Eu me descobri mulher negra

Na primeira memória que tenho sobre um reconhecimento da minha cor de pele eu tinha em torno de cinco anos. Lembro-me de estar na porta de casa enquanto o sol batia na minha pele e meu olhar de decepção e conflito sobre ela: nem sou tão negra assim! Foi assim por muito tempo e eu preferia não pensar sobre isso. Hoje relembro de cenas da minha infância e de onde viera aquele pensamento que fazia eu ter vergonha da minha negritude.

Na igreja sempre ouvia as músicas e palavras na salinha infantil na escola bíblica dominical e nos domingos à noite que falavam sobre o valor que temos diante de Deus e que Ele não faz acepção de pessoas. E apesar de me sentir acuada e constrangida pela cor preta representar o pecado no “livro sem palavras”, o livrinho das cores, me confortava pensar que “preta” não era minha cor e tinha sido purificada, enfim. Eu cresci morena. E na adolescência começaram os conflitos. Passei a ser uma “menina mulher morena”. E as cobranças começaram: “Onde está o namorado?”, “Pensa em casar com quantos anos?”, “Alisa o cabelo pra ficar mais bonita, vai que arranja um namorado, você é uma bela morena”, “Tem que arranjar um bom homem!”. Eu queria vivenciar isso, mas ao mesmo passo não queria que minha vida se resumisse a um casamento, eu sabia que eu era mais que uma promessa de boa esposa e que minhas próprias aspirações sobre minha trajetória eram tão válidas e importantes quanto a esperança de um matrimônio.

Eu me questionava e isso me fazia crescer, apesar de doer. Afinal, o que se espera de uma boa moça é que saiba ouvir, e se for pra falar algo que seja pra concordar. Nos debates promovidos na igreja sobre afetividade e sexualidade, os rapazes definiam o perfil da boa e pura mulher ou então quem iria querê-la?  As meninas eram rotuladas segundo suas roupas, o volume da sua voz, a maquiagem que usava, seus relacionamentos anteriores e suas habilidades caseiras. Sua espiritualidade definida a partir de como parecia ser. Mulheres podiam ser descartáveis ou não. Segundo eles, dependiam apenas delas e do seu comportamento. Aos rapazes bastavam apenas ter um bom emprego pra sustentar sua mulher. Cada um no seu lugar seguindo seus papéis. O que me incomodava extremamente era essa trajetória pré-definida da mulher, afinal, apesar de achar importante o casamento, só pensar nele era aprisionador, eu queria ir além e queria que minhas amigas também pudessem ser reconhecidas enquanto um ser que tem seus próprios anseios.

A minha visão de que somos todos iguais foi sendo dissolvida frente a realidade das relações desiguais de gênero que se impunham durante minha adolescência e vivência. Não éramos todas iguais e as pessoas tratavam de me lembrar disso, seja por eu ser mulher, seja por eu ser negra. Vivemos numa contínua negação onde a igualdade na diversidade só é palavra, na prática a diferença define a desigualdade e os lugares já estão marcados.

Meu processo de transição capilar foi o pontapé inicial do meu processo de me tornar mulher negra. Daí percebi e fui confrontada com uma realidade que eu ignorava durante minha infância e adolescência: minha pele preta e meu cabelo crespo. A transformação aconteceu de fora pra dentro, pois muitas questões, antes que pareciam não ter a ver comigo, começaram a vir à tona e tocar feridas que foram feitas durante a vida. Essa transformação dizia respeito à minha identidade negra que estava sendo construída ali. Eu tinha dois desafios: lutar por respeito e espaço. Eu não sou só mulher. Eu sou mulher negra. E frente a uma sociedade machista e racista, que confere a mulher um lugar de inferioridade diante do homem, que confere ao negro um lugar de subalternidade e inferioridade diante de pessoas brancas, o empoderamento é necessário.

Entender-me como uma mulher negra foi doloroso e ainda tem sido, pois ver em sua comunidade de fé comportamentos que discriminam é incoerente pois vai contra a própria fé que deveria acolher a todos sem distinção. Numa sociedade que ainda criminaliza pessoas pela pele escura e que ainda perpetua as marcas da escravidão na população negra e pobre, mas que nega e vela seu racismo, é uma questão de resistência entender-se negro e confrontar essa realidade. Nos nossos espaços de convivência somos silenciados quando falamos e ainda temos que ouvir a intelectualidade da mulher negra ser questionada, a estética negra ser rejeitada e inferiorizada, a representação do negro não ser digna, espaços que ainda não ocupamos, pois o acesso é desigual por questões sociais e raciais.

Pra que um corpo seja coeso, o caminho é o diálogo e reconhecimento que somos diferentes, temos necessidades e vivências diferentes. A desconstrução é diária e ainda temos um caminho longo pela frente.

 


Rouseanny Luiza é professora de sociologia em contínua formação, viciada em problematizar, especialista em (confundir) ditados populares, apaixonada por turbantes, estética negra, amante de séries, colagens e mudança capilar.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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