, preconceito e humilhação pelas quais nós, mulheres, passamos todos os dias. Todas elas nos machucam e nos magoam profundamente. Tanto as ações “grandes” e declaradas, como as “pequenas” e veladas têm o poder de nos afetar e ferir. Não é exagero, tempestade em copo d’água, nem “mimimi”. É a realidade que enfrentamos cotidianamente. E quando a violência e a incompreensão partem de alguns de nossos irmãos em Cristo, a dor e a decepção são ainda maiores…

Mas eu gostaria de encerrar este texto com um último relato e uma mensagem de esperança. No mês passado, em um encontro regional da ABU, todas nós, meninas e mulheres presentes, fomos maravilhosamente surpreendidas por um simples, mas profundo e corajoso, gesto dos rapazes ABUenses que ali estavam. Eles se dirigiram à frente da plenária e, individual e coletivamente, reconheceram que muitas de suas atitudes (e omissões) nos ofenderam como mulheres e insultaram ao Criador. Por isso, eles estavam ali, humildemente, reconhecendo seus erros, acolhendo a nossa dor e pedindo o nosso perdão. Não direi que estes são os verdadeiros “Homens Nota Mil”, porque seu valor é incalculável, mas quero chamá-los de “homens valorosos”, pois refletem, através de suas vidas, o caráter e o amor de Cristo pela Igreja.

Foi um momento emocionante e especial, em que muitas lágrimas foram derramadas, por meninos e meninas, e a atmosfera se encheu da Graça e do Amor de Deus, pois é Ele quem nos purifica e nos redime do pecado e nos transforma em um só Corpo. Reconciliados nEle, pudemos experimentar mais um pouco da unidade e da liberdade que há em Cristo Jesus! Minha oração e esperança são de que este e outros projetos desenvolvidos pelos estudantes da ABU, mulheres e homens, continuem sendo usados pelo Senhor para promover restauração e reconciliação em todas as nossas relações! Que Sua Graça e Misericórdia estejam sempre sobre nós! Amém.


Sarah Nigri de Angelis é Historiadora, participa da ABUB desde 2003, é cruzeirense e adora tomar sorvete, dormir e viajar (não necessariamente nesta ordem)! É muito feliz ao lado de seu marido, Rafael, que também participa da ABU e com quem é casada há pouco mais de um ano. Eles moram em Botucatu, no interior de São Paulo.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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