E onde ficam os homens?

Antes de tudo, eu gostaria de deixar claro aqui que estou em um constante processo de desconstrução e construção das minhas ideias e que tenho muito ainda que aprender. Por isso, peço a compreensão caso eu cometa algum equívoco e fale alguma bobagem. Também não sei escrever com palavras bonitas e frases bem elaboradas. Portanto, serei o mais clara e objetiva possível. Enxergo-me como uma permanente aprendiz que, mesmo que não saiba muitas coisas, quer ter a alegria de compartilhar com vocês o pouco que tenho aprendido.

Acredito que a luta feminista deve ser protagonizada pelas mulheres, por motivos óbvios. A construção do movimento feminista deve ser feita por nós porque somos as vítimas da cultura machista ainda presente em nossa sociedade patriarcal e sexista. No entanto, acredito que os homens podem e devem se solidarizar com essa luta e exercer papel de aliados a nós, tendo em vista que eles são potencialmente reprodutores da opressão de gênero. Desse modo, entende-se que a luta feminista é uma luta de todas e todos; porém, cabe ressaltar a desigualdade que há entre os gêneros: um é oprimido, enquanto que o outro é privilegiado. Então, homens e mulheres partem de lugares diferentes e, como consequência, ocupam lugares diferentes nessa luta.

Ao meu ver, é incoerente construir uma luta feminista que esteja disposta a dialogar e a desconstruir o machismo presente na nossa sociedade somente com as mulheres. Se o machismo é reproduzido por meio das relações sociais estabelecidas entre os mais diferentes sujeitos de uma sociedade, é preciso que esses sujeitos, de ambos sexos, ao buscarem desconstruir essa dominação de gênero, construam novas possibilidades de relações pautadas na igualdade entre homens e mulheres. A discussão e a consciência da nossa condição de oprimida e o consequente empoderamento feminino é importantíssimo e crucial para nossa luta, pois, com isso, aprendemos a nos defender melhor da violência que sofremos diariamente. Ao mesmo tempo, é necessário que essas violências cessem. Nesse sentido, não me parece uma boa estratégia separar os homens dessa luta já que eles são os que oprimem e aqueles que consequentemente precisam tomar consciência de suas ações e buscar mudá-las. Afinal, o feminismo luta contra o machismo, e não contra os homens. A figura masculina não é nossa inimiga; na verdade, pode até tornar-se nossa aliada, caso esteja disposta a mudar e a rever suas atitudes.

Aos homens que entendem a necessidade de se aliar a esse movimento, dedico algumas palavras: a solidariedade de vocês com a luta contra a opressão machista deve ir além de suas palavras e de apenas um rótulo de “defensor das mulheres” ou “pró-feminismo”, já que ser machista hoje em dia pega mal. Nem todas as feministas estão dispostas a lidar com a presença de homens na luta pelo direito das mulheres; pois, mesmo que minimamente conscientes, estes muitas vezes tentam dizer o que as mulheres têm que fazer e silenciá-las quando em desacordo. Não sejam colonialistas! Quem decide são as mulheres, não vocês. Querem de fato contribuir para que vivamos em uma sociedade onde exista igualdade entre os gêneros? Mudem suas atitudes; revejam os seus conceitos; repensem os seus princípios. Para facilitar, cito abaixo algumas ações práticas de pequena escala que vocês podem realizar e que podem gerar grandes mudanças na ordem social estabelecida entre homens e mulheres:

  • Antes de tudo, reconheçam os seus privilégios como homem;
  • utilizem seus privilégios sociais e históricos para combater a hierarquia de gêneros e empoderar mulheres;
  • dividam igualmente as tarefas do lar com as mulheres;
  • não relativizem os abusos cometidos por homens e não silenciem as mulheres que os denunciam; a mulher vítima de violência precisa de apoio, e não de julgamento;
  • parem de assediar as mulheres em espaços públicos (na verdade, parem de assediá-las em qualquer espaço);
  • usem seus espaços para convencer outros homens sobre machismo;
  • revejam a amizade com quem não estiver disposto a parar com os abusos e assédios;
  • sejam igualmente responsáveis pelos seus filhos;
  • parem de consumir pornografia (esta indústria alimenta uma visão subserviente e objetificada da mulher, e tu, homem, sabe que isso influencia nas relações sexuais. Além disso, contribui na criação de uma demanda por prostituição filmada);
  • parem de pagar por sexo, pois a prostituição é exploração sexual legitimada;
  • lutem para que não deixem de contratar mulheres no trabalho de vocês pelo argumento “mulher engravida”;
  • lutem contra a desigualdade salarial entre homem e mulher;
  • não contem nem riam de piadas que menosprezam a mulher (piadas sobre loira, sogra, etc);
  • deixem a mulher falar, sem interromper, sem se sobrepor; aprendam a ouvi-las;
  • rompam com a cultura do estupro (parem de achar que existe mulher “pra casar” e mulher “pra pegar”; parem de julgar uma mulher pelo tamanho da saia que ela usa; parem de pensar que a culpa de um estupro é da vítima);

Com relação aos homens cristãos, a importância de lutar contra a desvalorização da mulher é redobrada, já que o maior homem de todos os tempos e o nosso melhor exemplo, Jesus, se importava e dava valor a elas. No Novo Testamento, no Sermão do Monte, o mais famoso e um dos mais importantes discursos de Jesus, ele próprio vai em defesa das mulheres em Mateus 5.31-32, garantindo a elas seus direitos. Numa sociedade extremamente machista onde muitas vezes o diálogo com mulheres era proibido, Jesus quebrava paradigmas ao ter Marta e Maria como amigas íntimas (Jesus frequentava regularmente a casa delas). Jesus conversou com uma mulher samaritana, em um contexto onde judeus possuíam fortes desavenças com samaritanos (João 4). Jesus defendeu uma mulher diante de uma série de acusadores que procuravam apedrejá-la (João 8). Jesus tocou em uma mulher que tinha um fluxo de sangue havia 12 anos, e, na sua cultura, isso significava 12 anos em que ela era considerada impura por todos (Marcos 5); Jesus não só a liberta de sua doença, mas resgata sua posição social. Quando Jesus perguntou à Maria Madalena ‘Mulher, por que choras?’ em João 20.13, Ele demonstrou que era capaz de expressar empatia pela dor da mulher. Por ser importante para Ele, a dor dela também o afetava. É clara e incontestável a movimentação de Jesus a fim de resgatar a dignidade da mulher e desfazer a ideia de inferioridade com relação ao homem. Se Ele é o nosso exemplo de homem perfeito, devemos agir como Ele agiu com relação às mulheres.

Além do mais, toda forma de opressão a algum ser humano não só é maldade, como também é uma blasfêmia ao Deus que criou todas e todos de forma igual, fazendo-os à sua Imagem e Semelhança. Portanto, toda vida é inviolável e, dessa forma, tratar as mulheres com desprezo é cuspir na cara do Deus que as fez revestidas de dignidade. Não há nenhuma base no Evangelho para defender a opressão, o ódio, a segregação e o MACHISMO. A ideia de inferioridade da mulher não é defendida pela Palavra, pois Paulo afirma em Gálatas 3.28 que “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.” Como Igreja de Cristo, é nosso papel combater toda forma de injustiça, não baseados em aspectos político-ideológicos, mas em imperativos bíblicos. Dessa forma, é fundamental romper com essa cultura de desvalorização da mulher para que a Igreja possa transformar a sociedade.

E onde ficam os homens? Se ainda não ficou claro, o lugar dos homens é na luta contra a carne e contra seus pecados, dentre eles o machismo. Sim, o machismo é um pecado intrínseco ao homem e apareceu logo após a queda. Quer provas? No relato de Gênesis 3.1-7, Adão culpa Eva, dizendo que ela o enganou. Mas o fato é que Eva foi enganada, não ele; Adão conscientemente preferiu agradar seus olhos e sua mulher do que a Deus. O machismo de Adão se mostrou na omissão e na desonestidade. E não é assim até hoje? Afinal, aquela moça que foi estuprada estava com uma roupa curta demais; os filhos são mal educados porque a mãe não educou direito; a casa está bagunçada porque a mulher é relaxada; a esposa apanha porque não tem sabedoria e paciência para lidar com as grosserias do seu marido; o homem não pode usar aquela roupa que ele queria porque a mulher não lavou… e vai longe! Homens cristãos, não se omitam perante seu pecado e sejam responsáveis para assumir a sua culpa. Dou mais umas dicas: parem de olhar com malícia e desejo para as mulheres (Mateus 5.28); parem de considerá-las incapazes de realizar algo, pois, quando vocês agem assim, estão tirando delas a integridade que Cristo as conferiu, além de desobedecer ao que está escrito em I Pedro 3.7: “Sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-herdeiras do dom da graça da vida.” De uma vez por todas, entendam que submissão não quer dizer subserviência e obediência cega, mas sim o respeito aos maridos, que devem amar as suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregar a ela como Ele fez (Efésios 5.25). E, por fim, amem-nas como a vocês mesmos (Efésios 5.28) e tratem-nas com o tratamento que vocês gostariam de receber (Mateus 7.12) Visto que o maior mandamento deixado por Jesus a nós é o amor a Ele e ao nosso próximo (Mateus 22:37-39), os homens cristãos que afirmam amar as mulheres não devem se omitir frente às injustiças que elas sofrem.

Homens e mulheres, à luta contra o machismo!

*Referências:


Poliana Einsfeld da Silva é estudante de Serviço Social da UFRGS, militante feminista e membro fundadora da comunidade cristã Abrigo.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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