Experiência: um relato pessoal sobre a caminhada e os desafios em ser mulher no trabalho de obreira de tempo integral em um movimento estudantil

Desde pequena

Sou natural da cidade de Guaxupé, minha querida cidade ao Sul de Minas Gerais, mineiríssima! Cresci em uma família cristã, sou a segunda de quatro filhos, somos duas mulheres e dois homens, Raquel, Lia, João e André. Lá em casa fomos criados na Palavra do Senhor, frequentando a Escola Bíblica Dominical, Escola Bíblica de Férias, acampamentos, retiros, congressos etc… E isso fez com que desde pequena surgisse em meu coração o desejo de ser missionária. Meus pais nunca me desanimaram, mas apresentavam a nós (a mim e a meus irmãos) várias organizações missionárias. E hoje, nós quatro somos envolvidos com alguma organização missionária, seja como voluntários ou como missionários de tempo integral, graças a Deus.

Devo aos meus pais essa consciência missionária e minha convicção de fé em Jesus Cristo. Assim como o Apóstolo Paulo elogiou a mãe e avó de Timóteo pela criação na Palavra que deram a ele, eu elogio meu papai João e minha mamãe Lourdes, devo sim minha fé a eles, e claro a Deus que me tornou filha deles.

Dentro da minha criação não tive dificuldade em manter esse sonho por ser mulher, ou nunca fui desencorajada por ser mulher, a única preocupação dos meus pais era que eu queria ir para a África, e ir tão longe assim, os preocupava. Coisas normais de pais superprotetores.

Envolvimento na ABUB

E foi assim que, aos 18 anos, cheguei para os meus pais e disse que queria ser missionária e dedicar minha vida em alguma organização. Fui orientada por dois pastores a fazer faculdade antes e depois fazer algum curso teológico ou de missões. Em 2005 ingressei no curso de Serviço Social na UNIFEG (Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé). Amei o curso, me identifiquei muito com a profissão e estagiei desde sempre na área. Deus tinha outros planos pra mim, pois foi nesse mesmo ano que um amigo me apresentou a ABUB e me fez líder – quem conhece a ABU sabe que você nem pode dar as caras que já vira presidente, e assim fui.

Me envolvi com a missão desde o primeiro ano. Em 2008 conheci a ABUB em nível nacional e me apaixonei pela missão, trabalhando como estudante e depois na assessoria auxiliar. Também, não enfrentei nenhuma dificuldade por ser uma líder mulher, nem pela ABUB, nem pela minha igreja e nem pelos meus amigos.

Trabalhando em tempo integral

Foi em 2010 que tive a oportunidade dada por Deus de fazer o Estágio em Assessoria, que seria ministrado por Phil e Carol Rout na região SP/MS. E foi nesse ano que senti que Deus estava direcionando minha vida para trabalhar de tempo integral com a ABUB. Me coloquei à disposição do Senhor e da ABUB e em Janeiro de 2011 entrei como obreira da Região Minas Gerais, na transição com a região Centro-Oeste* E fiquei em Minas até Abril deste ano. Neste período enfrentei algumas dificuldades por ser mulher que gostaria de compartilhar.

Aprendendo a entender os ensinamentos de Deus em diversas situações

Minha experiência com a “reunião secreta das meninas”

Em 2010, no meu Instituto de Preparação de Líderes (IPL), tive meu primeiro contato com a “reunião secreta das meninas” e fiquei sabendo também que tinha uma “reunião secreta dos meninos”. Tive uma experiência nada boa nessa “reunião secreta das meninas”. Eu e uma amiga da mesma região fomos constrangidas a responder se estávamos interessados no mesmo menino, pois uma das meninas presente na reunião conversou com ele e ele demonstrou estar interessada em nós duas. Essa menina que era amiga dele queria ajudar ele e nos colocou nessa situação constrangedora, pois se umas de nós estivesse interessada o ajudaria a se decidir. Bom, eu fiquei chocada. É claro que tudo isso era uma brincadeira, e eu não fiquei com raiva da menina, pois ela não fez por mal, pelo contrário, todas as meninas estavam rindo e na hora eu agi da melhor maneira possível. Mas depois eu fiquei pensando na situação constrangedora em que fomos expostas.  Não bastasse essa situação, fizeram a lista do “menino mais casável” e do “menino mais bonito”. É claro que o mais casável não era o mais bonito e assim vice-versa. Também fiquei chateada com essa situação, mas deixei passar.

No IPL seguinte, eu estava como Obreira de tempo integral, e era meu primeiro IPL como obreira (na verdade era meu primeiro mês como obreira), decidi fazer diferente essa “reunião secreta das meninas”. Eu e mais alguma obreiras e algumas meninas começamos a incentivar um novo jeito de levar a reunião e foi uma ótima experiência, pois compartilhamos histórias de vida, lutas e dificuldades umas das outras. Desde então, essas “reuniões secretas das meninas” no IPL tem sido assim, um lugar de compartilhar o que Deus tem feito na vida de cada uma, suas lutas e dificuldades.

Acredito que podemos usar esses espaços de “reunião secreta das meninas” e “reunião secreta dos meninos” para compartilhar um pouco sobre a vida e sobre as dificuldades e lutas que cada idade enfrenta e também para ouvir bons conselhos de irmãs e irmãos mais experientes sobre relacionamentos e sexualidade (fica aqui uma dica!).

Dificuldades que enfrentei ao ser mulher no ministério

Aconselhar meninos também foi e é para mim sempre um desafio, uma vez que penso que o melhor seria que meninos fossem aconselhados por meninos e meninas aconselhadas por meninas. Aqui é um relato pessoal, não quero e não desejo que isso vire pretexto para me chamar de sexista, é apenas uma opinião minha por questão de experiência e vivêencia. Tem coisas que não vou me abrir com um menino simplesmente por ele ser menino e possa ter dificuldades em me entender. Simples assim, vou sentir mais à vontade procurando um determinado conselho com uma mulher por saber que ela irá me entender melhor. E esse meu posicionamento às vezes me colocou em situações de constrangimento, em que não tinha uma palavra de aconselhamento adequada porque não conseguia entender o lado do outro (no caso do menino).

No de 2010 foi a primeira vez que fui exposta a uma situação que me deixou triste, que foi em um grupo de ABUB que estava tendo dificuldades em aceitar meninas na liderança, liderando estudos bíblicos e sendo líideres dos grupos locais. Essa situação me deixou bastante triste e preocupada, mas percebi que Deus estava me mostrando que isso não mudaria quem eu era e quem Ele queria me tornar. É claro que foi difícil, mas continuei fazendo o meu trabalho e orando para que Deus abrisse os olhos desses meus irmãos.

Essa mesma situação passei quando entrei como obreira de tempo integral, pois em um grupo de uma determinada cidade tinha alguns irmãos que tinham dificuldade em me aceitar como obreira. Também tive algumas dificuldades por ser uma mulher que pregava e que era a única obreira da Região, sem ter um irmão acima de mim, ou algo assim. Mais uma vez fiquei triste, porém, ao longo do tempo Deus foi usando os meus dons para glorificar o nome dEle e alguns dos rapazes que tinham essa dificuldade foi quebrantando o coração e deixando Deus moldar.

É claro que essas situações acontecem com alguns de nossos irmãos que se sentem incomodado em serem liderados e ensinados por uma obreira. Eu realmente entendo que existem algumas denominações e irmãos que pensam assim. Poréem, ao longo da minha caminhada cristã, tenho visto o quanto Deus tem me feito crescer em meio essas dificuldades e desafios. Eu realmente não tenho que levar meu ministério de acordo com aquilo que alguns irmãos e irmãs pensam sobre liderança masculina e feminina. De uma coisa eu tenho certeza: dos meus dons e do que Deus me chamou para usar meus dons para que seu nome seja glorificado. Minha caminhada de dificuldades e desafios não acaba aqui, sei que irá continuar, pois alguns irmãos e irmãs não irão mudar de pensamento, mas no que cabe a mim, prossigo para o alvo, dAquele que me chamou para cumprir.

Os desafios do status de relacionamento;

Ser obreira solteira foi sempre um desafio para mim, pois meu sonho sempre foi casar, encontrar alguém para dividir o ministério e ter filhos, para formar uma família que serve ao Senhor. Sempre lidei com a crise da solteirice, abri mãos de relacionamentos e sentimentos só porque o rapaz não queria uma esposa missionária ou com desejo de se dedicar de tempo integral ao trabalho ministerial. Foram alguns anos de solteirice e de tristeza, até que um dia, em uma conversa com o Phil Rout, entendi que minha satisfação completa tinha que estar em Cristo e no seu imenso amor, e não no desejo de me casar e constituir família. Se Cristo não fosse minha satisfação total, ninguém iria me satisfazer. Foi assim que entendi minha alegria, e comecei a viver o desafio de maneira mais leve. Se Deus me desse um esposo tudo bem e se Ele não me desse, tudo bem também. E assim foi que Ele me deu o Davi, um homem que sempre paquerei e admirei, um homem que me aceitou como sou, e não quis me mudar para casar comigo. Casou comigo sabendo das coisas que penso e das muitas coisas em que não concordamos. O mais importante temos em comum: o amor a Cristo, o desejo de servi-lo e o amor um pelo outro. Mesmo sendo tão diferentes estamos dispostos a aprender um com o outro, a aceitar nossas diferenças, a aprender a respeitar e a amar.

Bom, meu breve relato se tornou uma carta! Creio que O Projeto Redomas é uma ótima oportunidade para compartilhar e ouvirmos uns aos outros. Vamos aproveitar esse espaço para ouvir e sermos ouvidos. Para aprender a amar mais e a servir mais. E se alguém desejar conversar mais, estou à disposição.

Abra seu ouvido e seu coração e deixa Deus agir!  

*As regiões da ABUB não são as mesmas regiões da divisão geo-política do Brasil, para saber mais acesse o site http://www.abub.org.br

 


Lia do Valle é casada com Davi  e Assessora Nacional da Aliança Bíblica Secundarista (ABS) desde Maio de 2015.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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